sexta-feira, 29 de julho de 2011

Da nacionalidade do dinheiro

O dinheiro é sem sombra de dúvida o objecto mais igualitário do mundo, não escolhe etnias, ideologias, religiões, nacionalidades, idades, géneros ou qualquer outra forma de distinção humana. Isto vem a propósito do interesse mendicante com o qual Portugal se mostra no exterior a fim de conseguir compradores para as suas empresas públicas. As empresas públicas para quem não sabe são parte do património do Estado, são uma parte do país e desengane-se quem pense que a sua privatização vai servir os interesses nacionais, isto porque mesmo enquanto foram públicas serviram apenas os interesses de meia dúzia que encheram os bolsos sem qualquer tipo de vergonha, justificando que deste modo, que mesmo pobres, teríamos algo que era controlado por “nós”, como se tal fosse uma espécie de afirmação patriótica, que nos custou durante todo este tempo preços de bens básicos altíssimos, tudo para justificar essa posse nacionalista (e sobretudo poder-se pagar altíssimos ordenados a administradores e aos seus respectivos conselhos  de administração que funcionam como centros de repouso de ex-políticos) Agora no entanto as coisas mudaram e é com jubilo que se mostram muitos por haver tantos a quererem comprar, e que ilustres compradores se apresentam nestes saldos, tudo gente séria, de países com baixos níveis de corrupção, onde a miséria é praticamente inexistente em certos bairros selados ao público em geral! Mas as boas novas não se ficam por aí, porque assim, dizem, vai haver mais concorrência, vai haver reestruturações (afinal os donos são outros e podem não gostar da pintura existente) e Estado esse garante que os pobres vão continuar a ser protegidos, como aliás têm sido sempre, contra eventuais abusos de um mercado que se quer desregulado. E o dinheiro que resultará dessas vendas será pois distribuído entre os “mercados” e os despedimentos de administradores, pelo que pouco sobrará a não ser mais desemprego num país com cada vez menos independência e orgulho. O dinheiro é sem dúvida igualitário, qualquer um o pode ter, o problema é que a posse do mesmo muito pouco tem de equidade, pelo que quem o tem tudo pode comprar, mas quem não o tem limita-se a ser enganado.

4 comentários:

hierra disse...

Este é como que o texto prefácio dos tempos que se avizinham!

Utena disse...

A verdade é que todos falem no 25 de Abril...
O que era preciso era uma revolução á séria agora...
Enfim brilhante como sempre

Anira the Cat disse...

Sempre ouvi dizer que o dinheiro não conhece o dono. Enfim, continuamos entregues à bicharada.

Bjokas

S* disse...

Causa tantos problemas... prefiro ter o suficiente. Quer dizer, não me importava de ser rica... mas não muito.