segunda-feira, 29 de abril de 2013

Do amor #5


Talvez o amor seja o desejo não consumado, o sonho não realizado, uma doença derivada da ilusão e da solidão ou a aceitação em moldes irrealistas que sentimos algo mas não sabemos o quê e então chamamos-lhe amor quando, se calhar, é outra coisa qualquer mas que não sabemos expressar, compreender ou definir.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

...


O mundo divide-se entre quem gosta de posar para a fotografia, entre quem não gosta de posar para fotografia, entre quem só posa para a fotografia obrigado e quem daria tudo para poder posar para a fotografia. 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril


Há trinta e nove anos ocorreu o vinte cinco de Abril, que, de uma modo ou de outro acabou por afectar toda a sociedade portuguesa, a qual vivia até então nesse estado amorfo e sem expressão. Se para muitos essa data foi o começo, para outros foi o fim, mas para a maioria talvez não tivesse sido nada, apenas a continuação que só mais tarde, praticamente na geração seguinte, se veio a revelar algo de concreto, isto depois de muitas atribulações pelo caminho. Talvez por isso, por ter sido um acontecimento inusitado, de ruptura, que vagueou um tanto perdido até escolher o caminho a seguir, que deu o mote a tantas esperanças, a tantos sonhos, à ideia de mudança, à ideia de recomeço e por isso, foi, durante tanto tempo uma expressão de tudo e mais alguma coisa, sempre como de algo positivo que foi revivido até ao presente. Mas também é certo que na última década a ideia de vinte cinco de Abril acabou por ser algo relegada para segundo plano como se a sua importância tivesse diminuído, na medida que tudo aquilo que foi construído a partir do mesmo parece ter crescido, germinado, tendo de seguida murchado e apodrecido. Contudo, ainda que assim tenha sido os acontecimentos recentes têm vindo a renovar o vinte cinco de Abril, a colocar uma nova tónica no seu sentido. Se antes comemorava-se o vinte cinco de Abril devido à esperança que esta data carregava, hoje, parece-me, comemora-se o mesmo pela raiva que um dia este pode vir a significar.

terça-feira, 23 de abril de 2013

...


No meio de tanto caos, de tanta incerteza e aspereza percebemos que queremos permanecer vivos. Queremos continuar, na tentativa de sair do ciclo que nos afoga. Queremos continuar porque ainda há muito para fazer, para descobrir, mesmo que algumas dessas experiências possam ser apenas fantasias, mas queremos tentar, sempre com esperança que as mesmas se possam realizar somente pelo permanecer em movimento. Queremos continuar por curiosidade, para querer assistir ao próximo capítulo, porque por muito mau que seja o enredo não conseguimos fugir do mesmo e quem não gosta de conseguir ver tudo até ao final? Queremos continuar para saber, para descobrir, mesmo que a única descoberta que possamos fazer não seja o que estávamos à espera, mas ainda assim queremos porque queremos e talvez seja isso, no fundo, que nos mantenha vivos, essa pequena fagulha que teima em não morrer, que se renova mesmo nas horas mais agrestes, porque a própria asfixia é muitas vezes não o fim, mas sim, o início ou a simples continuação.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Diferenças entre homens e mulheres #19


Os homens com algo tão mínimo como uma unha encrava quase que ficam praticamente à beira da morte e vão-se logo abaixo.
As mulheres por seu turno estão sempre doentes, se não é a barriga são as dores de cabeça ou outra coisa qualquer!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Prazo de validade


Passar do prazo é perder a qualidade, ficar estragado, impróprio para consumo ou então é simplesmente uma forma arbitrária de pôr algo de parte que na verdade está igual ao que sempre foi. Passar do prazo é ficar mais barato, estar à vista para ninguém querer, é ser substituído por outro e ser metido no lixo ou dado a quem não pode escolher. Passar do prazo é ganhar pó, é ser algo que ficou na prateleira, esquecido ou preterido para depois ficar sempre como símbolo daquilo que não se consumiu num estado que por si só limita qualquer outro estado, porque se ultrapassou a vigência da utilidade, do vigor e do objectivo. Passar do prazo é não ter futuro, é não poder voltar atrás, é ficar condenado a deixar de ser, porque só se pode ser dentro do prazo, dentro do tempo definido para o efeito, num arco que varia conforme cada coisa, além do qual aquilo que se é transforma-se noutra coisa, em algo que muitas vezes já não é produto mas sim subproduto, resíduo do mesmo, matéria alterada e imprópria tanto por força da sua própria orgânica como por força daquilo que se considera ou se pode considerar.

terça-feira, 16 de abril de 2013

+/-


Há quem seja bom, quem seja mau e depois há quem seja mais ou menos. Ser mais ou menos é não ser o pior ao mesmo tempo que não se consegue superar o melhor e poder-se-ia pensar que por isso tal é preferível a ser pior, granjeando assim uma posição mais positiva numa qualquer escala relativa. Contudo, ser mais ou menos é, antes de mais, revelador de imperfeição, não na sua totalidade, mas em parte, não permitindo assim a progressão, o aumento na escala, reduzindo tudo a um amargo de boca que é sentir que estamos no meio da tabela e desse ponto não se consegue passar. Ser pior é fácil, ser bom é difícil e ser mais ou menos parece ser revelador de uma condição de alguém que não se esforça e se mantém na linha de água, numa posição indefinida a qual é tantas vezes confundida, por essas mesmas razões, com o ser pior, porque como nos diz a matemática, a negativa transforma todo conjunto num elemento negativo e por mais voltas que possamos dar dificilmente conseguimos alterar a polaridade de tal situação para o campo positivo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

...

Naturalmente sofre-se, sofre-se com aquilo que desejamos e não temos, com aquilo que gostaríamos de vivenciar e não podemos, pelas mais diversas razões, mas em particular pelo facto de se saber que mesmo lutando a derrota está determinada à partida e deste modo sofre-se, pelo que não conseguimos ser, porque aquilo que somos define se vamos vencer ou não, neste campo ou naquele, mas haverá sempre um, um muito em particular ou até vários campos na pior das hipóteses onde somos sempre perdedores, por mais voltas que se dê, por mais experiência, sabedoria, conhecimento que possamos adquirir, por mais alterações, redefinições que possamos fazer na nossa forma de ser e encarar a vida, haverá sempre algo, algo que pode até parecer pequeno e simples mas aos nossos olhos, no nosso âmago, parecerá tudo, sendo esse tudo uma teia intrincada sem solução à vista, um profundo desejo que não vamos conseguir satisfazer, e por isso sofre-se, de modo esporádico ou continuado, seja de modo ruidoso, seja de modo silencioso, mas sofre-se.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Da beleza




A beleza provoca sofrimento. A beleza que não temos e gostaríamos de ter interna, externa, em nós ou pelos outros, a beleza que estes têm que nos cativa e gostaríamos de a ver partilhada connosco. A beleza é mais do que aquilo que os olhos alcançam, é também aquilo com que sonhamos, que inferimos depois de os olhos terem recolhido a imagem. A beleza é relativa, é abstrata, mas há pontos que não deixam ninguém indiferente e suscita invejas, ciúmes, pensamentos negativos a par de positivos. Sofre-se por pensar-se que não se tem, por de facto não se ter em todos os termos, desde os físicos e reais aos metafísicos e surreais. A beleza suscita guerras, suscita ódios, depressões e ilusões e tão constantemente destrói a lógica, o raciocínio, mas também, e por essa via, é construída, é aspirada e é definida. A beleza faz-nos sentir sós, chama a nós a solidão, chama a nós a angústia por tantas vezes apenas e unicamente se poder apenas sonhar com a mesma, porque tê-la, obtê-la ou construi-la é um projecto difícil de concretizar dadas as dificuldades em acreditar.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Constatação #66


O tempo não nos torna pessoas melhores ou piores. O tempo torna-nos pessoas diferentes.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Momento



Há sempre um momento em que se chega a um ponto onde nada se sabe. Não sabemos onde estamos, para onde vamos, se nos queremos preocupar com isso ou se não nos queremos preocupar de todo. Há sempre um momento em que queremos ficar inertes, sentir apenas uma paz derivada da inação, sem tecer planos ou outra coisa que nos possa exigir força e energia. Há sempre um momento em que queremos esquecer os desejos, as aspirações e ambições, o querer por si só, porque tal requer seguir caminho para diante mas falta-nos o mapa para tal. Há sempre um momento que por vezes ansiamos, que se torna uma continuidade, da qual depois queremos sair, mas é nesse instante que nos apercebemos o quão difícil é ter forças para deixar de o sentir.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Da culpa



A culpa é algo que pode ser atribuída a muitos factores. Pode ser nossa, pode ser dos outros, pode ser de qualquer outra coisa que desconhecemos ou então da soma de tudo e a subtração de nada. A culpa é enganadora mas somos sempre nós que acabamos por sofrer as suas consequências, o seu peso e as contingências que a mesma provoca, o que nem sempre ocorre com os outros, muito embora também estes, por mais anônimos que sejam possam sofrer também. A culpa é de tudo e de nada, desculpam-se uns e culpam-se outros e de entre todos poucos a reconhecem, ou se o fazem não o dizem, não o admitem porque tal seria perder para aqueles que se calam mesmo que a tenham e bastante. A culpa é uma rotina com a qual se vive, que se procura esquecer, enterrar ou então usar para tudo justificar. A culpa nunca morre solteira, mas muitas vezes, talvez demasiadas, morre em silêncio sem que ninguém saiba da sua existência.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Do universo


Há quem acredite no universo, que certas coisas ocorrem de uma forma e não de outra devido a alguma força especial, misteriosa e de certo modo acreditando ou não quase toda a gente sentiu isso alguma vez na vida. Mas o problema do universo é ser incompleto, indefinido e nunca mostrar o jogo todo ou então sujeita-nos, como tantas vezes ocorre, ao engano daquilo que pareceria ser mas acaba por não ser. Acreditar no universo é um pouco como acreditar na magia, mas tantas vezes a magia é confundida com ilusão e se bem que raramente sentimos na realidade essa mesma magia pela qual até ansiamos, não raras vezes acabamos por viver amargurados pela ilusão que a mesma produz ou tão somente pelo facto dela não acontecer com princípio, meio e fim dado que acaba por ser apenas o vislumbre de algo que acaba por nada ser. Talvez por isso acabamos por desconfiar do universo e recusar o mesmo porque para além de magia ele também carrega consigo uma infeliz ironia, da qual não vemos qualquer razão ou sentido.