segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O deslumbramento

Nada tenho contra quem emigra. Nos tempos que correm os portugueses voltaram a ser um povo de emigrantes, ainda que noutra vertente geracional daquela que os antecedeu, mais bem preparados, com outras ambições e certamente com uma visão mais cosmopolita do mundo, isto é, vão para um país estrangeiro e não se fecham num nicho constituído pela comunidade emigrante, integram-se, diluem-se, ou pelo menos é isso que os recente programas que passam na televisão dão a entender.
Contudo, aqui há dias ouvia alguém a dizer, com uma expressão segura, a roçar o arrogante, que o que está a dar é emigrar, que emigrar é que é, que isto aqui não vale nada, que aqui não se arranja nada e para se ser alguém era preciso era emigrar. Ao que parece, a directiva proclamada por Passos Coelho está ser cumprida e já passou quase a chavão. Não se arranja trabalho, emigra-se, não nos damos bem com o clima, emigra-se, não gostamos do chefe, emigra-se, queremos ganhar dinheiro, emigra-se, a sogra dá-nos cabo da cabeça, emigra-se, e pronto, fica tudo resolvido. Ficar aqui parece que é estar condenado à miséria, à perfídia, ao insucesso, em suma, a ser um falhado. O mais curioso é que já ouvi isto da boca de gente que está bem na vida, bom emprego, bom nível de rendimento e sem grandes inseguranças pela frente, mesmo na crise actual. Mas não, isto só não chega, porque ficar é ser um falhado ou assim parece. [Nos anos 90 ouvia um discurso parecido, desta feita que quem não se licenciasse ia ter um futuro negro e ser um falhado!]

Esquece-se muita gente que lá fora não é o el dourado que tantos apregoam, nem sempre há o trabalho pretendido e a maior parte das vezes o ordenado desejado. Há antes o trabalho que os outros não querem fazer, trabalho que parece ser bem pago aos olhos dos nossos parcos rendimentos, mas que é o mínimo lá fora. E depois é vê-los, licenciados, mestres, doutores, que aqui jamais fariam certos trabalhos, chorando-se que muito estudaram e por isso tudo é injusto aqui, mas lá fora, na base da pirâmide laboral já se permitem a fazer certas coisas sem qualquer queixa. Mas ainda assim sorte têm aqueles que encontram trabalho, porque muitos outros acabam por voltar, de mãos a abanar, depois de terem sido explorados, mal recebidos devido, não só a uma certa ingenuidade, mas também ao facto de apenas chegarem ao grande ecrã as histórias de sucesso, que, talvez, são apenas uma fracção de uma realidade muito maior, mais crua e dura, da qual ninguém quer falar e muito menos mostrar.  
Pode ser outra geração a emigrar, mais bem preparados, com outras ambições, e certamente com uma visão mais cosmopolita do mundo, mas parece-se que a ingenuidade e o deslumbramento mantém-se igual, deve ser algo cultural, só pode.

7 comentários:

GATA disse...

Há cerca de um ano vi uma reportagem (da RTP, creio) sobre a imigração portuguesa no Reino Unido, e mostraram que havia de tudo, inclusive gente que, não tendo conseguido trabalho, vivia na rua e mendigava e, assim, tentava juntar dinheiro para voltar para Portugal. E quando o reporter perguntou "mas porque não pede ajuda à família para poder voltar?" a resposta foi pronta "Não! Eu tenho vergonha!"

S* disse...

Adoro os Portugueses pelo Mundo, é dos meus programas favoritos. Mas, por acaso, julgo que devia abordar as dificuldades, os entraves da emigração...

hierra disse...

A emigração não é pera doce. Tenho essa experiência familiar e nem sempre foi bem sucedida ou pelo menos não evoluíram muito. Os mais velhos foram para ganhar dinheiro e pronto. Não tinham estudos, não ambicionavam a mais. Os filhos desses emigrantes já regressados tb voltaram já a emigrar, porque, com os meios que os pais lhes deram, não conseguiram evoluir um degrau sequer.Querem ganhar dinheiro são arrogantes e depois ninguém lhes dava trabalho e voltam a emigrar como os pais, para o desempenho de funções idênticas, mesmo tendo estudos. A vida está má emigrar é muitas vezes a solução, mas há muita gente culpada pelo destino que tem! Cada um faz a caminha onde se há-de deitar!

A Minha Essência disse...

Uma realidade que a quem calha é de bradar! :(

Maria Rita disse...

Ainda no outro dia deu na TV uma reportagem sobre emigrar para a Irlanda, que falou só nos aspetos positivos, embora eu acredite que os negativos também são bastantes, falemos do custo de vida, porque eu não acredito que o custo de vida seja igual ao de Portugal.

Inês E. disse...

Já me disseram algumas vezes para emigrar, e a minha resposta é sempre a mesma: para ser explorada que seja cá, no meu país, onde tenho a minha casa e a minha família. Agora ir à aventura para ver o que calha, não obrigada.

PS: gostei do "espaço".

Miss Kin disse...

Conheço bem essa história, não quero emigrar, não quero e pronto! Mas para muita gente o querer fazer pelo meu país, produzir aqui e fazê-lo vingar é falta de visão, é ignorância como já ouvi. Bem, ignorante mas feliz, a sentir que a minha vida podia ser melhor, mas que todos os dias faço para que seja, e que quando um dia for, posso fazer também minha essa vitória!