segunda-feira, 30 de abril de 2012

Pirâmide


Por vezes pensamos que temos tudo, ou não pensamos sequer naquilo que eventualmente nos falta de tão atarefados que andamos. Depois, num súbito momento apercebo-nos que há algo, que há uma centelha que emerge do nada, um som que começa como um leve sopro para rapidamente se tornar no mais estridente dos ruídos o qual abala todas as fundações da nossa existência, destrói toda a paz e serenidade, fazendo da tranquilidade um imagem do passado. O nosso trajecto é alterado irremediavelmente, sabemos que tão cedo não vamos encontrar outro curso que não aquele, cheio de tormentas, de armadilhas e de surpresas, sendo a mais surpreende a esperança que o mesmo carrega, a qual espreita envergonhada por entre rasgos de luz que irrompem das nuvens negras, uma esperança que agora temos como algo concreto, que embora sem substância física consuma-se pela visibilidade da energia, uma esperança que antes não víamos nem sentíamos, que apenas pensávamos, mas a mesma não aparece de forma gratuita, aparecendo com semblante carregado, de modo intermitente e sem garantias de se transformar em realidade, em matéria, em explosão de algo que se quer, esgotando-se no entanto quando as forças parecem serenar, quando o mar acalma e volta a ser navegável, ficando o suspiro de uma memória para sempre enterrada no nosso rosto, o qual demonstra muitas tempestades passadas, mas poucas vitórias conseguidas.

domingo, 29 de abril de 2012

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Um dia algo acontece, algo bate e não se percebe ao certo o que é, sente-se mais o facto do que se percebe a razão do mesmo e então vive-se a ocorrência, deixando que a mesma nos conduza mais do que a própria razão, dando razão sem razão à razão, criando, alterando, até que tal se esfuma, termina no modo concreto, mas não na memória porque as dúvidas mantém-se, as perguntas continuam a fazer-se e as respostas não se alcançam. Eis que noutro tempo, no depois, no muito além surge uma pista, surge uma fagulha sobre a razão verdadeira, a qual está muito atrás, qual semente que foi enterrada no passado para dar origem a algo anos mais tarde, algo inusitado, algo que parece ser fruto apenas de uma conjugação inesperada, de um momento incerto desabrochando como por magia o que nos deslumbra, o que nos hipnotiza e tudo faz esquecer, alterando as estruturas, resultando de tal uma nova conjuntura que se espera que possa trazer as respostas que se buscam, que se pode tornar em algo concreto, mas, então, percebe-se, no depois, que as razão, apesar de existir, apesar de ter sido enterrada e encontrando-se encoberta é apenas uma conjunção de mais daquilo que nos afasta da realidade, que era apenas um sonho que se pensou encontrar mas se sabia à partida impossível, mas ainda assim buscou-se para se perceber que a realidade não permite impossíveis, improbabilidades, permitindo somente o seu vislumbre, o qual se tenta digerir, sabendo-se no entanto difícil de esquecer.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Passados perdidos


Há muitas coisas que esquecemos por força da inércia. Elas aparecem de um momento para o outro, criando o tumulto dentro dos nossos pensamentos, hierarquizando os mesmos de uma forma diferente para depois, com o passar o tempo, com tantas outras peripécias que surgem no caminho, diluírem-se lentamente fazendo com que pensemos que se extinguiram. Mas não. Mantém-se ali, porque as razões pelas quais surgem num primeiro momento acabam por vir ao de cima, porque nunca foram resolvidas em definitivo, porque estão apenas adormecidas ou foram aplacadas com outro tipo de compressa. E eis que surgem, qual redescoberta, como se os dias em que esses pensamentos ocorriam em força tivessem sido ontem, e não há muito tempo atrás, como se o período que medeia entre o passado e presente tivesse sido, ele sim, esquecido. Mas a única coisa que sei é que da mesma forma como reapareceram também voltarão a desaparecer, o problema é o rasto de convulsões que provocam, a influência que têm nos pensamentos do presente, o que os torna um perigo de contágio, se para o bem ou para o mal não sei, mas raramente o que estaria enterrado trás algo de bom.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

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Tantas vezes acordamos um dia a pensar que somos uma coisa, para depois, no decorrer do dia, percebermos que não somos aquilo que pensávamos ser pela manhã e à noite, quando vamos dormir somos ainda outra coisa, que difere das outras duas. Tudo isto leva-nos a perceber apenas que somos aquilo que somos e isso nunca é muito certo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Constatação #49


A questão muitas vezes passa por saber se se deve continuar a procurar buscando sempre algo que não se sabe se se vai encontrar, ou parar e ficar onde se está, no lugar onde conseguiu chegar, dando por finalizada uma etapa por cansaço, por desilusão, ou porque se calhar por mais voltas que se dê acabar-se-á sempre por chegar apenas a esse ponto, ou então, por receio e falta de sapiência, por caso não se pare, nunca se vir a encontrar melhor.  

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Miragens


Desde sempre e talvez hoje ainda mais, a vida passa por mostrar aos outros aquilo que se tem, aquilo que se faz, os lugares por onde se anda, os sítios por onde se passou, os eventos futuros, presentes, passados e tudo o que seja considerado interessante, ou talvez não, mas que se ache interessante para partilhar. Depois, com o advento das últimas tecnologias de informação, há ainda mais vontade para tal, até porque elas assim o determinam, já que para que serve ter um telemóvel que tire fotos, uma página no facebook ou outra coisa que sirva para comunicar e necessite de constante actualização sob pena de perder o interesse. Alguns são simplesmente criativos e têm realmente uma vida cheia, mas a maior parte acaba por se tornar repetitiva e sobretudo fazendo tudo por tudo para tentar mostrar aos demais que têm uma vida interessante, pelo que como não o sabem fazer, inventam, imitam ou fazem de conta. A maior parte talvez consegue acabar por fazer um uso saudável, mas creio que outra boa parte vive para isso, para mostrar, para comunicar, o que interessa e o que não interessa, ultrapassando os muros do bom senso, vivendo para mostrar que vivem, mas não vivem, porque não sabem viver, porque vivem para fora e não para dentro, vivem para comunicar e não para sentir realmente o que vivem, vivem como caixas ocas cuja a apoteose é terem um acontecimento para contar e não uma vida para viver, vivendo assim uma vida para os outros, uma vida para parecer que se tem vida sendo esta apenas uma fracção do que a vida tem realmente para oferecer. E no meio de tudo isto surgem os piores dos sentimentos, de onde se destaca a inveja e com ela as acções mais estúpidas, a imitação, os maus investimentos, os investimentos no que é apenas exterior e muito pouco no que realmente conta, no que realmente é verdadeiro, mas quem por esses caminhos se deixa ir, a verdade torna-se apenas uma figura de estilo num deserto onde se olham apenas para as miragens.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Teia


Uma teia pode ser tecida de modo a que seja fácil desembaraçarmo-nos da mesma, mas também pode ser tecida de tal forma que nos prende para sempre e quanto mais nos debatemos para tentar fugir da mesma, mais nos embrenhamos nela. Tantas vezes pensamos estarmos a tecer uma teia para prender alguém, mas depois somos nós próprios que acabamos por ser vítimas da mesma, pelo que quem tece fá-lo com um propósito, o qual, nem sempre acaba por ser o desejado. Dir-se-ia que uma teia tem muita ciência, contudo creio que uma vez que a começamos a tecer a mesma ganha vida própria podendo corresponder ou não ao nosso desejo, como voltar-se contra nós. Uma coisa é certa, as teias são perigosas, as teias são manhosas e tudo pode advir das mesmas e tantas vezes julgamos não estar a tecer nenhuma quando o fazemos, para depois cairmos na mesma sem possibilidade de conseguir sair.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Lógica e ilógica


A lógica das coisas nem sempre impera em mim. Tantas vezes meto-me ao caminho sem pensar muito bem para onde o mesmo leva, apenas vou, porque se o planeasse, se o pensasse, certamente não sairia do mesmo sítio. Contudo, ao faze-lo, contrario tantas vezes a lógica, lanço-me na precipitação que mais tarde levanta o grito do arrependimento, tece as teias da preocupação por não saber como desamarrar os nós que foram tecidos. Mas seguindo sempre a lógica há também percalços, há coisas que têm de dizer e não se dizem, ficando as mesmas na retaguarda, num soluço que cai para dentro e não para fora, e espera-se, espera-se sempre, espera-se caindo no desespero e na agonia da espera, espera-se que algo aconteça, que algo surja mas quando se tem a lógica por caminho, tudo está programado e se aquilo que se espera é algo que foge a esse âmbito, então bem se pode esperar sentado, porque não virá, não acontecerá, porque o lógico é o dia de hoje ser igual ao de amanhã, sem sobressaltos, sem novidade, sem nada, se acontecer o oposto, então cairemos no domínio oposto, algo que nem sempre sabemos como lidar, mas que nos dá um sabor a vida que tantas vezes esquecemos, mas que também, de igual forma, tantas vezes receamos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Do amor #3

O amor é algo que nos consome, algo que corrói e dilacera, o seu Ph é ácido, é básico mas nunca neutro, porque a neutralidade, o equilíbrio é coisa que está na posição literalmente oposta ao amor. O amor é o extremo, é o bom e o mau, a inspiração para tudo, a falta de vontade para nada, a resposta e a pergunta, o porquê de muitas coisas, a solução que se procura, o abismo para o qual se quer saltar, a montanha da qual se quer fugir. O amor é a luz, mas também a escuridão, mais sofrimento do que consolo, consolando no entanto o maior dos sofrimentos. O amor é o remédio, mas é também o veneno, algo que se busca para nunca se encontrar, algo que se encontra sem nunca buscar. O amor não é para todos, nem é para todos, existe em múltiplas formas, algumas nunca percebidas por quem observa do lado de fora, é uma raridade da qual sempre se fala, talvez a mais cantada e pensada, sem nunca ser razão ou ter barreiras, forma ou substância. O amor devia ser sempre sublime, devia ser sempre mistura de dois, uma realidade sentida com efeito, mas é mais uma ilusão, um pensamento do que outra coisa que se possa imaginar. O amor é algo que nos consome, algo que corrói e dilacera. Tantas dúvidas trás, tanas incertezas e inquietudes, tanto esforço feito para se concluir que por vezes o amor é apenas um desejo, algo rarefeito e volátil que tanto pode arder, como da mesma forma apagar toda a vida que há em nós.  

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tempo

A velocidade com que tudo muda parece ser algo impressionante, mesmo quando não existe nenhuma mudança em especial, somente um temporário ocaso, um lapso na corrente normal dos dias e da rotina, mas esse momento, essa arritmia microscópica, dura tempo suficiente se parar e ver o caminho que se seguiu, coisa que nem sempre se olha, porque não há tempo ou sequer consciência para perceber aquilo que está para trás, aquilo que se fez ou pelo que se passou. A tentativa não é por este meio perceber para onde se vai, porque isso raramente se descobre, apenas se suspeita, mas nunca a longo prazo, sempre na esquina do amanhã. Contudo olhar o passado é ver mais do que somos, é ver quem éramos, é ver o que mudámos, o que pioramos, melhoramos, o que mantemos como nosso, mas tudo isto não deixa de ser uma surpresa, isto aos olhos do passado, porque houve um tempo em que imaginávamos, sonhávamos, em que o futuro era tudo, a fonte de todas as dúvidas, de todos os anseios, porque queríamo-lo saber mas não conseguíamos ver, era a caixa de Pandora que queríamos abrir mas nunca conseguíamos. Hoje o futuro mantém o seu gosto de descoberta, mantém-se como fonte de boa parte dos anseios, mas o tempo também nos ensinou a dosear com mais sabedoria o tempo que há-de vir.