terça-feira, 31 de agosto de 2010

Definição #2


Muitas vezes definimos aquilo que somos por um conjunto de verdades, de conceitos, de valores que dizemos possuir e defender. Da mesma forma é por aí que revelamos os nossos defeitos, as nossas fraquezas e sobretudo as nossas contradições quando contrariamos aquilo que sempre dissemos, quando nos vemos obrigados a alterar a nossa posição ao assumirmos o erro, ao verificarmos que tudo é questionável tal como nos próprios e aquilo que pensamos ser. Definirmo-nos por um conjunto de conceitos é limitar-nos a um conjunto de ideias racionais, precisas e muitas vezes pouco flexíveis, mesmo quando a flexibilidade faz parte dessa lista. O certo é que aquilo que somos é mais o que sentimos num momento, em vários momentos, aos nossos olhos, aos olhos dos outros, é um mar que se move sem se definir mas definindo-se como água que se movimenta constantemente não deixando de ser o que é, apenas alterando a sua forma dentro de padrões ilimitados mas que todos reconhecemos como próprios da sua essência. Definirmo-nos é difícil, senão mesmo impossível, somos mais e somos menos, somos tudo e não somos nada, somos aquilo que somos e por mais palavras que se usem elas podem-se sempre perder no vazio da verdade, porque a realidade é algo que ultrapassa qualquer vocábulo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Tempo e memórias


Desapareces por entre as brumas do esquecimento, mas mesmo assim, mesmo ausente, chamas-me com o teu canto de sereia. A memória que deixas-te foi curta mas indelével, tal como a promessa de um até amanhã que nunca se cumpriu, a qual persigo, esforçando-me para não esquecer, guardando um espaço na minha rotina para aguardar e esperar pelo que foge, pelo que foi, pelo que sei que não volta, acreditando ao mesmo tempo nesse talvez enganador, ilusório, que me não passa de uma brisa inaudível que se desvanece por entre as frestas do tempo que se desfaz como torrões de areia, que corre e deixa atrás de si cicatrizes que podem até sarar, mas raramente podem desaparecer.

domingo, 29 de agosto de 2010

O narciso

Não gosto de usar os WC’s públicos. Embora hoje em dia sejam espaços que apresentem alguma cuidado, prefiro sempre fazer o que tenho a fazer no sossego do lar, contudo algumas vezes é necessário recorrer a esses locais, nem que seja para lavar as mãos. Para mim o grande problema dos WC’s públicos é o facto de quem os frequenta usar esse espaço fazendo ali aquilo que decerto não faz em casas demonstrando o típico raro civismo no que toca ao respeito pelo que é de todos. Contudo há quem se sinta tão à vontade que confunda o que é um local privado com um público. A este propósito ontem, num desses locais, enquanto lavava as mãos podia escutar um tipo que de trás da porta vociferava uma série de gemidos misturados com palavrões na certa tentativa de abafar a banda sonora provocada pelo esforço, cenário este que me estava a meter um nojo de morte, pelo que me apressava para sair dali. Então, após alguns segundos de silêncio oiço o mesmo sujeito dizer: Eh lá! Granda narciso!!

E eis que não sabia se havia de vomitar, ou se havia de me desmanchar a rir! Na falta de saber qual a melhor atitude optei por sair dali o mais depressa possível!

[Isto realmente não há condições!]

sábado, 28 de agosto de 2010

Pensar e repensar


O que nos leva a pensar e repensar, a fechar-nos num círculo sem fim de onde não se pode sair? Talvez seja o mesmo que leva um cão a rodopiar atrás da própria cauda, ou seja uma razão que ao certo ao certo se desconhece. Gostamos de nos prender em labirintos, mesmo quando sabemos que não têm fim, mesmo quando são escuros, vazios e erráticos, mas de algum modo são familiares o que os torna acolhedores, penosamente acolhedores e mesmo que sejam tortuosos acabam por ser a única coisa que temos, o único algo que se nos conduz numa direcção, se bem que a chegada e a partida começam sempre no mesmo ponto. Negamo-lo muitas vezes, dizemos que somos livres de tudo e de todos, mas somos muitas vezes prisioneiros de nós próprios. Quebrar esse circuito carece de uma revolução, de uma fractura, que pode ser sonora e forçada ou silenciosa e natural. Sair desse labirinto onde nos perdemos acontece por acaso ou pela exaustão que força o grito e a revolta, sendo que, libertos atingimos um auge, uma memória que fica, um momento que perdurará e ateará no futuro a centelha da lanterna que nos guia e nos mantém sempre a movimentar, mesmo quando não se sai do mesmo sítio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Incertezas


Na incerteza de agradar nunca encontro o que procuro, debato-me para tentar perceber o onde e o porquê, resumindo tudo ao esperar pelo amanhã, talvez mais sorridente, talvez diferente, onde o certo é a ausência de mudança, do mesmo modo que desejo uma amnésia permanente para tentar ver tudo com outros olhos, onde uma sala gigante se abre vazia de conteúdo mas cheia de uma expectativa silenciosa que não se vê mas que se sente e agora e sempre produz gritos sem parar, por mais que me queira esconder ou esquecer. Talvez um dia o engano me engane e então deixarei de olhar com a cegueira imposta pela incerteza e quem sabe encontrar um horizonte que julgo perdido.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

...


Em muitas situações partimos como perdedores, não porque pensamos que vamos perder, mas sim porque não temos a noção de como ganhar…

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os grandes amores


Os grandes amores são os impossíveis, aqueles que só podem ser sonhados e não podem ser correspondidos, são aqueles que se desejam mas não se podem satisfazer a não ser no campo da ilusão e resumem a um único momento toda uma história, a qual fica para sempre guardada num qualquer lugar do nosso interior, para depois ser autopsiada, reformulada e pensada ao mínimo estimulo que possa surjir. Os grandes amores existem para não se cumprirem, existem para nos fazer sofrer, mas também para nos fazer sonhar, enganam-nos e colhem-nos nas suas tortuosas malhas. Os grandes amores são os genuínos, os súbitos, que aparecendo do nada, de um acaso, de um simples olhar, suscitam uma reacção química imediata, cuja natureza é difícil de manter, de atingir, de fazer durar, de digerir, servindo como uma referência enganadora onde nos podemos afogar, ou pela qual se descobre o caminho de volta para a realidade. Os grandes amores são aqueles que não se esquecem e crescem dentro de nós sem que possamos perceber, invadem-nos e deixam-nos doentes, fazem-nos sorrir e querer viver, fazendo-nos chorar e querer morrer, são a promessa que queremos cumprir, mas talvez por isso raras são as ocasiões em que isso ocorre.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Jogadores, treinadores e árbitros de bancada"...


...dizia-me ontem alguém a propósito do nosso povo. De facto nós somos os melhores e fazemos tudo melhor que ninguém mas, nos bastidores, de língua, em teoria e não como agentes que estão no terreno efectivamente, não como profissionais dos mais diversos assuntos. É recorrente ouvir “se fosse comigo”, “se fosse eu a fazer” ou a melhor, “se fosse eu a mandar”! Isto vem também a propósito da irritante mania que toda a gente tem de opinar do alto da sua suposta sapiência sobre o trabalho que os outros fazem, quais almas iluminadas que criticam sem pensar, julgando-se melhores em tudo, não parando um pouco para pensarem que se as coisas são feitas de um determinado modo porventura há uma razão para tal acontecer, razão essa que ultrapassa em bastantes ocasiões as capacidades intelectuais de quem é um mero espectador. Gostaria imenso colocar alguns dos espectadores no terreno, agarrar neles e dizer: Vá força, ponha em prática a teoria!
Penso que me iria rir um bocado, com a fuga de alguns perante a responsabilidade e a atrapalhação misturada com os protestos de outros! E depois perguntar novamente: Então? Não se safa? Mas não dizia que fazia melhor? Oh...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Planear


Sempre que se cai no planeamento, no pensar em algo, na teorização, estudando tudo até ao ínfimo pormenor acaba-se sempre por não se fazer nada. Embora não negue que algumas coisas tenham de ser pensadas e ponderadas, quando se aprofunda e se perde demasiado tempo nessa acção acaba-se por se cair num vício de perfeccionismo levando à permanência do projecto no papel porque falta sempre qualquer coisa. O mais difícil não é planear, o mais difícil é e será sempre concretizar e se um plano demora demasiado tempo a estar concluído acaba por englobar tanto a teoria como a prática para a qual se destinava. Muitas vezes se confunde a vida com o pensar a vida, sendo que pensar somente não é viver.
[E não se pode esquecer que muitos planos saem furados!]

domingo, 22 de agosto de 2010

Depois


Depois nada fica igual ao mesmo tempo que tudo ficou na mesma, pensa-se em tudo, nos grandes e pequenos pormenores, no que correu bem e no que correu mal, têm-se em atenção as virgulas, acentos, pontuação e ortográfia, toda a métrica da expressão, dos sons, todos os gestos que se recordam e procurando-se lembrar os que foram esquecidos, omitidos, pensados mas não ditos. Ao reflectir-se relembram-se igualmente os sonhos, as ilusões, um certo calor no peito e o sorriso expontâneo no rosto que explodiu por segundos, porque nesse momento particular pareceu ver-se uma luz, uma esperança, uma história que poderia acontecer e suceder como algo natural, cuja melodia cega torna um único instante infinito. Mas depois, depois digere-se o que foi, procura-se, tem-se de o fazer, sentem-se os sucos gástricos na alma, carregando em nós o ar soturno que apenas produz o suspiro ao ver apenas o deserto que sucede ao deserto por onde se caminhava antes e não o oásis que se esperaria com a sua frescura tranquila.

sábado, 21 de agosto de 2010

Conversas #4


Ela: Não gosto nada de te ver assim! Tens de arrebitar!
Eu: Então "arrebita-me"!!
Ela: Mau mau, não te estiques!
Eu: Mas então...?!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Constatação #5


Há coisas que num dado momento parecem fazer todo o sentido de ser, surgem como uma matéria que se pode usar para construir o quer que seja, mediante a inspiração da altura, contudo, se não se aproveitar nesse instante nunca mais voltam a fazer sentido novamente e perdem-se para sempre tornando-se a ideia algo inerte que raramente se pode ressuscitar com o vigor que outrora lhe conferia a sua substância! E isso ocorre vezes demais para o meu gosto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tanto


Tanto podia ser dito, tanto se disse mas, tanto se conversou mas numa conversa em monólogo embora não fosse para um monólogo que ela tivesse nascido, tendo-se inspirado sim num diálogo que nunca chegou a acontecer. Tanto podia ter sido proferido, tantos pensamentos, tantas palavras, vogais, consoantes, numa combinação que seria fruto desse momento único, irreal, inspirado pela presença aparente da realidade, realidade que nunca sucede, que nunca aconteceu, mas podia ter acontecido, se houvessem menos hesitações, barreiras, desconfianças, complicações de todo o género e tudo fluísse naturalmente como água que corre cristalina e revolta num ribeiro. Tanto podia ter sido dito mesmo sem palavras, só por um olhar, por um gesto, formas estas que não dão guarida à mentira nem à desconfiança porque ainda permanecem puras, de tal modo que tememos o seu uso.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Esperar


Esperar pelo acaso é igual a não esperar nada, mas é quase impossível ficar sem esperar quando não se tem nada…

terça-feira, 17 de agosto de 2010

...

Hoje na rua cruzei-me com uma mulher bonita, mais bonita ainda pelo sorriso que trazia estampado no rosto, o qual irradiava verdadeiramente a sua beleza. O sorriso não era para mim, o sorriso era dela e a sua origem ficará para sempre perdida no momento e pensamentos que a mesma levava dentro de si. Mesmo tendo passado a meu lado não me viu e mesmo que tivesse visto não seria um sorriso que encontraria, seria um rosto inerte, sério que se tentaria esconder por entre gestos de timidez, contudo bastava que os olhos dela encontrassem os meus para que em mim se produzisse uma faísca que despertaria um sorriso nos meus lábios...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Pontaria


Ter pontaria não é só acertar, é saber atingir o alvo não só com a técnica mas também com o inconsciente, porque embora se possa treinar é preciso confiança para acertar, para se conseguir fazer pontaria e mais do que ver, sentir, como que antevendo o futuro, a direcção, o rumo que vai ser tomado, medindo de forma instintiva a distância, os elementos que compensam ou desviam o percurso, fixando uma estratégia que não se pode muitas vezes explicar e que vai além do racional. Ter pontaria não é acertar à primeira, nem à segunda, é falhar sabendo porque se falhou e acertar apenas porque se sentiu que se podia acertar não havendo certeza concreta de o fazer.

domingo, 15 de agosto de 2010

Post político


Para que um post seja político basta escrever nada de concreto, salientando apenas o concreto da substância do nada!

sábado, 14 de agosto de 2010

Por vezes...


Tenho vontade de me fechar em casa, hibernar, ausentar-me do mundo, fechar-me à chave num mundo só meu e trancar essa porta para não ver nada nem ninguém…

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

...


Primeiro surge a esperança, enganadora como só ela sabe ser, iludindo e fazendo-nos pensar num talvez aparente, na concretização de um sonho que se havia à muito deixado de procurar. Mas aí cai-se na armadilha, que nos isola, sufocando-nos numa teia ardilosa da qual queremos sair, julgando que isso é suficiente para voltarmos a respirar. Contudo, mesmo soltos, livres, acabamos sempre por transportar connosco essa memória que mais não é que pensar que se podia, que estava mesmo ali ao lado, pronto a colher, sabendo que seria bom demais para ser verdade e que tudo não passava de uma ilusão.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Supostamente


Durante a nossa existência fazemos diversas más escolhas. Supostamente fazer más escolhas faz parte da vida permitindo ganhar-se a sabedoria necessária para as evitar e aprender-se desse modo a fazer-se boas escolhas. Supostamente…

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Olhar para ti

Olhar para ti, recortando com os olhos toda essa beleza selvagem que tens, todo esse contorno luxuriante que possuis faz acender o desejo, ao mesmo tempo que se percebe a perfeição da tua alma, o encanto do teu espírito pelo teu sorriso cristalino que derruba qualquer vontade e afoga a razão, a qual se desfaz num grito mudo. Mas do mesmo modo, olhar para ti é dor, é sentir o querer e saber que não se vai ter, é saber que és uma ilusão somente, algo que surge tão rápido como desaparece, é lágrima que corrói o rosto e faz arder os olhos diante de uma visão que trespassa e corta, levando à cegueira e ao sofrimento…

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Erro crasso


O maior erro que podemos cometer é acreditar que os outros pensam como nós!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Instintos


Queremos ser fortes negando para isso aquilo que por vezes desejamos, escondendo pensamentos, desejos, vontades, remetendo-os para uma cela no nosso ser profundo. A razão sobrepõe-se ao instinto, procura moldar-nos, dizer coisas acertadas se bem que sem o calor ou inspiração que gostaríamos, porque para tal é necessário soltar um pouco do que foi preso e se encontra agrilhoado, esses gritos selvagens e cortantes difíceis de controlar que temperam com magia as frases, mas que se têm de conter e por vezes não se podem sequer usar temendo-se que um descuido os liberte e assim tomem conta de nós e o seu sentido puro, agreste, verdadeiro possa destruir tudo aquilo que somos, construímos ou procuramos alcançar, traçando para sempre uma vitória inalcançável, um desafio por superar, desafiando uma esperança, já de si destroçada, a proferir novamente palavras dos seus lábios. Contudo a razão morre, mas os instintos são eternos assim como os desejos que alimentam e fazem crescer dentro de nós, até um dia implodirem e desaparecerem ou quiçá, explodirem tomando a luz do dia e entregam-nos por certo às trevas do desconhecido.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pensar


Pensa-se, sabendo-se que não se pode pensar, porque pensar é saber que nada vai acontecer, mas não pensar é impossível. Tenta-se oprimir, encara-se tudo com pessimismo para que se possa contrariar o pensamento, negando-o, optando-se por outro lado por esvaziar todos os pensamentos, mas dá-se uma luta, entre vectores, que se tocam, que se agridem e deseja-se a amnésia, perder toda e qualquer imagem, real ou ilusória. Mas sabe-se que pensar, de uma forma ou de outra, acaba por acontecer, como uma faísca eterna que permite a ilusão, o optimismo se nos deixar-mos ir, contudo sabe-se, que basta pensar para anular a realidade, porque pensar é sonhar, é resolvermos sozinhos uma equação que não depende só nós e por mais variáveis que possam introduzir a única conclusão a que se chega é que tudo acabará por ficar sempre na mesma, porque tudo começa da mesma forma devido à ponderação de um único pensamento e somente no seio do acaso, do improviso, é que algo pode suceder de forma diferente.

sábado, 7 de agosto de 2010

Ah e tal que está calor!


Pois está, não digo o contrário, mas pela manhã cedo não está assim tanto calor para o raio do esquentador decidir avariar e logo ao fim-de-semana, em Agosto, quando não há nenhum entendido na matéria disponível para vir verificar o assunto, porque a minha sapiência em matérias do ramo já foi esgotada ao ponto de agora só a martelo! Mas o mais “divertido” é uma pessoa entrar no chuveiro, ligar a água, esperar, esperar e esperar e nunca mais a mesma se apresenta somente um pouco tépida. Lá se vai à cozinha, analisa-se o assunto, surge a hipótese – pilhas! Procuram-se outras, trocam-se e…Nada! Tudo igual! Olha-se lá para dentro, dá-se um toque aqui e ali, faz-se o histórico e é recordado que no dia anterior estava a funcionar em perfeição. Dá-se mais uma volta, lêem-se as instruções do manual no mesmo. Analisa-se o esquema, verifica-se o objecto, por baixo, por cima, dos lados e tudo para quê? Para me chatear e dizer que se lixe. Enche-se o peito de ar, afinal é Agosto, está calor, podia ser bem pior, não pode ser assim tão mau diz que até é bom para a saúde!


Mas é mau! Abre-se o chuveiro a água bate no nosso corpo e sinto o mesmo a encaracolar, as mãos quase arranham as paredes remetendo para dentro um gemido mudo. Depois, lá nos habituamos e na segunda volta já não custa tanto, mas custa. No fim até soube bem, afinal até se é forte, fica-se fresquinho e até não se é friorento, de modo que não estava assim tão fria ao ponto de não se poder aguentar. Contudo só de pensar que me posso ter de me submeter novamente a igual tortura, sinto de imediato um arrepio na espinha!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pele


É pela pele que se faz o contacto, que se transmite o calor, que se produz parte da química, a qual se começa a beber com o olhar e se termina digerindo com o tacto. A pele reveste o nosso esqueleto, músculos, órgãos e tudo aquilo que se encerra no nosso corpo, isolando do exterior o nosso âmago mais profundo, o qual emerge pelo toque, quando a textura é sentida e partilhada por outra textura, partilhando-se o cheiro, o sabor que envolve dois corpos numa eterna conjugação de paixão, desejo, mas sobretudo intimidade, num momento breve e único ou constante e incessante. A pele não é uma barreira, mas sim um meio para comunicar e sentir aquilo que existe para além dela, executando um jogo duplo de repulsão e atracção que desaparece somente quando duas almas voluntariamente se tocam.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

...


Tenho momentos sublimes, alturas em que tudo me sai à primeira, de modo perfeito, sem hesitações, sem actos falhados, sem nada a não ser a mais pura confiança. Palavras certas são encontradas, acções decididas e tudo num estado de plena inspiração, onde me inspiro depois, onde percebo que consigo ser e sou tudo aquilo que procuro alcançar. Mas ser esse ser perfeito, ter esses momentos é apenas ser uma parte do que sou, a parte certa, correcta, óptima, mas o outro lado também existe em mim o lado exactamente oposto, que toma o controle muitas vezes, o qual faz falta de modo para equilibrar o primeiro mas acaba sempre por dominá-lo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Do sexo


Todos afirmam que é natural, contudo só se pode falar dele de modo indirecto, subtil, por meias palavras, sem qualquer tipo de frontalidade porque isso é ser explícito, pervertido, tarado ou mesmo louco, é quebrar as regras que a natureza profere através dos instintos, os quais têm de ser equilibrados com a razão para que se possam satisfazer. Poucas são as conversas que não usem esse condimento secreto para cativar, para procurar atingir um alvo, tornando-se o ingrediente que tempera, mas também aquele que se quer consumir, ainda que nunca revelando esse segredo na esperança que alguém o perceba, que alguém decida saboreá-lo no seu estado puro. As receitas são muitas, variadas, imaginativas, mas sempre complexas, escondendo-se por entre intrincadas redes, que embora façam sombra deixam na mesma passar a luz para todos os que a quiserem ver. No sexo todos os que dizem que não, querem dizer sim e todos os que dizem que sim têm direito a um não, porque no sexo pouco é claro, pouco é natural, porque está tudo demasiado preso a um ritual que mais não é que o aplicar de manobras de engano, do jogo de olhares, palavras e gestos, os quais compõem o poema da sedução, esse sim natural para muitos, mas por vezes forçado ou inexistente para tantos outros.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O que somos


Sem sombra de dúvida uma sucessão de acasos, que complexificam toda a existência ao ponto de estarmos constantemente a perguntarmo-nos - “ o que aconteceria se…”

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Regressado


E eis-me regressado das férias, um pouco mais tostado, contudo isso é Sol de pouca dura porque agora tenho de fazer o esforço de voltar a entrar no ritmo, o que nem sempre é fácil e se há pior dia é mesmo aquele que se segue ao fim das férias.



Os eventos destas férias não tiveram nada de extraordinário. Apenas sossego, uma rotina que permitiu recuperar algumas energias físicas, acentuar uma calma que rapidamente se perde, muito Sol, muita praia, leituras começadas, acabadas e outras no entretanto, filmes e séries visualizados, uns que me fizeram pensar e outros que provocaram o oposto, alguns amigos revistos, algum convívio, algumas conversas, umas divertidas, outras sérias, algumas coisas escritas, umas mais pensadas que as outras. Alturas houve em que para mim isso era o ideal de vida, a apoteose, mas isso é porque já se sentiu a apoteose, uma doce memória que fica eterna, queremos uma imitação, uma renovação, mas acaba tudo por ser relativo. Não me posso queixar, tive descanso e no final sinto uma parte de mim tranquila ao passo que outra parece manter a convulsão, flamejante, ardente, sempre eléctrica e caustica. Muitas dúvidas persistem, muitos planos por delinear, tanto por fazer, muito mais por pensar e organizar, a paz nem sempre é apetecível porque nada na vida é perfeito, mas é isso mesmo que torna a vida perfeita por mais constrangimentos a que isso leve.