segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril, um príncipio, não um fim

Há exactamente 37 anos deu-se a revolução feita por militares descontentes com um sistema que estava caduco, que mantinha valores ultrapassados, uma guerra sem futuro e sobretudo porque as suas carreiras estavam a ser ameaçadas. Muitos só se aperceberam do quanto estavam fartos deste sistema no dia e nos dias que se seguiram ao mesmo, porque até aqui mantinham a cabeça baixa, como sempre estiveram habituados a fazer. E eis que libertados se sentiram senhores do mundo, senhores de si mesmo, mas rapidamente perceberam que a liberdade é muito mais complexa do que simples e degenera em outras coisas que não a própria liberdade. Os maiores contestárias não eram no entanto os militares, eram alguns civis, uns milhares de civis, uns refugiados no estrangeiro, outros que conspiravam no interior de Portugal, uns aspirando a utopia, o sonho, a esperança, outros somente partilhando a utopia, o sonho e a esperança, porque a verdadeira contestação era o facto de quererem a sua parte do sistema, ou quiça, tomarem conta do próprio, tornando-se assim senhores de tudo. Mas não o podiam fazer, não abertamente, tiveram de abraçar ideais, ideias e pela capacidade argumentativa, pelo despudor individual e aparente sacrífício, mais que trabalho ou competência para tal, tomaram o poder aos militares, os quais, um tanto desnorteados e sem saberam o que fazer, lhes entregaram de bandeja tudo aquilo pelo que os primeiros pouco haviam feito.  Seguiram-se os jogos do poder, as ideologias extremistas que só renovavam a retórica mas que na prática queriam tudo igual ao regime derrubado, mudaram os rostos, trocaram-se cadeiras, até que finalmente o pó assentou mas manteve-se o delírio, a utopia, até chegar uma bancarrota, depois outra e finalmente voltamo-nos para a Europa, como quem se volta para o El Dourado. A vida melhorou, conquistaram-se direitos, alguma felicidade, mas todo o modo de pensar foi-se alterando, em etapas drásticas, perderam-se valores, perderam-se deveres, porque dever era sinónimo do passado, de ditadura, ao passo que direito era sinónimo de liberdade, de futuro. No meio de tudo isto os actores mantiveram-se, forneceram um teatro em hemiciclo, dando a impressão que os tempos eram outros, que era possível debater sem haver sangue, de lutar e contestar sem tortura e tudo parecia bem. Mas muita coisa se escondia, sobretudo a mais importante, em cada aniversário da Revolução falava-se da brutalidade da ditadura, da tortura, da guerra, da injustiça, mas foi-se omitindo as expressões corrupção, da falta de transparência, da justiça, porque essas mantiveram-se, de igual, sanadas cirurgicamente aqui e ali, com golpes de publicidade, com um jogo da liga, perspectivas falsas de futuros próperos, pelo encanto de Expos, de Euros, do Euro, tudo fácil, tão fácil. O povo manteve-se igual, de cabeça baixa, mas rosnando como um cão, mas um cão bem domesticado, que sabe que mesmo rosnando tem sempre direito a almoço e jantar, temendo no entanto levantar a cabeça para morder, porque assim julga perder o pouco que obteve, agarrado que está ao material que pensa ser muito, mas cuja moral e ética é pouca. Quem manda sabe disso, porque arquitectaram isso, porque também eles vieram do povo, sem eira nem beira, invejando a nobreza dos ricos que suaram para o ser, mas não estando dispostos a suar para o alcançar, porque não sabem se esforçar, mas sabem aquilo que todos os portugueses sabem melhor, desenrascar-se e assim mantém o regime, mantendo um dos seus pilares imaculado e desenquadrado da realidade presente, porque se durante 40 anos de Ditadura ele funcionou, por certo também em Democracia funcionará e assim, mantêm-se tudo igual porque o povo, a nação, os indivíduos nunca estiveram preparados para viver em liberdade, porque nunca souberam assim viver, por falta de conhecimento para tal, mas acima de tudo de fibra ética e sentido cívico para a fazerem crescer. A imoralidade pública permanece, a tortura acabou, os velhos fascistas caíram levando supostamente consigo todos os males da República, mas uma juventude ambiciosa, comodista e indigente subiu ao poder. Se há 37 anos se derrubou a ditadura, agora seria preciso uma nova Revolução para derrubar não o regime, mas sim a corrupção e injustiça que sempre se manteve, entre políticos, entre empresários, entre oportunistas e ladrões da pior espécie, no fundo, seria precisa uma Revolução não para mudar o sistema, mas para o eliminar, mas para isso é preciso mudar algo que leva tempo a mudar, mais profundo que um modelo de Estado, é preciso mudar mentalidades para que se aprenda a viver em Democracia e não numa corruptocracia.

3 comentários:

hierra disse...

Precisávamos de políticos que tivessem sentido de estado e não sentido de tacho. Eu até acredito que possam ir para o poder com boa vontade, a sério que acredito mas depois acabam por ficar presos nas malhas do caciquismo partidário!

GATA disse...

Do teu texto retenho uma frase: perderam-se valores, perderam-se deveres. É uma pena que as pessoas não saibam viver em liberdade e a confundam com libertinagem.

Anónimo disse...

O teu texto parece-me uma pescadinha de rabo na boca.
Mudar mentalidades????
Não, Sim e Talvez
Como dizia o Marcello Caetano: trabalhos ciclopicos.
Está bem escrito, mas a conclusão ....
Impossivel.
Mudemo-nos a nós é a unica verdade, e isso só é possivel quando temos a rara oportunidade de o mundo nos cair literalmente em cima da cabeça.
Enquanto ele não nos cai, sigamos o $$$$$ como instrumento da verdade, (ele nunca nos engana e tem um cheiro maravilhoso)mas mesmo assim é curto e ilusório como fim em si mesmo.

LisboaemBerlim