sexta-feira, 29 de junho de 2012

Falhar


Admitir que se falha não é fácil. Nunca o é, nunca o será e tão difícil como falhar é lidar com tal, digerir, sobreviver, encontrar um meio de restaurar a falha se possível ou caso contrário viver com ela sabendo que a culpa foi nossa. Arranjamos justificações, procuramos culpados, tentamos desviar as atenções ou mesmo esquecer e seguir em frente. Seja qual for a natureza da falha, tenha sido ela justificada ou não, o certo é que falhamos e por vezes queremos admiti-lo como uma forma fácil de nos livrarmos da culpa pela mesma, mas quando o difícil é o peso da mesma na nossa consciência, admitir torna-se complicado, ficamos densos, quietos, sem saber que caminho tomar, que atitude ter e o que virá ainda a seguir visto que tal nos assombra pairando sobre nós e alterando a nossa acção futura e o nosso humor presente.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Constatação #52


Uma coisa é o que se quer, outra coisa é aquilo que se pode ter. Nem sempre aceitamos o que podemos ter e lutamos tantas vezes pelo que queremos, mesmo quando o que queremos soa a desafio impossível. O problema no entanto dá-se quando não sabemos o que queremos e muito menos como lutar por tal.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Daquelas coisas #15


Por vezes quase entendo meias-palavras, os olhares sugestivos, os gestos em código e até o que os outros pensam num determinado momento. Vejo-o, sinto-o, reparo em tudo isso numa fracção de segundo, em diversos cenários, em momentos oportunos e inoportunos, sem procurar tal, intuindo para depois concluir que essa mesma intuição bateu certo. Mas quando isso acontece eu nunca sou o objecto, nunca sou o alvo ou o receptor, apenas algum que capta essa transmissão qual espião que inadvertidamente escuta as comunicações alheias e assim inusitadamente toma consciência das mesmas em todo o seu esplendor como um mero espectador, porque da plateia consigo perceber aquilo que da mesma forma deveria perceber e entender quando sou o protagonista num qualquer palco onde pise, situação essa onde não vislumbro nem uma percepção correcta daquilo que parece ser tão natural para todos os outros.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Repetir


Repetimos.

Repetimos as mesmas palavras, os mesmos pensamentos as mesmas ideias.
Repetimos os mesmos sonhos, as mesmas fantasias, os mesmos erros.
Repetimos as mesmas conversas, histórias, as mesmas parvoíces.
Repetimos os mesmos gestos, as mesmas acções, os mesmos problemas.
Repetimos as mesmas dúvidas, os mesmos problemas, as mesmas crises.
Repetimos os mesmos caminhos, os mesmos percursos, os mesmos trajectos.
Repetimos aquilo que os outros repetem, o que os outros dizem, as mesmas expressões.
Repetimos aquilo que fazemos bem, os que fazemos mal e aquilo que é neutro.
Repetimos o que falhámos, o que acertámos e queremos sempre repetir tudo aquilo que fizemos.
Repetimos imitando, imitamos repetindo e repetimos aquilo que se repete.
Repetimos o que sabemos, o que não sabemos e aquilo que esperamos vir a saber.
Repetimos tudo aquilo que podemos repetir, mas não conseguimos repetir a vida, porque essa não se repete e ainda assim vivemo-la como se a pudéssemos repetir.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Da confiança


Arregaçar as mangas e seguir em frente com confiança de quem sabe o que vai fazer pode significar uma de duas coisas, ou se sabe mesmo o que se vai fazer e a confiança que se carrega é genuína e impensada, ou julga-se que se sabe e a confiança que se mostra como verdadeira acaba por exacerbar a própria execução do acto para além de ser consciente, o que, por si só, conduz a acção à ruína. Por outras palavras, ou se a age porque se sabe ou acaba-se por ser demasiado bruto devido ao facto de se pensar que isso por si só demonstra que se sabe e os resultados, claro está, vão diferir como a noite do dia.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Da vontade que se perde


De um momento para o outro mudamos, somos alterados por circunstâncias que desconhecemos, a frequência que sentimos altera-se, muda-se a amplitude e como consequência a vontade que se tinha para fazer certas coisas ou a alegria trazida somente por pensar naquilo que se vai fazer no futuro próximo, altera-se. Procura-se resistir, mas quando mais se debate mais se afunda, não se sabe o que pensar, como pensar, o que fazer, porque faltam as forças para tudo, o prazer que se tinha evaporou-se, quer-se continuar mas tudo no nosso interior parece enferrujar, sente-se uma dificuldade enorme em dar o mais pequeno passo, em efectivar qualquer decisão. O pior de tudo é que tal é contrário à natureza, ao clima, anunciando dúvidas, criando contradições, imobilizando-nos entre tantas e tantas miríades de possibilidades com as quais podemos apenas sonhar sem nunca nos sentirmos satisfeitos e com uma fome sempre a aumentar. E o antes, o que foi ontem, o que se sentia ontem, a vontade, a força, parece uma memória longínqua, uma lembrança que desejaríamos voltar a viver, sendo que para tal, o tempo terá de passar, porque não se consegue forçar aquilo que não sente e muito menos fazer aquilo que se necessita sem ter vontade para tal.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Daquelas coisas #14

Em tempos vi este vídeo, e uma certa música que surge no meio do mesmo ficou-me na cabeça, daquelas músicas que queremos esquecer mas não conseguimos, ao ponto de dar por mim a trautear a mesma no meio de uma distracção qualquer. A coisa estava a correr bem, até porque se há lugar seguro é o interior da nossa cabeça, sítio onde tudo se pode pensar longe de olhares indiscretos e aquém de juízos de valor, isto, claro está, enquanto não se cai no disparate de inocentemente e inconscientemente trautear-se um refrão, mesmo com a voz baixa, e alguém  ainda assim ouvir, olhar para nós com um ar que mistura o nojo e o ódio para de seguida sermos acusados disto e daquilo, sem esquecer que até se pode tentar formular uma justificação plausível mas para tal seria necessário uma argumentação inspirada, a qual nem sempre ocorre em momentos de improviso.

 Pois, depois queixa-te...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Das incertezas


Sabemos que a vida é feita de incertezas, de dúvidas insalubres que nos atormentam na maioria das vezes, sem que possamos ter uma solução para as mesmas, obter respostas, resoluções, soluções para nos conseguirmos libertar das teias que elas tecem. Por vezes muitas residem no tempo, na espera atroz que é ter de esperar para que o mesmo passe e assim obter um resultado, ou um sinal que nos dê uma pista que seja, um leve raio de luz que possa iluminar o nosso caminho e dissipar um pouco dessa escuridão onde se encerram as dúvidas. Outras vezes as dúvidas estão além do tempo e do espaço, estão dependentes do que os outros pensam, do que os outros fazem, do modo como todo um jogo de probabilidades se pode conjugar, se a nosso favor ou contra nós. Contudo, por cada incerteza que se supera, outra ou mesmo outras surgem em toda a sua força e vitalidade, sempre à espreita para nos atormentar somando-se àquelas que desde sempre nos perseguiram e por certo nos vão continuar a acompanhar, a moldar a nossa atitude, a nossa personalidade, a nossa acção, no fundo, a definir quem somos e o que somos.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pronunciar


Existem coisas que se receiam dizer, pelos mais variados motivos. Receia-se a reacção de quem ouve, receia-se a não compreensão, receia-se a desilusão pelo proferir de algo que só faz sentido quando se pensa, receia-se por fim a própria reacção do universo dado que tantas vezes dizemos algo e parece que nos caem raios em cima. Desse modo dizem-se as coisas  que se querem dizer, mas dizem-se de forma incompleta, com analogias, com manha, usando figuras de estilo para assim contornar obstáculos que possam surgir, para se ter um ponto por onde fugir, no fundo, para se enganar o universo e esconder dos outros aquilo que realmente se quer dizer esperando que estes percebam o que queremos dizer ao mesmo tempo que ficam envoltos de algumas dúvidas.