segunda-feira, 24 de maio de 2010

Chama


Quando se apaga uma pequena chama, uma pequena luz dentro nós que reproduz a mais ínfima das esperanças, por mais pequena e fraca que seja, sente-se sempre uma súbita dor, um grito mudo e ácido que fulmina o nosso interior. Ficamos estupefactos, abismados, surpreendidos, exactamente por ser algo tão exíguo, mas que sabíamos ali, acabar por nos levar a caminhos tortuosos na surpresa da sua extinção, a qual se temia mesmo antes de acontecer, mas que não se sabia como evitar, não por falta de vontade, não por falta de conhecimento, mas pelo receio de se consumir todo o oxigénio que a alimentava. Olha-se para a cinza que formou e sente-se um vazio gélido, sente-se um nada que nos invade, uma revolta por nada ter-se feito e é então que se percebe que a cegueira não é deixar de ver, mas sim ver e não perceber aquilo que se vê e assim se perde aquilo que não se teve, nem se sonhava ter.

4 comentários:

Psiuuuu!!Sou eu! disse...

Sabes gosto mesmo da forma como escreves, fazes pensar, analisar, entender, compreender, fazes parar, algo cada vez mais raro na sociedade de hoje.
É verdade quando essa chama se apaga por mais infima que seja, provoca tudo isso, gostei particularmente desta parte "a cegueira não é deixar de ver, mas sim ver e não perceber aquilo que se vê e assim se perde aquilo que não se teve..."
Bjito e boa semana

Anira the Cat disse...

Por mais ínfima que seja, a chama é sempre uma chama. E queima...

Bjokas

Nirvana disse...

Como tudo o resto a chama também não sobrevive sozinha. É capaz de o fazer durante algum tempo, mas depois de consumir o oxigénio que a rodeava, precisa de mais, e senão o obtém, apaga-se. Ver e não preceber o que se vê, nem sempre é propositado. Cada vez me convenço mais que só vemos o que estamos preparados para ver.
Beijinhos :)

Chronis disse...

E resta a cinza e um grito mudo...