quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eu não queria, juro que não queria fazer um post político, mas face aos tempos que correm não consigo resistir


Em ano de centenário da República é por demais curioso ver que em alguns sentidos pouco mudou, tanto mais que esse pouco se mantém igual justamente aos tempos da monarquia supostamente constitucional que tivemos. A esse propósito e para dar algum grau de actualização em relação aos tempos que correm exponho uma "farpa" de Eça de Queiroz que foi depois compilada na obra "Uma Campanha Alegre". Qualquer semelhança com a realidade actual é pura coincidência:

Maio de 1871


Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista, e o constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro par. tidos oficiais, com jornal e porta para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? - Vejamos:

O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.

O partido histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.

O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.

O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!

Todos quatro são católicos,

Todos quatro são centralizadores,

Todos quatro têm o mesmo afecto à ordem,

Todos quatro querem o progresso, e citam a Bélgica,

Todos quatro estimam a liberdade.

Quais são então as desinteligências? - Profundas! Assim, por exemplo, a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.

O partido histórico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas. O partido regenerador nega, nega numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são - as Públicas Liberdades.

A conflagração é manifesta!

Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... - Propõe um imposto.

«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho. - O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»

Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria!

— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?

E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico!

E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de

S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.

Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar.

Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da

Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados!

Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança!

— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho.

— O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor

Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...»

Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam!

«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)»

E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição.

Todos estão lúgubres.

— «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! - Guerra ao imposto!...»

Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!


(in, Uma Campanha Alegre de Eça de Queiroz, Capítulo II - Os quatro partidos políticos)

3 comentários:

hierra disse...

O Eça tenho o dom de pôr o dedo na ferida, e parece que está sempre actual...lá está, ele captou a essencia de um povo e esta não muda...

Sofia disse...

Olá, nem imaginas o quão fula eu estou com este PEC II (Plano Estamos Cilindrados, parte II, na realidade mais próxima de si). Mas como é que chegamos a este ponto? Aumentam-se os impostos? Para quê? Para haver mais receitas? Ok, mas o essencial é cortar nas despesas. Nas des-pe-sas! Agora é que eu vejo a lógica do submarino: para o afundar ser mais rápido. Olha, eu cá fico em terra!
Pronto, já desabafei.

Beijinhos,Sofia

Anira the Cat disse...

Grande Eça, sempre actual! Continuamos como há dois mil anos, quando os Romanos nos invadiram: não nos governamos nem nos deixamos governar!

Bjokas