domingo, 14 de fevereiro de 2010

Do dia dos namorados


Não tenho nada contra o dia em si, não tenho nada contra quem está feliz ou completo na vida. Contudo o que gira à volta deste dia provoca em mim um misto de ideias contraditórias, se por um lado nada de me diz por outro diz-me muito, mais ainda quando, durante toda uma semana, os outdoors, publicidade, campanhas de telecomunicações e todo o género de decorações lembram-me que hoje é um dia a dois, um dia de pares, um dia de plurais e não de singulares. E os singulares parecem ser uma espécie de renegados, de gente que vive à margem, porque aqueles que têm par perguntam-nos sempre pelo nosso, como se fosse um cartão de entrada para uma festa da qual não podemos participar por muito desejo que os anfitriões tivessem que o fizéssemos. E depois há os pares que se “aguentam” somente para ultrapassar este dia para depois terminarem tudo, oferecendo presentes e situações especiais simplesmente para dar a entender que ainda estão integrados, porque de outra forma não conseguiriam ultrapassar este dia, para evitarem perguntas, porque hoje é o dia em que não se pergunta por nós mas sim pelo outro. Hoje é também o dia de muitas declarações, de muitos tiros no escuro, de muita gente que se assume e declara-se com fé que a suposta “magia” proporcionada pela data leve ao sucesso o que nem sempre funciona porque certas coisas necessitam mais de que um dia no calendário, necessitam de preparação prévia, de um caminho para se obter uma feedback sincero e positivo. Hoje é o dia de muitos interesses, sobretudo comerciais, é dia dos supostos felizes, dos supostos amantes, das citações lamechas, é o dia das obrigações destituídas de sentimento, é o dia das discussões intestinas que de modo racional querem tornar, pela força, um dia imposto num dia especial.

Hoje é para mim um dia como os outros, um dia em que me esforço por pensar nas coisas boas que se tem, que tento afastar as nuvens negras com alguma ironia e sarcasmo, tentando ver defeitos em tudo o que existe fora de mim. Contudo hoje também é o dia em a minha singularidade pesa numa solidão que bate forte, não de dentro para fora, mas de fora para dentro.

11 comentários:

Rapunzel disse...

Pois...eu prefiro não pensar sequer que dia é hoje, por isso estou a trabalhar (em casa, é certo)!
E por muito que se diga que não se gosta, que é comercial e etc e tal, a solidão bate mais forte neste dia, sem dúvida alguma!
(e a minha mãe não ajuda :P)

Bjs e um bom Domingo para ti :)

Princesse Sofia disse...

Acho que a tua última frase resumo bem o sentimento de todos aqueles que hoje não têm "uma metade". A obrigatoriedade de hoje em dia ter de se ter alguém faz com que a maioria das pessoas aguente namoros e casamentos em vez de os viverem e disfrutarem deles...

Kikas disse...

olha meu querido, eu tenho namorado e nem vou estar com ele hoje. para mim, hoje não é O dia. todos os dias devem ser dias.

anaferro disse...

Ainda há pouco falava nessa sensação de quem não tem namorado hoje ficar um pouco à margem da sociedade. É um histerismo colectivo e é o dia em que pessoas que nunca se olharam devidamente oferecem rosas vermelhas e passeiam na rua como se apenas se namorasse neste dia. Um verdadeiro corso "namoradesco". E eu vejo a maior parte das pessoas vestidas de palhaços!

Em anos de namoro nunca festejei este dia, nunca. E agora que estou sem par, correndo o risco de parecer a ressabiada e ser marginalizada, continuo a odiar este dia, como todos os outros em que se apela ao que de mais artificial pode existir.

Por isso, nada de solidão, sejamos felizes na nossa singularidade e façamos deste dia um dia feliz como todos os outros do ano.

Um beijinho :)

Nirvana disse...

Para te dizer a verdade, já vi tanta hipocrisia florescer como uma hera trepadeira nos dias dos namorados que não me diz nada. A mim não me pesa mais hoje do que em outros dias em que pesa. E outros em que não. Não por ser o dia de hoje.
Mas a comercialização dos dias, sejam do que for, faz com que a exteriorização das coisas seja uma obrigatoriedade. Ainda ontem um amigo meu me dizia "que grande seca, tenho de comprar uma prenda para a M". Prendas assim são dispensáveis. Já passei dias dos namorados com namorados, prefiro mil vezes uma rosa oferecida num qualquer dia sem motivo nenhum a não ser eu gostar, do que uma prenda neste dia.
Bjks

Gaja com G maiúsculo disse...

Este dia é simultaneamente especial porque tem um significado, tal como se celebram os aniversários, mas tal como tu dizes é forçado, sem dúvida um dia essencialmente comercial.
Confesso que saí de manhã e regressei agora, além so cansaço, ver algumas situações que são algo forçadas, tal como as rosas e as prendinhas.
Concordo, que sem dúvida alguma, nos tempos que correm e para as faixas etárias dos 20 e 30 anos, quem não tem um namorado/a é colocado à margem da sociedade, mesmo de alguns grupos de amigos. Posso ainda afirmar que neste momento sinto bastante isso, porque sou a única dos meus amigos que não está numa relação, e é injusto, complicado, mas é Vida.

Bom domingo para um Amigo especial ;)

Beijinhos

Girl in the Clouds disse...

Realmente é um dia como todos os outros!! Mas, enfim a parte comercial tem que existir nos dias de hoje....

S* disse...

Uma palavra: comércio.

Joaquim Lucas disse...

Texto, sentido, visceral e honesto sem ser 'lamúrias'. Um abraço.

GATA disse...

Não gosto de datas importadas nem de afectos com dia marcado! And so I rest my case!

L'Enfant Terrible disse...

Joaquim Lucas
Sê bem vindo!