quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eu não queria, juro que não queria fazer um post político, mas face aos tempos que correm não consigo resistir


Em ano de centenário da República é por demais curioso ver que em alguns sentidos pouco mudou, tanto mais que esse pouco se mantém igual justamente aos tempos da monarquia supostamente constitucional que tivemos. A esse propósito e para dar algum grau de actualização em relação aos tempos que correm exponho uma "farpa" de Eça de Queiroz que foi depois compilada na obra "Uma Campanha Alegre". Qualquer semelhança com a realidade actual é pura coincidência:

Maio de 1871


Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista, e o constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro par. tidos oficiais, com jornal e porta para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? - Vejamos:

O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.

O partido histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.

O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.

O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!

Todos quatro são católicos,

Todos quatro são centralizadores,

Todos quatro têm o mesmo afecto à ordem,

Todos quatro querem o progresso, e citam a Bélgica,

Todos quatro estimam a liberdade.

Quais são então as desinteligências? - Profundas! Assim, por exemplo, a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.

O partido histórico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas. O partido regenerador nega, nega numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são - as Públicas Liberdades.

A conflagração é manifesta!

Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... - Propõe um imposto.

«Caminhamos para uma ruína! - exclama o Presidente do Conselho. - O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»

Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria!

— Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?

E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! cai o ministério histórico!

E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de

S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.

Abre a sessão parlamentar. O novo ministério regenerador vai falar.

Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da

Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados!

Porque, enfim, o ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança!

— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho.

— O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado, apoiado! - exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor

Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maneira de nos salvarmos...»

Murmúrios. Vozes: Ouçam! ouçam!

«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)»

E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição.

Todos estão lúgubres.

— «Meus senhores - diz o presidente, com voz cava. - O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! - Guerra ao imposto!...»

Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!


(in, Uma Campanha Alegre de Eça de Queiroz, Capítulo II - Os quatro partidos políticos)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Da realidade


A realidade chama-nos, apela por nós, sempre que nos perdemos na ilusão, no momento que parece ser perfeito, na descoberta que parece ser plena de tudo o que queremos mas não temos. A realidade parece ser essa tutora que nos diz que a hora do recreio acabou, que é hora de voltar para casa dizendo que amanhã há mais. Mas nós, duvidamos sempre, duvidamos que o amanhã seja igual, sabendo que aquilo que se sente num dia tem de ser cuidado, obrigando-nos à permanência e na falta da mesma, sentimos que jamais voltaremos a ver ou sentir da mesma forma. A realidade arrasta-nos, para o nosso bem ou mal, daquilo que pensamos ser o ideal, a suposta sensação de felicidade, mas também nos liberta daquilo que nos hipnotiza e nos encaminharia para um buraco sem regresso, do qual teríamos muita dificuldade de sair.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Foste...


Foi assim que me deixaste, desapaixonado, frio, seco, um calcário inerte que se deforma ao tocar das lágrimas. Sem voz, sem luz, terra árida que arde sob um Sol tórrido, implacável e que gela sob a noite vazia e glaciar. E o silêncio, o silêncio impera sempre ao lado da solidão, sua eterna companheira, cortante, pesado, que se mistura num grito que pulsa sem parar.
Foi assim que me deixaste, inerte, vazio, mais que perdido e muito longe de ser encontrado, mais indeciso que nunca, mais eu no meu pior que no meu melhor.
E foste, assim como chegaste, de um dia para outro, deixando o rasto da memória inscrito no caminho da minha vida...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Conversas #6


Ele: Essa camisola fica-te mesmo bem!
Ela: Obrigada! Mas porquê? Realça-me os olhos?
Ele: Pois, realça-te os…olhos…

domingo, 26 de setembro de 2010

Ignorância


A ignorância é uma bomba relógio que rebenta dentro de nós quando termina e talvez por isso preferimos por vezes ignorar a saber. Contudo quanto maior é a sua duração maior é a explosão.

sábado, 25 de setembro de 2010

A relatividade das idades


Quando somos crianças os adultos procuram vender-nos as certezas que a vida adulta oferece. Querem-nos fazer crer que quando formos adultos não teremos dúvidas, seremos alguém, podemos fazer tudo, viver coisas que nem sonhamos, procuram-nos transmitir a tranquilidade pela experiência, conhecimento e sabedoria que a escalada etária nos proporcionará. Se por um lado tinham razão, por outro não têm. A vida adulta é um misto de certezas e incertezas. Se certas dúvidas da nossa infância foram sanadas ou simplesmente esquecidas, outras mantém-se e novas vão surgindo. Se a vida adulta é diferente da vida da infância, é, mas as incertezas, antigas ou recentes essas mantêm-se como que a caracterizar não um estágio etário, mas a própria vida, que independentemente da idade permanece igual no seu âmago. Talvez enquanto adultos perdemos até mais do que ganhámos, porque as verdades e são vistas agora de um modo mais turvo do que a claridade que os olhos da infância proporcionam.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Aventuras no Bus #4


Vou eu em mais umas das minhas viagens no bus e eis que entra no mesmo uma miúda bastante obesa, diria mesmo que deveria aproximar-se do estado de obesidade mórbida. Após obliterar o passe senta-se nos lugares destinados a crianças de colo, grávidas, idosos e outras situações que tais. Contudo devido ao seu tamanho, ocupa praticamente dois lugares, sendo que as duas velhotas que iam no banco da frente tiveram de se encolher visto que a rapariga para além dos lados ocupava um largo volume à frente. Enquanto pensava que aquilo era doença (e como tal até se justificava obrigar as velhotas a forçar as articulações e irem apertadas para todas conseguirem irem sentadas) vejo a dita miúda tirar do saco um bolicao que devorou em menos de nada. Ao fim do terceiro bolicao e enquanto ainda procurava na bolsa possivelmente o quarto começo a ponderar que afinal é doente sim, mas para dar ao dente tem saúde até demais. Sem dúvida que há estados voluntários, contudo a velhice e os problemas nas articulações, creio, ainda não entram nesse campo! As velhotas não protestaram, mas creio ter visto laivos de raiva nos olhos de uma, que cresciam de forma proporcional sempre que um novo bolicao era devorado!


[Não duvido que tenha uma doença, agora com aqueles bolicaos todos, comidos como pevides, o combate parece estar irremediavelmente perdido! E eu a ver que ia haver "porrada" por causa dos lugares e conforto nos mesmos!!]

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Perder


Perco sempre que encontro, deixo cair, deixo voar, deixo escapar para nunca mais ver. Tento agarrar, prender, mas sempre num insucesso perene que deixa escapar as fragilidades do meu ser, fugindo também elas ao meu controle e tomando lugar em mim sem que o possa evitar. Perco por azar, por falta de habilidade num malabarismo sincronizado com o qual nunca acerto. Dir-se-ia que é falta de treino, falta de prática, mas ao mesmo tempo deve ser natural, deve ser instintivo e no meio desta contradição algo mais flui para um poço sem fim, para um lugar onde não se pode chegar, sendo impossível segurar, conter, permitir que alcance. Perco sempre que encontro, mas de todas as vezes que encontro à partida tenho a perda garantida, sabendo que a única coisa com a qual vou conseguir ficar será a memória de mais uma perda, sendo que essa lembrança nunca mais se esquece, ficando sabiamente a conspirar para nunca mais se tentar, mas ainda assim, mesmo sabendo acabo sempre por voltar a tentar, talvez por pura amnésia, por pura estupidez, mas também por acreditar que um dia, talvez, não vá perder.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ontem, hoje e amanhã


Ontem via o mundo sob o prisma da eterna luz, da descoberta constante, cheio de esperança e animado simplesmente pelo sonho do amanhã, vago e pouco definido, mas suficiente para com um único pensamento me arrancar um sorriso genuíno e apesar de nada mudar nenhum dia era igual, todos eram diferente, únicos, ficando alguns marcados para sempre como os “meus” dias, inesquecíveis e especiais só para mim, modelos que seguia, pelos quais me guiava.

Hoje tudo é rotina, tudo é igual, pequenos problemas, pequenas soluções, o peso da realidade apenas superado pelo acaso de uma paixão ou outra, revelando-se cada uma apenas mais um desaire, mais uma derrota já esperada, moldada num sonho consciente que se sabe ser falso por não ser isento.

Amanhã espera-se igual ao hoje, espera-se continuar pensando ao mesmo tempo numa esperança que não se sente e pouco se acredita, mas que se quer por todos os meios manter acesa, olhando-se sem ver, procurando-se alcançar as estrelas sem as poder tocar, no fundo querendo um engano para sustentar aquilo que se perdeu para sempre ontem e não se sente hoje.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Conversas #5


Ela: A sério, não sei o que aquilo tem de especial. Explica-me lá, é que não consigo mesmo perceber!
Ele: Bem, acho que não dá para explicar, mesmo que tentasse terias de ter um cromossoma Y para conseguir perceber!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Enganos


O engano parte do erro, da má interpretação, da decisão rápida e não pensada, parte de variadíssimos lugares, mas no fundo o engano parte sempre da nossa humanidade e da facilidade com nos equivocamos. O engano é persistente, revela-se um Pirro constante, uma espinha ou farpa que nos acompanha, seja pela sua manifestação, seja pelo medo que nos provoca levando ao pensar e reflectir das nossas acções. Contudo, o engano maior parte do súbito, parte do momento que requer um reflexo imediato, palavra ou frase pronta a ser emitida, nascendo sem se perceber e depois ri-se pelo efeito que provoca, o qual se espelha no labirinto de remorsos que sucede à nossa frente. O engano pode ser controlado, pode ser afastado e mantido preso, mas para tal é preciso um grande exercício, um grande treino, um estado permanente de alerta, nunca baixar a guarda, mas eliminá-lo é impossível, porque o seu desaparecimento seria o desaparecimento de nós próprios enquanto humanos que somos. Há quem consiga viver com o engano, quem saiba dominar o mesmo, mas muitos poucos são aqueles que conseguem distinguir nos outros o que são enganos deliberados e enganos acidentais. Mais difícil ainda é permitir-nos perdoar ou corrigir os enganos, seja em nós, seja nos outros.

domingo, 19 de setembro de 2010

...


Por vezes tenho a sensação que vivo para o passado, para o futuro, mas nunca para o presente.

sábado, 18 de setembro de 2010

Da liberdade


Por vezes queremos ser livres, imensamente livres, até nos apercebermos que a liberdade, ou aquilo que julgamos ser a liberdade, pode ser ela própria uma prisão expressa pelo nosso desejo de a manter.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ontem ouvi dizer #2


“Saber viver é aprender a usar máscaras.”

Será?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Vontades


Por vezes tenho uma vontade indómita de ir e não voltar, de procurar e não encontrar, de encontrar sem procurar, se rir e ao mesmo tempo de chorar, de sentir tudo sem sentir nada, de ter tudo e nada, de andar sem destino e perder-me sem sair do trilho, de olhar sem ser visto, de ser visto sem olhar, de cair sem me levantar, de me levantar sem cair, de sair do ritmo sem me descoordenar, de apanhar o ar com uma mão e deixar-me esmagar pelo peso atmosfera, sentir-me ao mesmo tempo leve e pesado, a respirar e a asfixiar. Por vezes tenho uma vontade indómita de viver apenas por viver, de ter consciência que o aqui e agora aconteceu, acontece e acontecerá, apenas se o conseguir perceber a tempo de o saborear, de o sentir para não o perder e guardar um pouco de toda essa vontade para uma altura em a mesma parece faltar tal como por vezes o ar parece extinguir-se.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dos Erros


Quando se erra deseja-se fazer de novo, começar de novo, procurar novamente a solução, abrir outro horizonte, outro caminho, para assim se superar o erro, o qual pode ser inconsciente, consciente, distraído ou apenas por falta de reacção no tempo certo. A vida é feita de erros, uns que se conseguem reparar, outros não. Alguns ficam no limbo, perdidos para sempre em nós, alimentando uma amargura somente superada pela esperança de um dia sermos capazes de voltar a tentar e então, alimentados pela sabedoria da experiência, não voltar a cometer um erro. Os erros ensinam-nos, ou deveriam ensinar, deviam apontar qual a chave para a sua solução, mas por vezes são mudos ou nós demasiados cegos para ver. Os erros persistem e vão persistir, sempre, ontem, hoje, amanhã, resta saber como os vamos encarar, se os esperamos à partida ou se os esquecemos para assim perdermos o medo que o seu simples vislumbre provoca.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Estatísticas


Dizem as estatísticas que há mais mulheres que homens, sendo que com base nisso alguns afirmam o facto que para cada homem há sete mulheres. Pois não sei, a mim pelo menos não me calha uma quanto mais sete! Deve haver algum lambão que tem por aí umas catorze! Bem se vê que nada falta no mundo, está tudo é mal distribuído ou então, contrastando com tudo isso, como ouvi dizer em tempos, uma estatística é apenas e só uma grande mentira feita de pequenas verdades.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sonhos

Há coisas que sonhamos mas são um sonho mudo, invisível, que se mantém escondido no nosso interior, porque sabemos que tal é tão só isso mesmo, um sonho, cujo graça é saber que nunca aconteceu, mas não sabemos se vai acontecer, persistindo a dúvida, a incerteza e o desejo, ainda que diminuto, inaudível dentro de nós. E quando sucede o impossível, o sonho torna-se real, está ali à nossa frente, visível, tangível, luminoso e rapidamente gera-se uma alegre fronteira, uma miríade de pensamentos, incógnitas começam a deixar de o ser, névoas começam a desvanecer e a luz parece preencher os nossos olhos com um brilho resplandecente. Mas a euforia é breve, apesar de alguns sonhos se materializarem isso não quer dizer que sejam alcançados, porque muitas vezes eles estão ali, à nossa frente, prontos para serem agarrados, mas uma barreira fria impõe-se, separa-nos deles, perto, mas tão longe e duas realidades mantêm-se separadas por uma parede de vidro, pela qual uma parte vê a outra, mas ao mesmo tempo o outro lado nada vê pelo embaciar ofegante do primeiro.

domingo, 12 de setembro de 2010

Há dias #4


Há dias em que sinto que posso esperar pouco da vida, mas ainda assim continuo a esperar e tanto...

sábado, 11 de setembro de 2010

...


Há coisas que se encontram nos momentos em que não pensamos encontrar, mas encontrar não é resumo de tudo e muito menos a conclusão, porque pode-se encontrar para de seguida se perder, sem nunca se ter tido nada em concreto, a não ser o vislumbre de se ter encontrado…

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Diferenças entre homens e mulheres #2


Um homem vai passar um fim-de-semana fora com uma amiga e não acontece nada visto que são apenas amigos e apenas gostam da companhia um do outro, tudo no maior dos respeitos.
Reacções:

-Para as mulheres, esse homem é um querido, uma pessoa decente e respeitadora.
-Para os homens, esse tipo ou é um albrabão, ou é um maricas!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Das memórias


Algumas memórias traem-me quando restauram laços há muito quebrados, fazem ressurgir emoções, esperanças que se sabe serem impossíveis. As memórias fazem esquecer outras memórias, aquelas que são fruto da razão, da experiência, da realidade, que me protegem e são apanágio da sabedoria. Então, umas entram de mansinho, como soldados camuflados, escondendo-se e esperando pelo momento certo, o momento de fraqueza, de exposição, quando se baixam os braços e se fragilizam as barreiras. Depois atacam, estrategicamente, conseguem convencer-me, calar os protestos e tomar o controle, que embora por um curto período, dura o tempo suficiente para que, cego, bata mais uma vez com a cabeça no chão e caindo, tenho depois dificuldade em levantar-me e o que me dá forças, são as outras memórias, aquelas que são cruas, ásperas que me gritam aos ouvidos, revoltadas, coléricas, mas que nunca me abandonam ou enganam, obrigando-me a ouvir aquilo que sei mas que custa ouvir, mas é necessário para que me possa voltar a erguer, mais uma vez tétrico, frio e revoltado, à prova de tudo, até dos sentimentos…

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Do possível e do impossível


No momento em que acreditava que era impossível, surge à minha frente a fagulha do possível, a qual cresce de uma forma quase imperceptível, pé ante pé, envolvendo-me e fazendo-me esquecer a realidade, dando-me esperança, para depois, tão depressa quanto surgiu, desaparecer, evaporar-se, transformando-se a matéria em vácuo e tudo simplesmente para me demonstrar aquilo que já sabia antes, que há possíveis impossíveis e sempre que acreditar o contrário apenas me vou encontrar olhos nos olhos com a desilusão voluntária, de quem sabe que acreditar pode ser muitas vezes apenas mais um puro engano.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

As incertezas do amor


O amor é uma incerteza que só se conclui pela afirmação da sua certeza. O amor é uma incerteza que nos golpeia com o seu riso misterioso, mostrando-nos apenas uma parte do jogo, mas nunca o resultado final. O amor é uma incerteza que não se sabe onde se vai encontrar, se aqui e agora, se ali e depois, se sempre, se nunca. O amor é uma incerteza, um caminho escuro e perdido sem indicações, sem estrada, sem nada que nos oriente a não ser o desejo de seguir em frente, de seguir para o desconhecido. O amor é uma incerteza que nos oprime e angustia, que nos faz rir e chorar, que nos mata aos poucos, mas igualmente nos leva a sentir uma alegria que nunca sentimos, somente pelo facto de existir, seja a partir de um facto real, seja a partir de um facto ilusório que, pelo seu encanto melodioso, leva-nos à perdição e à fuga do mundo real.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Histórias


Há histórias que antes de nascerem já morreram, isto porque a sua origem e desenvolvimento apenas se processam no nosso cérebro sob o condão da criatividade dos sonhos. Essas histórias motivam por vezes pequenos gestos na forma sub-reptícia, onde a noção que temos das coisas e sobretudo de algumas das nossas atitudes perdem-se nesses labirintos, levando-nos à dúvida persistente, pela base pouco concisa que é formada por esse material intangível e pouco definido de que são formados os sonhos. Contudo, como todas as coisas essas “histórias”, seja qual for a sua natureza, extinguem-se como tudo na vida, acabam por desaparecer, umas deixando marcas na nossa memória, outras nem por isso. Mas quando se sonha, literalmente, durante o sono, onde essa “história” pouco concreta e definida pelo nosso pensamento parece ganhar vida própria após tanto tempo, onde é o acaso que a manipula, criando cenários, alterando as cores, as dimensões, mas mantendo o cerne, é como se algo ressuscitasse. Pondera-se então se não será um aviso, um sinal, sendo suficiente para se voltar a pensar, a recolocar novamente as personagens nos cenários, nos mesmos que se haviam colocado antes, procurando abrir de novo a página para se tentar perceber se há algo de novo, de concreto, de real, que possa ter escapado. Mas depois, de verificadas todas as variáveis, percebe-se que tudo se mantém na mesma, sendo que apenas o nosso cérebro, num acto dramático, resolveu apenas pregar-nos uma partida, que apenas sabe, no entanto, a um agitar das águas dentro de um copo…

domingo, 5 de setembro de 2010

Os pacotes


A maioria dos pacotes têm um modo de abrir, contudo nem sempre o mesmo se encontra por falta de habilidade, conhecimento ou porque é inexistente (mesmo quando existe mas para não se ficar mal visto diz-se que é inexistente!).
Foi assim que ao tentar abrir um pacote com todo o jeito e habilidade deste mundo, depois de uma análise profunda e demorada sobre a questão, entornei o conteúdo todo para o chão!

[O quê? Pensavam que isto era sobre outro tipo de pacotes? Mentes maliciosas!]

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

...


O grande problema não é jogar.
O grande problema é jogar acreditando que se vai perder esquecendo que há iguais hipóteses de ganhar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Dizem-me e eu sei


Dizem-me e eu sei que para se atingir a felicidade é preciso estarmos bem connosco, isto é, de algum modo felizes, para que possamos atingir a felicidade plena. Dizem-me e eu sei que se estivermos tristes e infelizes não é algo exterior que via mudar a nossa condição, pode ajudar, mas se nos fixarmos apenas nesse aspecto e não no nosso interior será tudo apenas um remédio temporário e não a cura, um penso rápido e não uma ligadura que acalmará uma dor profunda com o seu efeito ilusório. A dificuldade reside assim em encontrar esse caminho para nós próprios, um caminho solitário que não trás tudo mas alguma coisa, manifestando-se como um degrau que se tem de subir para que se possa chegar ao topo da escadaria. De outra forma não se passa do pátio e depressa se cai novamente no abismo.


Dizem-me e eu sei, mas tantas vezes esqueço-me por omissão ou de propósito...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Cá se fazem, cá se pagam!

Quando uma mulher diz a um homem que gosta dele, ele desconfia mas fica todo inchado e começa a ponderar a coisa!
Quando um homem diz a uma mulher que gosta dela, ela desconfia e vai contar às amigas para lhe emitirem opinão sobre o assunto!