segunda-feira, 11 de novembro de 2013

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Ainda que dificilmente gostemos de dizer que a vida nos corre mal, acabamos sempre por o fazer, de uma forma mais ou menos velada, por metáforas a roçar o humor ou quase como um cartão de visita para evitar aquela maldição que mesmo os que não são supersticiosos acreditam que devem evitar, não-dizer-que-a-vida-nos-corre-bem-porque-a-seguir-acontece-uma-desgraça. Por isso tornamo-nos irónicos, sarcásticos e um tanto cínicos. Queixamo-nos da vida, sempre, sem qualquer pudor por vezes, entre o sério e a brincadeira, sabendo que há quem esteja pior que nós, mas igualmente sabendo que há sempre quem, em princípio, estará melhor que nós. Achamos o universo injusto, achamos que a justiça e a sorte é coisa que não nos assiste, algo que só acontece aos outros, mesmo que tantas vezes ambas nos tenham sorrido, mas preferimos evitar lembrar disso.

O problema no entanto não está aí, porque relativizamos tal, consideramos que já é parte do dia-a-dia, até parte de nós, ninguém liga, ninguém se preocupa e nós muito menos. O problema está quando de facto, por um motivo qualquer, nosso, íntimo, sem expressão, que não compreendemos, ou sequer percebemos, sentimos a vida a correr mal, ou sem o sabor que a caracteriza, algo que se parece com uma nuvem negra, uma sensação lúgubre que se apodera de nós, indo além de qualquer facto concreto ou da razão. Algo que sentimos e não sabemos explicar, que nos leva a queixarmo-nos da vida, usando para tal os chavões do costume, mas sem nunca perceber que essas mesmas razões mais não são que desculpas de mau pagador, para encobrir algo que nos vai na alma e não sabemos exactamente o que é, o porquê ou quando terminará.   

1 comentário:

GATA disse...

Neste momento identifico-me com este texto...