terça-feira, 2 de outubro de 2012

Dos que conseguem



Nós portugueses temos muitas virtudes, mas também muitos defeitos, sendo um dos quais a nossa tendência para contornar ou fugir das dificuldades ao invés de as enfrentarmos. Creio que é algo cultural, é algo que faz parte do hábito e obviamente há muito boa gente que não tem outro remédio que não seja enfrentar as dificuldades, quer consiga ou não supera-las. Mas o caminho fácil parece sempre espreitar, ou pelo menos assim o conseguem ver tantos e tantos, que vislumbram aquela saída que, apesar de não ser ética ou moralmente louvável, seguem ficando a dever o favor mas gabando-se depois como se heróis fossem, como se isso sim fosse o apanágio máximo da sua inteligência e capacidade superior. Daí que o termo "desenrascar" tenha um duplo sentido, um positivo quando tal deriva do engenho próprio, e um negativo quando deriva do engenho derivado de fazer batota. Mas seja num sentido ou no outro o que se apregoa é o atingir do objectivo já que o caminho para lá chegar nem sempre é mais correcto ou louvável embora, o que é merecedor de aplauso é o caminho, o esforço que se fez para lá chegar. Deste modo quem consegue sem esforço, suscita nos outros uma inveja mais forte e venenosa daquela que recai sobre quem consegue pela capacidade genuína, mas rapidamente esses primeiros aprendem a chamar de invejosos quem os criticam numa tentativa de lhes colocar em cima o estigma de um pecado capital porque os próprios, mesmo em consciência, nunca admitem que conseguiram mais por manha do que por outra coisa qualquer.

2 comentários:

Utena disse...

Muitas vezes não é falta de vontade de encarar os problemas de frente mas o cansaço de o ter de fazer todos os dias.

NI disse...

Mais do que inveja, suscita revolta e indignação. E no meu trabalho a "manha" é a regra. E, adulterando uma máxima popular, "quem não manha, não mama".

:)