quinta-feira, 29 de março de 2012

Das mudanças


Quando se fala em mudanças acaba-se sempre por originar duas atitudes opostas, ou se gosta e aplaude, ou se odeia e resiste. As mudanças por norma são inesperadas, sendo que a maior parte das vezes não queremos mudar, por receio, por preguiça, porque o nosso mundo gira de uma maneira e não convém nada girar de outra forma, nem que esta seja melhor que a anterior. Depois há quem clame por uma mudança, adore cada uma que aconteça, mas para esses a mesma rapidamente se esgota, pelo que afirmam que tal foi uma ilusão, que não houve uma verdadeira mudança, que é preciso algo mais forte então continuam sempre a tentar mudar, a tentar alterar o que está, mesmo quando tudo está mais do que alterado, ao ponto de voltarem tantas vezes ao ponto de partida e então afirmam terem realizado a maior das mudanças, a qual no entanto acaba por ser nada. A maioria, por força das circunstâncias, acaba por se tentar adaptar, mesmo vomitando impropérios pelo esforço que são obrigados a fazer, mas nem sempre conseguem, porque no fundo sentem que tudo está sempre em mudança e em modo instável, quando tudo está igual ao que sempre esteve, tal como eles próprios.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Certezas e incertezas

Ter a certeza é difícil, porque normalmente quando procuramos saber se a temos significa que estamos com dúvidas de a ter. Por norma temos certeza de muitas coisas no nosso dia-a-dia, temos a certeza que o dinheiro com que pagamos algo é bom, temos a certeza que guardar alguns alimentos no frigorífico os vai manter frescos, temos a certeza que o caminho que estamos habituados a percorrer nos vai levar ao sítio onde pretendemos chegar e em nenhum destes casos ou em outros similares nos pomos a pensar se temos a certeza, porque simplesmente não o colocamos me causa e quando isso acontece significa que temos a certeza. Mas em tantas outras coisas não temos, porque temos dúvidas, mesmo quando dizemos que temos a certeza nessas vezes há uma dúvida persistente que até ao fim nos persegue, até que consigamos ver o final de algo, o seu resultado, a sua conclusão. Desse modo afirmar desde logo que se têm dúvidas é fácil, mas tantos há que afirmam com igual facilidade ter certezas, o que no fim só pode suscitar uma certeza nos outros, a de que os outros nos querem enganar, ou estão eles próprios enganados.  

quarta-feira, 14 de março de 2012

Constatação # 48


Tantas vezes desejamos fugir, mas depois eis que o conseguimos de facto fazer e então, nesse momento desejaríamos não fugir.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Desafio "onze"!


A "essência" do blog Roupa prática, lançou-me um desafio baseado no número onze (curioso número!

Tenho de dizer onze factos aleatórias sobre mim, aqui vão eles:
-Não gosto de favas,
-Gosto de dormir,
-Gosto de cinema,
-Nem sempre gosto de confusões,
-Por vezes gosto de confusões,
-Tenho mau-feitio,
-Tenho momentos, sou de momentos,
-Sou amigo do amigo, mas inimigo do inimigo,
-Não gosto de vísceras,
-Sou dador de sangue,
-Nem sempre estou para me chatear, mas por vezes chateio-me.

E tenho de responder a onze perguntas feitas pela mesma:
1) Como defines o ser humano?
- Como uma criatura que quer ser mais do que o animal que é, desperdiçando entanto a capacidade para ser mais do que aquilo que é.
2) Como defines uma relação a dois?
- Se é a dois, deixamos de ser unos, tudo tem de ser pensado tendo em conta a outra parte, da mesma forma que a outra parte terá, por essa via, de pensar de forma igual ou semelhante.
3) Como defines as relações familiares?
- Defino-as de modo não muito diferente de todas as outras, porque não se escolhe a família que se tem, mas pode-se escolher o que fazer em relação a isso.
4) Como defines as relações de amizade?
- Na amizade não há fretes, não há obrigações, há a liberdade de dar e receber, sabendo-se que se pode contar sem cobrar por isso.
5) Quais são as tuas perspectivas para com os que te rodeiam?
- Depende dos que me rodeiam, mas a perspectiva é que estejam bem e felizes.
6) A tua perspectiva sobre a actualidade do país?
- A perspectiva da eterna desgraça que a tantos convém.
7) Se fosses Primeiro-Ministro quais as atitudes que tomarias?
- Punha todos os outros políticos, passados e presentes na cadeia obrigados a trabalhos forçados para o resto da vida e depois contratava umas carpideiras para o meu funeral.
8) Se fosses Presidente da República quais as atitudes que tomarias?
- Convidava todo o governo e deputados a irem dar uma volta num dos paquetes da companhia Costa Cruzeiros, e claro está, colocando algumas clandestinas a bordo.
9) Se pudesses escolher, serias homem ou mulher e porquê?
- Seria homem, porque não sei o que é ser mulher, se é que ser mulher é assim tão diferente do que ser homem.
10) Se pudesses escolher, qual nome que escolherias para ti mesmo e porquê?
- Nenhum em particular, até porque acabamos por ser um pouco o nome que nos dão e não outra pessoa se mudássemos de nome.
11) Com e com quem, gostavas de terminar os teus dias?
- Não gostava de terminar os meus dias, logo a morte está excluída, de resto, certamente com alguém que não gostava de terminar os seus dias comigo.

Supostamente teria de passar a onze vítima e fazer onze perguntas também, mas como onze é um número muito grande para mim passo o desafio a todos os que quiserem aceitar.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Estados


E, de repente,  a nossa cabeça posiciona-se num único local, deixando de ficar espaço para o que sobra, do mesmo modo que todo o resto deixa de ser uma preocupação ou passa simplesmente para um campo de memórias distante e mudo. Assim são as coisas, mas como em tudo sabe-se que quando o pó assentar se voltará ao sítio de onde se veio, sendo tudo uma questão de tempo, mas mais ainda, de estado de espírito.

quinta-feira, 8 de março de 2012

...


Sentimos que se perde algo quando tal se repete continuamente, quando o esplendor do que é rotineiro se esgota em silêncio ou num resumo daquilo que já foi dito mais do que uma vez e então, aquilo que se tinha por certo, que aconchegava por essa mesma razão, parece mudar tornando-se em algo estranho, em algo que não conseguimos compreender ou digerir, onde as palavras certas se esquecem e as frases medíocres abundam, para no fim pouco se dizer, pouco se saber dizer e como dizer, escapando as ideias por um ralo que tudo aspira, suspirando-se pelo ontem onde tudo sorria e descansados ficávamos por assim ser, confortados pela ideia de que poderia durar para sempre, sabendo contudo que na vida já há poucas ideias que não sejam falsas, encarregando-se o tempo de assim nos ensinar, para depois, mais além, voltarmos a sentir,  a pensar e a perder novamente.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Da inveja


Pode-se dizer muita coisa positiva, pode-se aplaudir, rejubilar, admirar, mas o certo é que tantas vezes o único sentimento realmente verdadeiro em relação à felicidade alheia é a inveja, a mais pura das invejas, que se pode tentar esconder, combater, digerir sem nunca ser possível de exterminar por completo, porque sempre algo fica atravessado, um átomo que seja desse fel que envenena e corrói aquilo que sentimos, aquilo que somos. Negar a inveja é o mesmo que concentrar em nós o mais vil dos explosivos cuja instabilidade augura para que cedo a mesma se manifeste, sem nunca saber aquilo que vai atingir, mas garantindo deixar um rasto de destruição, que nos amarga e tudo à nossa volta dissolve. A inveja sente-se sempre, seja em pequena, média ou grande quantidade, geri-la é complicado mas não é impossível porque mostra-la pode deixar-nos envergonhados, embora muitos não se façam rogados a fazê-lo em demasia também não augura nada de bom, mas esconde-la deixar-nos-á terrivelmente azedos.