sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

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O problema não é teres uma boa ou má vida. O problema é não a saberes, ou conseguires, aproveitar.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Constatação #95

Boa parte do que somos é aquilo que pensamos sobre nós. O que sentimos, o que sabemos, o que não sabemos, os nosso segredos, as nossas virtudes, os nossos defeitos. Outra parte é o que os outros pensam de nós e como isso nos faz sentir.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Da inaptidão

Somos inaptos em muitos domínios, mas só o reconhecemos quando sofremos por isso. Ser inapto em algo não significa ser inapto em tudo, pelo contrário, há muitos domínios onde somos competentes, por vezes até em demasia. Mas há sempre aquele domínio onde patinamos e por norma é sempre em algo que, num momento ou noutro, acaba por ser vital para nós. Depois tentamos ultrapassar isso, contrariar essa falha, treinar, estudar, dar a volta ao texto, prepararmo-nos o melhor que podemos. Difícil é depois reconhecer que não temos forma de o conseguir, sentindo todo o peso da ratoeira que acaba por ser formada pelo nosso desejo de querer ultrapassar, de não conseguirmos lidar com esse impossível, supera-lo e como tal reconhece-lo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

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O mundo é dos que participam. Mas nem todos podem participar. Uns são impedidos, outros não conseguem participar e mais haverá que nem querem participar. Participar não é ficar a olhar, é antes estar em algum ponto de relevância, por mais pequena que seja, como um elo numa corrente. Contudo nem sempre há correntes suficientemente compridas para que todos possam ser um elo, em outros casos a concorrência é tanta que alguns têm de ficar de fora. E sorte têm aqueles que se estão a borrifar para isso, os que não querem saber e se o fazem é porque podem ou porque o conseguem. Mas nos restantes fica a mágoa ou a raiva, o abatimento e a tristeza, sentimentos esses que crescem e são mais agudos quando todos os que estão na corrente se riem e projectam a sua felicidade, que tanto pode ser genuína como falsa, mas espelham-na de modo voluntário ou involuntário, nos rostos de todos os outros, onde a percepção é só uma, a daquilo que não têm nem conseguem ter, ser verdadeira ou falsa. E angústia prossegue no seu crescimento geométrico, porque o mundo continua a girar, quer uns participem quer não, seja pelos motivos correctos como pelos incorrectos, porque nem sempre os vencedores são aqueles que o merecem ser.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Luxos

O telemóvel começou por ser um misto, uma vaidade social misturada com uma utilidade. Volvidos todos estes anos continua a ser uma utilidade e da mesma forma, uma vaidade social. Tanto assim é que há quem passe fome, esteja desempregado ou ganhe mal e porcamente, mas não prescinda de ter um SmartPhone de última geração, coisa para custar um ordenado mínimo ou até mais do que isso. Tudo com a desculpa de que é imprescindível, pois será certamente, depois porque o anterior (igualmente topo de gama) já estava desactualizado (por ter um ano ou dois de vida), não teria as aplicações necessárias (que são milhares e a maior parte não se usam), estava lento, não tinha memória suficiente, uma máquina fotográfica com pouca resolução e trinta por uma linha. O que é certo é que tudo serve de desculpa para mudar, para consumir, se é caro ou não, se faz mesmo falta ou não, isso não interessa para nada. E ponha o dedo no ar quem nunca se sentiu importante por possuir a novidade enquanto todos os outros têm a velharia, essa é verdadeira razão para a mudança, para o sacrifício. Em tempos que já lá vão para se ter estatuto era preciso ter um cavalo, agora é só mudar de SmartPhone todos os anos para se estar ao nível da nobreza! 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dos gostos

Há uma tendência que temos de tentar justificar algo que gostamos, teorizando, fazendo inferências, dando referências, criando um conteúdo ou esgravatando um substrato, tudo para lastro a um fundamento que muitas vezes se resume a isso mesmo, somente gostar. Isto porque gostar só não serve, é preciso mais, é preciso percebermos o porquê, dar a entender a razão para o caso de nos perguntarem, ir ao âmago da questão ou então criar ou mesmo inventar o mesmo, quando este se resume a algo tão simples, que é somente gostar. Diz-se que nada é por acaso, no entanto o certo é que há muito que não consegue explicar, muito menos justificar e no que toca aos nossos gostos tanto maior é a essa dificuldade, nomeadamente quando algum gosto específico foge dos parâmetros a que estamos habituados para nós mesmos, ou então quando queremos transmitir esse gosto a outrem quando tal não sucede de forma espontânea como aconteceu connosco. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sonho e realidade

Se sonhamos demasiado alto, ou somente alto para os nossos padrões, é quase certo e garantido que o trambolhão ocorra, ainda por cima com aviso prévio. Se por outro lado não sonhamos de todo, não queremos saber de sonhos e fincamo-nos somente na realidade, sempre nos surpreendemos quando não deveríamos ser surpreendidos, em especial na tónica negativa.


sábado, 29 de novembro de 2014

Sinónimos e antónimos

A origem, a educação e a riqueza não são sinónimos de bom carácter, de inteligência e muito menos de boa educação. Pelo contrário. Quem vem das ditas “boas famílias” raramente é grande coisa, ou vem desequilibrado ou tem a arrogância de ser superior aos demais. Quem estudou nas melhores escolas, teve as melhores notas, superou todos os exames e mais alguns nem sempre tem a inteligência suficiente para perceber tantas coisas simples da vida. E quem é rico, muito rico, habituado a comprar tudo e todos, nunca consegue comprar a educação que não teve, o carácter que julga ter, a cortesia que alguns julgam ser apanágio de bolsos cheios. Sinónimos há muitos, mas antónimos também e preconceitos fundados em pseudo-avaliações é coisa que também nunca falta ou faltará!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Daquelas coisas #25

Uma coisa é sermos os melhores.
Outra é pensarmos que somos os melhores.
Outra ainda é serem os outros a dizerem que somos os melhores.
Uma coisa é sermos os piores.
Outra é pensarmos que somos os piores.
Outra ainda é serem os outros a dizerem que somos os piores.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Do que se supera

Na maioria dos casos todos temos de enfrentar desafios, os quais tanto podem ser voluntários como impostos. Para os superar, sejam eles quais forem, há um esforço a ser feito, energia a despender e muita força de vontade para conseguir ultrapassa-los. Nem sempre tal acontece, tantas vezes somos postos à prova e acabamos por desistir, baixar os braços e seguir em frente. No entanto quando os conseguimos superar há um alívio, grande alegria, um crescer na auto-estima, a sensação de poder, de capacidade, do limpar o suor que não se desperdiçou, sendo que quando tal acontece há um certo vício que cresce em nós, e queremos aumentar a parada, prosseguir para mais alto, mais longe, para campos onde nunca estivemos ou sonhamos estar e sobretudo voltar a sentir o mesmo, mais e se possível, com maior intensidade. Contudo, há muitos desafios que conseguimos ultrapassar, mas tudo o que sobra no final é o alívio, nem alegria, nem felicidade, nem nenhuma outra sensação a não ser o descanso ou a promessa do mesmo, e muito menos vontade imediata de tentar subir o próximo degrau depois de se ter superado com dificuldade o anterior. Não, tudo o que fica é o suor e nada mais, nem vontade, nem poder, isto porque por vezes o desafio é de tal modo grande que mesmo ultrapassado desgastou-nos até ao tutano, ao ponto de quando superado ter ficado apenas e só o cansaço, sendo que a vontade que fica é a de não voltar a sentir o mesmo, o aperto, a angústia, o receio de não conseguir, foram demasiado grandes e aquilo que foi queremos que fique no passado e nada mais.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Dos segredos

Todos temos os nossos segredos. Ideias, palavras, sussurros, desejos e aspirações que se encerram dentro da nossa mente; acções, tentações, coisas que vimos, que fizemos ou não fizemos, que sentimos, as quais nunca saíram do nosso domínio, do nosso espaço intimo porque nem sempre as sabemos explicar, compreender, racionalizar de algum modo que, até para nós, nos leve a compreende-las no seu conjunto, sejam eles inofensivos ou mortais. Ter segredos será normal, mas nem sempre é fácil lidar com eles, na medida que os mesmos explicariam muito do que nós somos, sendo por vezes aquela peça chave para esta ou aquela reacção, decisão, maneira de ser. E a razão por detrás dos mesmos nem sempre é inteligível, nem sempre é luminosa e deslumbrante, é antes sombria, densa, uma amálgama de muitas coisas mais, das quais não conseguimos tecer um fio que permita costurar algo em que nós possamos orgulhar, pelo contrário, na maior parte das vezes é antes algo que nos dá vergonha, receio, medo de mostrar. Por outro lado os nosso segredos são nosso tesouro, aquilo que só mostramos a quem queremos, a quem o merece e a dificuldade maior é encontrar esse outro, porque quase sempre suspeitamos, desconfiamos, e  não é qualquer é um que tem a capacidade nos compreender e sobretudo de guardar, assim como nós guardamos, um segredo, quanto muito discuti-lo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Dizer tudo #2

Muitas vezes à uma vontade imensa de dizer tudo. Esquecer barreiras, entraves, respeitos, bons sensos, apenas e só dizer o que nos vai na alma, sem corantes nem conservantes. Não o fazemos por certo, talvez, na maior parte das vezes, e tanto que fica por dizer, por exprimir, ou então sai, aos pinguinhos, envolto em tantas outras coisas, misturado e sub-repticiamente, sendo que apenas os mais argutos o conseguem perceber, ao mesmo tempo que apenas os mais capazes têm capacidade para o fazer. Na maior parte das vezes tal não é percebido, entendido ou é então só mal interpretado, mas se fosse dito de forma crua, era-o por certo, não havia duplicidade interpretativa, não haveria omissão no entendimento, era percebido não à segunda, mas à primeira. Contudo, e ao mesmo tempo, dizer algo assim, tem consequências. Para nós, no momento pode ser a liberdade, mas a seguir a prisão do arrependimento, para os outros é o choque, é a violência, é algo com o qual não sabem lidar, que não estavam à espera e então reagem, quase sempre mal, num repente também, porque no final de tudo o que interessa é perceber e nem sempre estamos prontos para isso, seja a falar, seja a ouvir. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Constatação #94

É verdade que há aqueles que servem de desculpa para tal, mas também é verdade que há aqueles que são culpados de tudo e mais alguma coisa.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Portugueses brilham lá fora!

"Portugueses expulsos investigavam oito ministros do governo de Xanana"


Deve ser um ar que lhes dá, uma brisa diferente que os torna competentes, profícuos, corajosos, a qual difere certamente daquela que sopra em praias lusitanas. Lá fora são capazes, florescem e brilham, cá dentro tornam-se incapazes, mirram e escurecem. Mas tenho a impressão que há algo mais, o que na verdade acaba por ser algo de menos. É que lá fora é preciso mostrar muito mais do que aqui serve para se sentirem cheios, elevados, grandiosos. Lá fora é preciso substância para o serem e a verdade é que são capazes de atingi-la, cá dentro é que não. Por isso pergunto o que haverá por aqui que não permita tal despontar? Ministros também não faltam, corruptos muito menos e a conjunção dos dois, oficialmente, ainda está por descobrir. Só não entendo como o descobrem lá fora, mas cá dentro ninguém consegue ver nada. Lá fora sabem fazer, cá dentro parece que se nunca são capazes. E não sei se é porque não conseguem ver ou se é porque não querem ver! 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Feira das vaidades

De tempos a tempos à sempre quem se lembre de fazer um daqueles jantares corporativos. Corporativos no sentido que são organizados pelos locais de emprego. Dependendo do nosso humor e sobretudo da nossa relação com as pessoas que normalmente comparecem/organização tais eventos, decidimos ir ou não ir. Se optarmos pela visão positiva dizemos que vai ser bom rever certas pessoas, socializar com outras, ou somente divertirmo-nos fugindo à rotina tendo para tal a desculpa de algo diferente. No entanto, aquilo que se vê em muitos destes eventos é outra realidade, na verdade várias realidades e nenhuma positiva. A maior parte faz-me sempre lembrar uma feira das vaidades, onde pessoas que nunca nos falaram, embora sejamos obrigados a lidar com as mesmas todos os dias, nos mostram agora os dentes, dão-nos palmadinhas nas costas, quando no dia-a-dia nos dão pontapés no cú, ou nos ignoram completamente dado que vivem noutro patamar social. Mais giro no entanto é o mostrar, o mostrar da sua vida além dos limites que conhecemos, como as mesma mais não é que a continuação da arrogância e soberba a que estamos habituados, misturada com uma gabarolice parola de quem só tem casca por fora e está podre por dentro. E ali somos “amigos”, ali somos "colegas", participamos todos do mesmo, desde que, claro está, nos prostremos a suas ilustres majestades, que nos honram por terem descido o degrau do pedestal onde normalmente se encontram e aceitam caminhar à mesma latitude que nós. Porque os mesmos ali parecem caminhar ao nosso lado, mas desenganem-se se pensam que se misturam connosco. Não. Não caminham, desfilam, para depois irem pousar no alvéolo próprio, aquele onde se aceitam misturar, porque lá se encontram os seus pares, aqueles que de forma ingénuo julgam estar a proporcionar a todos de igual forma o momento das suas vidas. Mas, o mais curioso no meio disto tudo é a tromba com que ficam, quando a plebe decide não comparecer, decide abandonar a plateia mesmo antes dos bilhetes estarem à venda, deixando-os no palco sozinhos. Porque isto do mostrar só tem valor quando alguém, mesmo aqueles que só estão ali obrigados e contrariados, olham e assistem ao desfilar do corso. E na cabeça de alguns ingénuos que estão do palco os olhares de ódio e raiva são confundidos como inveja, a inveja que eles desejam provocar, que adoram sorver como se fosse o mais refinado néctar, por algo que não têm, não são, nem nunca vão conseguir ser.  

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Querer e sentir

Não basta querer. É preciso sentir. Sentir que se quer. Por vezes queremos mas falta o substrato, a base. Outras no entanto sentimos, sabemos que sentimos mas não temos oportunidade para nos expressarmos, por um motivo qualquer, e assim se fica com a sensação que morre no nosso interior. E deste desfasamento nasce a frustração, nasce a sensação de perda, porque não se está a aproveitar tudo, mas sim apenas uma parte, ou a forçar aquilo que deve ser natural e espontâneo. E tanto que se quer por vezes, quer-se sentir, quer-se apenas, faz-se força, esforçamo-nos, tenta-se ir mais além, mas falta algo, aquela faísca que não se sabe descrever, aquela combinação cósmica, onde os astros se alinham e quando tal ocorre sentimos, depois executamos e parece inato, quase sem esforço, suave e profundo como um suspiro, sendo que tal se torna a memória que sempre queremos repetir, ainda que da sua repetição não dependa a nossa vontade, antes, a nossa predisposição. Mas quando há apenas esforço, vontade obrigada, nada se obtém, a não ser o desencanto, o desapontamento, aquilo que não queríamos sentir.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Das mudanças #2

Há muitas coisas que mudam as pessoas no entanto o poder e a riqueza parecem ter lugares cimeiros no que toca a mudar pela negativa. Mas depois ficamos a pensar se quem muda por esses motivos mudou mesmo, se já não seria antes mau carácter, sacana, filho da mãe, apenas uma crisálida da qual não brota uma borboleta mas sim uma traça, se as suas atitudes, opiniões que se julgavam inofensivas não carregariam todo um substrato que regado daria origem a algo espinhoso e retorcido. Por vezes parece-me que não são as pessoas que mudam, antes nós é que não temos capacidade de as ver como um todo, de as ler na sua essência, de saber à priori que até podem ter qualidades mas terão ainda mais defeitos. Podemo-nos defender que alguns são dissimulados, falsos e enganadores, que bastou uma mudança de estatuto, por vezes até de forma totalmente inusitada, para que os mesmos mudassem. A surpresa pode ser grande, mas a pergunta que fica mantém-se, forem eles que mudaram ou seremos nós que não vemos?  

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Constatação #93

Não encontrar provoca tristeza.

Mas não conseguir provoca angústia.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

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Provavelmente podemos passar a vida inteira sem sabermos quais são os nossos limites, as nossas capacidades, as nossas maiores virtudes ou os piores defeitos. Isto porque paramos pouco tempo a pensar nisso, porque aquilo que hoje temos como certo amanhã será incerto e, ou, esquecido. Ainda assim vivemos a ponderar o que somos capazes de fazer, tendo como base o que já fizemos e se o conseguimos repetir, igualar e mesmo superar, assim como aquilo que nunca fizemos e se o seríamos capazes de fazer. Essa é apenas uma ideia mais do que uma coisa concreta e certamente tantas vezes matutada por nós próprios, no entanto, tal como em tudo, uma ideia pode parecer não ter substância mas é mais que suficiente para nos alterar, para nos guiar por um determinado caminho, estando presente tanto nas grandes como nas pequenas decisões. No fundo aquilo que somos e o que somos capazes será em boa parte essa ideia e mais do que um acto concreto, será tantas vezes apenas um acto com o qual se ameaça.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Diferenças entre homens e mulheres #28

As mulheres enviam sinais, mas os homens ou não os conseguem ver ou não os percebem.
Já para os homens a dificuldade é não enviar sinais, se as mulheres os percebem ou não, isso não interessa para nada!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Daquelas coisas #24

A minha vontade de trabalhar é inversamente proporcional à quantidade de chuva que possa cair.

Agora falta arranjar a desculpa para os dias de Sol…

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dizer tudo

Eu poderia dizer tudo, ao invés, na maioria das vezes, não digo nada ou digo o que não devo, o que nem sempre bate certo com aquilo que queria dizer. O improviso não é minha praia, poderá ser por vezes, mas não as suficientes para estar seguro. Na maior parte das vezes o improviso que bate certo é algo inesperado e por isso não se pode contar com tal. É antes uma singularidade do universo, algo único e raro, a que nos apegamos registando-o na memória e lembrando-o numerosas vezes, como esperança para uma inspiração que raramente se consegue duplicar. A forma para tal a volta a isso seria dizer tudo, tudo mas mesmo tudo. O correcto, o incorrecto, o que interessa e o que não interessa, criar-se uma verborreia permanente para de tanto se poder assim aumentar as probabilidades de colher o pouco que fosse. Contudo, acontece que dizer tudo tem consequências, para nós, para os outros e muito teria de ser dito até que se atingisse o objectivo de aprimorar a nossa lírica, a nossa retórica, os nossos argumentos. O problema é que dizer tudo parece ser fácil, difícil no entanto é conseguir faze-lo e antes de mais, mas para tudo, ter algo o que dizer.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

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Desejamos que os outros nos percebam. Como queríamos ter a capacidade de saber o que pensam os outros e por vezes como gostaríamos que os outros soubessem o que pensamos sem que para tal o tenhamos de dizer. Preferimos tantas vezes o sinal mudo, o gesto escondido, à mostra integral, à exposição daquilo que gostaríamos que fosse percebido. E se os outros o transmitem pelo mesmo canal e não percebemos nós? Como fazer para traduzir, para interpretar todo esse jogo de sinais? Como decifrar um código encriptado e como fornecer aos outros pelo menos uma parte da chave do nosso? E como fazer tudo isso de modo natural, sem que hajam grandes tumultos, sem ser uma revolução ou uma tragédia bruto-cómica? Mas depois, para piorar tudo isso e baralhar mais um pouco, como fazer para não se estar sempre a pensar em tal, a teorizar e a complexificar algo que devia ser simples e sereno, porque no dia em que tal aconteça ou conseguimos o que queremos ou estaremos mortos sem nunca ter conseguido. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Inspirações

Há coisas que nos inspiram e outras que nos fazem perder a inspiração. Por vezes sentimo-nos inspirados mas não sabemos dar-lhe “corda”, usa-la, aproveita-la, tirar da mesma todo o partido e substância possível, espreme-la até mais não e então perdemo-la para ficamos apenas numa memória perdida no meio de tantas outras, ou então nem isso. Depois ponderamos o que poderíamos ter feito, conseguido, conquistado até, mas a dúvida fica, misturada com um suspiro, porque nem sempre sabemos a razão pela qual não aproveitamos tanta coisa quando o momento se dá, talvez por inépcia, desleixo, falta de atenção ou pura burrice. Entretanto há os momentos inspirados, quase divinos, em que metemos mãos-à-obra e fazemos acontecer, ou assim pensamos, mas, quando estamos no meio do processo, de sorriso nos lábios e quase a sentirmo-nos completos eis que salta à nossa frente uma desilusão qualquer, que nos bate como um murro no estômago, deixando-nos sem oxigénio, sem capacidade para fazer o que quer que seja, gela-nos, oprime-nos, torna-nos apáticos e tudo o que estávamos a fazer antes é imediatamente esquecido, posto de lado, tornando-se irrecuperável e sem razão de ser. No final de tudo parece-me que dói mais quebrarem-nos a inspiração do que sermos nós a perde-la.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Constatação #92

Se antigamente em certos aspectos havia vergonha a mais, agora há vergonha a menos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Agridoce

Podemos acordar e esperar pelo melhor, fazer força na nossa mente, no nosso interior para que tal suceda. Mas à partida sabemos que o que vamos ter é normal e o normal é apenas a rotina, aquilo que conhecemos, sem alterações ou mudanças de maior. Pode haver uma coisinha ou outra que seja diferente, mas, tal como o nome indica, são apenas “coisinhas”, nada de relevante, nada de maior. As alterações que podemos esperar, são aquelas que tememos, as negativas, aquelas coisas que nos complicam a vida, que alteram os nossos planos, e não no plano positivo, pelo contrário, coisas que preferíamos evitar a todo o custo, mas das quais tantas vezes não conseguimos fugir, tanto mais que não as pedimos e elas sempre espreitam. Quanto àquilo que esperamos de positivo, isso por vezes não esperamos mais, sonhamos apenas com tal, porque a realidade oferece apenas isso mesmo, o que é real, o que por si só não é negativo, mas também não deixa de ter um certo sabor agridoce. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Ser e parecer

Em Portugal parecer é ser. Há um medo, um receio, uma vergonha ou somente uma ponta de idiotice, senão idiotice de todo, em crer que parecer é ser. Muitas coisas são feitas, resolvidas, decididas, com base naquilo que alguns pensam que pode parecer. Assim há muito que não é feito, ou é mal resolvido por trauma, porque se pondera que pode parecer mal, que não se deve dizer, fazer, mostrar, a quem de direito aquilo que é de direito. Não que o destinatário se vá ofender, mas há partida teme-se que isso aconteça, e quem diz destinatário pode referir destinatários, porque tanto há que é feito, que não é feito ou é mal feito à conta do “pode parecer mal”. Mas parecerá mal porquê? Porque é mal formulado, porque não é bem feito, porque é algo sem pés nem cabeça? Não! Parece mal porque em algumas mentes luminosas pode parecer mal e pronto. E a razão para que tal suceda? Simples. Há muita gente que decide, para não dizer que manda, que vive na mundo primitivo da paz podre, do culambismo perpétuo, onde tudo o que é inovação ou puro senso comum é algo a evitar, para que se mantenham aparências e porque pode parecer mal, e o que parece é, nas suas cabeças. Mas na verdade aquilo que parece e é de facto é a imbecilidade que está patente naqueles que chefiam, mas isso ninguém aponta ou profere, porque poderia parecer muito mal, mas saberia tão bem a quem prefere ser ao invés de parecer. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

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Aquilo que queremos hoje não é o que queríamos ontem e possivelmente diferirá do que vamos querer amanhã. Poder-se-ia dizer que tal como aquilo que queremos também nós mudamos. No entanto esta mudança é mais caprichosa, que se é que ocorre mesmo. O que acontece talvez seja uma alteração no que somos, não na profundidade mas à superfície, o que, por si só, já nos causa enormes dores de cabeça. Tal reflecte-se muita vezes no que queremos, no modo como encaramos a vida, nos nossos objectivos, na falta deles, no modo como lidamos com tudo. E pelo meio ficam as dores de crescimento, onde o antigo se debate com o moderno à vista de um futuro que espreita sem no entanto desvendar o véu. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Da boa vontade

A boa vontade tem limites, mas há situações em que a mesma é posta em causa, em que apetece abandona-la e adoptar outra postura. Nomeadamente quando a boa vontade oferecida serve apenas para colmatar as falhas dos outros, a boa vida dos outros, o parecer bem dos outros. Nestes casos e noutros repensa-se, sendo que se começa a mostrar má vontade. Não se pense que quando se tem boa vontade se espere alguma contrapartida, não se espera, dá-se e pronto, mas quando os outros servem-se continuamente da mesma, abusam, não há volta a dar. Do dia para noite muda-se, alteram-se os vértices, mudam-se os trópicos e se ontem existia boa vontade, hoje a mesma deixou de existir e amanhã logo se verá. Posto isto creio que a boa vontade apenas dura se aqueles que dela beneficiem a souberem preservar e sobretudo respeitar, de outra forma dificilmente a voltam a ver.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Escapar

Há um ponto em que estamos cansados. Fartos. Tudo nos complica. Os outros, nós próprios, as coisas, coisa nenhuma, tudo e mais alguma coisa. E a solução, a vontade? É fugir, sair, ir, sem destino, mudar de roupagem, metamorfosear-nos noutra coisa qualquer, viver outra vida que não a nossa, ser tudo menos aquilo que somos, estar em todo lado e em sítio nenhum ao mesmo tempo. Essa é para nós, nesses momentos, a única cura possível, aquela que nos tornaria de novo felizes, fazer o reset como de um jogo se tratasse e voltar ao início, ir para outro cenário, assim, tão só.  Mas sabemos, temos consciência, que tal é impossível, mas igualmente se o sentimos é porque a nossa vida num dado momento se tornou igualmente impossível e ansiamos por respirar novamente de tão afogados que estamos na mesma e nos seus problemas, que são os nossos problemas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Constatação #91

Se te acusam de seres desonesto e de seguida provas o contrário, imediatamente chamam-te então de parvo!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Algumas coisas podemos mudar, outras não. Contudo quando queremos mudar algo queremos mudar normalmente aquilo que nos incomoda, que acaba em muitos casos por ser mais complexo, complicado e impossível de mudar. Aquilo que queremos mudar tantas vezes é a nossa própria essência, porque pensamos que a mesma não é suficiente para obtermos o que queremos, em vez de trazer vantagens trás desvantagens, em vez de nos auxiliar complica-nos a vida. Por isso, por mais voltas que possamos dar, por mais aprimoramentos que possamos tentar fazer, acabamos por ser sempre aquilo que somos, aquilo que sempre fomos e provavelmente seremos. Resta pois tentar tirar o melhor partido, usar as vantagens, se as mesmas existirem, e esquecer as desvantagens. O problema centra-se no entanto quando a nossa própria essência não permite sequer tirar partido dela própria, seja a que dimensão for, o que nos desilude e abate, fazendo-nos pensar como o podemos ultrapassar, o que faz com que voltemos à tentação de mudar aquilo que não pode ser mudado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Mostrar o jogo

Ninguém gosta de mostrar o jogo todo. As razões para isso são óbvias, mostrar o jogo significa colocar-mo-nos numa posição de desvantagem, onde toda a nossa fragilidade fica à mostra, na dependência de quem vê e que pode fazer uso disso a seu belo prazer. Por isso somos tão resistentes a mostrar o jogo, podemos mostrar muita coisa, mas há muito mais que não mostramos, por outro lado, escondemos a sete chaves de tudo e de todos o resto, ao ponto de quando é preciso mostrar um bocadinho, como gesto de boa vontade, nem sempre temos coragem para tal ou o sabemos fazer e com isso muito se perde igualmente. Talvez por isso seja difícil jogar, muito mais perceber jogadas ou entender as mesmas para se conseguir antecipar qual vai ser o nosso próximo passo, o qual, na maior parte das vezes, traduz-se em coisa nenhuma, num silêncio de gelo, na imobilização total, o que mais tarde acaba por se traduzir num arrependimento atroz.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dito e feito

Sim, é verdade, há coisas que já devíamos ter feito, ou fazer, dito ou dizer, mas não o fizemos e dificilmente teremos outra oportunidade para o poder fazer. Sim, é verdade, que quando se tem para dizer deve-se dize-lo, mas nem sempre se sabe como, com que palavras, em que contexto, quando, onde e as razões para o fazer não são sólidas, são antes um emaranhado de tudo e de nada, apenas um instinto do qual a razão desconfia e desse conflito nasce o silêncio ou então pior, diz-se algo apenas para se perder toda e qualquer hipótese de se voltar a abrir a boca. Sim, é verdade, que se devia fazer, antes mesmo de pensar, fazer e pronto, porque no meio-termo fica-se a pensar e o pensamento congela, altera, retira a verdade, impede o improviso, e, ou não se faz nada ou faz-se tudo ao contrário, de modo forçado, calculado mas baseado na matemática errada, naquela que é fria e incómoda, realista e insonsa, falhando o objectivo, não por erro, mas sim por estar fora de contexto. Sim, é verdade, tanto que se podia ter dito e feito, feito e dito, mas tanto mais que nunca foi feito e dito, dito e feito, e tanto mais que foi dito mas não com as palavras certas, e tanto que foi feito mas sem o gesto correcto. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Constatação #90

O brilho de uns é directamente proporcional à escuridão de outros!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Da raiva

A pior raiva não é a que sentimos pelos outros. A pior raiva é aquela que sentimos por nós próprios, espelho dos nossos actos, dos nossos defeitos, da nossa incompetência para conseguirmos, para ultrapassarmos, para vencermos, para nos defendermos e superarmo-nos. Essa é a pior raiva e lutar contra a mesma é difícil, é complicado, podemos nos auto-flagelar, partir os dedos enquanto esmurramos as paredes, fazer correr sangue, suor e lágrimas, porque a isso ela nos leva, ou então pior, podemos ficar num canto escuro durante um bom tempo, a lamentarmos a nossa falta de sorte, sentindo nos ombros o peso do mundo que no fim é nosso próprio peso multiplicado por mil. A pior raiva é essa, que leva a que lutemos contra nós, contra a vontade de desistirmos de nós, contra o abandono da nossa alegria, da nossa confiança, de tudo aquilo que são as nossas bases, as quais sentimos como algo podre, que ruiu ou vai ruir e contra qual não podemos fazer nada, quando queremos fazer, quando queremos à viva força encontrar um caminho, uma solução, um escape, fazer reset, mas por mais voltas que damos voltamos sempre ao mesmo ponto de partida, sendo que a única coisa que nos resta é esperar que o tempo passe para lavar esse sentimento, tempo esse que não queremos ter de esperar e por tal impotência sentimos raiva.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Constatação #89

A humanidade não me pára de surpreender, mais pela negativa do que pela positiva. Curioso no entanto é o facto de nesta altura eu ainda conseguir ficar surpreendido com algo que já não me deveria surpreender.  

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

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A dada altura já não sabemos o que pensar, o que fazer, não sabemos o que queremos, mas também nunca o soubemos ao certo. Podemos ter uma pequena esperança por algo, mas é uma esperança desconfiada, mais um escape para terras de fantasia que outra coisa. No horizonte queremos vislumbrar apenas o que é simples, a paz e a tranquilidade, mas no fundo queremos mais, ainda que sentindo que tal é impossível, que não vai vir, que é uma falácia que projectamos para manter esse equilíbrio precário que é a nossa vida. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Da derrota

Podemos ser derrotados, mas nem sempre é fácil aceita-lo. Poder-se-á dizer que somos persistentes, lutadores até, mas no fundo acabamos por ser apenas parvos. Não perceber quando se perde é o mesmo que remar contra a maré, é persistir numa luta contra nós próprios mais do que outra coisa, é justificar a luta pela luta já que a vitória nunca será nossa. Há momentos em que é preciso percebe-lo, a bem ou a mal. Contudo o problema maior acontece quando conscientemente sabemos que perdemos e não há volta a dar, mas aquilo que sentimos é a estúpida da ponta de esperança, aquela vozinha fininha que nos diz que ainda podemos vencer, a qual provoca no nosso interior o conflito permanente e desta feita a prisão da qual não conseguimos sair. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Opções

Por vezes parecem haver tantas opções, mas depois de vem visto percebemos que de todas nenhuma nos serve. A elevada quantidade é apenas uma nuvem de fumo que nada encerra dentro de si, servindo tão somente para nos iludir, para não nos preocuparmos porque quando se tem julga ter uma mão cheia de opções podemos dar-nos ao luxo de escolher e quando muito bem queremos. Mas nada disso é real, quando tentamos agarra uma percebemos o quanto todas as outras são falsas, ilusórios, tal como aquela que queremos segurar. Ter muitas opões é bom, mas ao mesmo tempo mau, porque não sabemos qual escolher e levamos tempo a pensar, perdemos uma eternidade a decidir-nos, tudo porque julgamos ter tempo para isso devido à ampla oferta que nos oferece. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Dizer não

Se pensarmos bem é mais difícil dizer que não gostamos do que gostamos. Dizer que sim é sempre mais fácil, fica sempre bem, mas dizer não, recusar, marcar um ponto é sempre o mais complicado. Em certos contextos até fica bem mostrar que se tem um gosto, que se sabe o que se quer, que se tem uma opinião vincada, mas no geral temos uma extrema dificuldade em dizer que não gostamos, que não nos agrada, pior ainda quando e por nenhum motivo em particular, quando não gostamos porque não gostamos e embora ainda que para nós isso seja perfeitamente normal, para quem nos ouve, ao não apresentarmos uma razão, um argumento que seja, tal é incompreensível e tornamo-nos insondáveis ou simplesmente picuinhas e esquisitos. Talvez por isso engolimos tantos sapos, sentimos tantas vezes o arrependimento, metemo-nos em tantos sarilhos, tudo porque não dissemos não, sem qualquer preocupação com a justificação devido ao receio, ao receio de ter de justificar o injustificável.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Boring...

Por vezes estamos aborrecidos com tudo, por todas as razões e mais alguma ou pela falta das mesmas. Porque não conseguimos delinear outra forma de estar, porque nada nos motiva, porque não há um plano para o que fazer a seguir, porque estamos cansados, porque estamos fartos do cansaço e cansa-nos ter de fazer algo em oposição a isso. Nada nos satisfaz, não sabemos o que queremos, sabemos apenas aquilo que não queremos, ou sonhamos só com aquilo que não podemos ter para justificar o estado em que nos encontramos. Encontramo-nos aborrecidos não por falta do que fazer, mas porque aquilo que nos oferece não queremos fazer e quando fazemos é a custo, como se estivéssemos de castigo e mesmo que tivéssemos hipótese de não fazer havíamos de nos queixar de nada ter para fazer. No fundo há dias ou fases em que estamos aborrecidos, apenas porque sim e ficamos a aguardar que tal passe, porque quando estamos nesse estado não saboreamos nada, não aproveitamos nada, em suma, vivemos, mas muito mal.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

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As alterações provocam sentimentos. Ou pelo menos a isso estamos habituados. No entanto, por vezes, as grandes alterações nada provocam ou provocam menos do que esperaríamos, da mesma forma que as pequenas alterações, que não deviam ser nada, podem dar azo ao mais violento tumulto. Curioso no meio disto tudo é que quando, seja pouco ou muito, já não nada provoque e nesse momento começamos a pensar. Começamos a pensar se está tudo bem, se era assim que devia ser, se nada haverá escondido há espera de nos assaltar quando menos esperamos, ou se, simplesmente, já estamos de tal forma calejados que já não sentimos nada. Mas aquilo que é pior é a falta, é sentir a falta de sentir, porque se supõe que se iria sentir, há um vazio que não se sente, um capítulo que parece que se ultrapassou sem ler, uma partida que se faz sem saudade e uma chegada que ocorre sem expectativa, sendo que tudo é relegada por a mais pura das normalidades, ao ponto de se confundir com uma rotina. Chegado a este ponto resta saber o que virá a seguir, ou melhor, se conseguimos sair deste circuito que parece estar fechado e de onde nada mais se pode esperar. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Falta de paciência

Há dias em que não temos o mais pequeno pingo de paciência. Dias onde o impropério vive agarrada à língua, o palavrão torna-se um monstro indomável manifestando-se não só no aspecto como também em toda a sua profundidade. Depois são pequenas coisas, coisinhas, daquelas que por norma não ligamos mas que atingem agora dimensões continentais. São as pessoas, as pessoazinhas, que sempre disseram as suas parvoíces, parvoicezinhas, que nos soam aos ouvidos como badaladas de um sino. São as atitudes, atitudezinhas, que nos fazem espumar da boca. Por norma a paciência cega-nos, faz-nos tolerar, não ver ainda que vendo, esquecer, superar, não ligar, não dar a mínima. Mas a falta de paciência deixa-nos em alerta, em alerta demais, reparamos em tudo, o mundo torna-se maior, com mais pormenores, mais escuro, mais estúpido, as pessoas tornam-se uma massa disforme encarnando apenas a merda que fazem, a merda que dizem e como tal, torna-se em grandes pedaços de merda que nos repugnam. Talvez seja preciso falta de paciência de vez em quando para vermos mais além, para percebermos os nossos limites na medida que os mesmos, nesse momento, foram ultrapassados e, na maior parte das vezes, não porque desejaríamos ultrapassa-los, mas sim, porque nos obrigaram a ultrapassa-los. É nesse momento que percebemos igualmente o quanto as pessoas conseguem ser chatas, despropositadas, mal-educadas, invejosas, mesquinhas, manhosas, arrogantes, no fundo, é nesse momento que percebemos o lado negativo de muitos que por aí circulam ou sempre soubemos do mesmo mas agora sentimo-lo na pele a abrir em nós uma ferida. Mas da mesma forma sabemos que é apenas uma tempestade, um fenómeno muitas vezes súbito, um instante, que se inicia e tem um final. Resta depois ver quais foram as consequências e qual a quantidade destroços, os quais, na maior parte, somos nos próprios.  

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os novos candidatos à CPLP


Depois de se ter permitido a entrada da Guiné Equatorial na CPLP abriu-se a possibilidade tão esperada de outros líderes mundiais poderem também pertencer a esta grande família e assim conseguirem ter, entre outras coisas, uma voz mais proeminente junto das instâncias internacionais. Assim sendo, já que o factor língua portuguesa é uma mera futilidade, queria dizer formalidade, muitos outros candidatos entraram para lista de espera, para, também eles, terem direito a entrar na referida comunidade. Isto porque é sempre bonito dizer que se tem amigos, que se pertence a um grupo, tanto mais que dessa forma se criam bases por onde se pode fugir, guardar dinheiro ou tão só fazer negócios duvidosos usando intermediários legítimos que de outra forma não iam querer sujar as mãos. Depois como um amigo ajuda sempre um amigo, tendo o Presidente Angolano ajudado o BES de Angola é altura do Presidente Português ajudar o amigo canibal do Presidente Angolano com o qual ninguém quer brincar, ao qual congelam contas bancárias noutros países e por último vive a nadar em Petróleo, líquido esse conhecido por limpar a credibilidade de qualquer um. Desta forma, isto veio mostrar como esta comunidade pode ser apetecível e interessante, pelo que surgiram logo novos interessados dos quais destaco dois fortes candidatos que pelas suas características estão no topo das preferências:
- A Coreia do Norte – este Estado incompreendido, tido como pária mas que só tem gente de bem e onde, contrariamente ao que se diz, todo o povo vive muito bem, porque são todos iguais e austeros, tal como se revela nos seus líderes, gente de elevado carácter, sempre vestidos com uma roupa que lembra o burel das ordens mendicantes. – Kim Jon-un já colocou o seu ministério dos Negócios Estrangeiros a falar com a CPLP. Afinal de contas os portugueses até andaram por aqueles lados há uns quinhentos anos (não sei se chegaram tão longe mas isso não interessa nada) e dado que se conhece o potencial atómico desta república estalinista, isto pode ser uma mais valia para a Comunidade devido à sua ausência de tecnologia deste gabarito nos seus arsenais. Cavaco Silva (perito em geografia) já mandou uma missiva à Presidenta do Brasil, referindo que esteve na Coreia (do Sul) há pouco tempo e foi muito bem recebido, tendo gostado muito daquelas paragens, onde parece que há chá e arroz, tendo ficado somente na dúvida se haveria também bolo rei!
- O califado ISIS (ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante) – outro Estado incompreendido, que injustamente nem Estado é ainda porque não é reconhecido por ninguém, mas tal como a Coreia do Norte solicitou a entrada na CPLP como forma de se legitimar internacionalmente. Aqui a factor língua foi tido em conta, afinal de muitas das palavras usadas no português são de origem árabe. Para mais é sabido que em tempos que já lá vão boa parte do território português pertencia aos árabes e se não houvesse essa “invasão” de cristãos do norte hoje, certamente, toda a comunidade da CPLP falava árabe e era muçulmana. É pois altura de reformular a história e dar uma nova oportunidade a uma cultura que foi rechaçada dos seus domínios e impedida no passado de prosseguir os seus sonhos. – Abu Bakr al-Baghdadi, califa que gosta de relógios caríssimos, já se propôs trocar uns barris de petróleo por uma vivenda no Algarve (de modo a obter um visto gold e poder vir a Portugal comprar relógios na Avenida da Liberdade) e uma roça no sertão Brasileiro porque gosta de desertos e deve ser um local para começar a islamização na América, referindo ainda que de onde estes barris saíram, muitos mais podem sair.

Assim sendo a CPLP está desta forma em vias de crescimento acelerado, mas se calhar é altura de rever o que significa a sigla se calhar, com tantos e bons exemplos, é Comunidade de outra coisa qualquer!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Tragicomédia

Até podemos encontrar a paz. Mas somente por momentos, nos momentos em que nos obrigamos a esquecer, em que nos obrigam a esquecer, mas na verdade nunca esquecemos, apenas colocamos em pausa. Depois volta a correr a fita, volta tudo o que antes estava e ficamos novamente a pensar naquilo que não devemos pensar. E há tanto para pensar, tanto que nos desespera, tanto que nos oprime e machuca, um mundo inteiro feito e formado por nós e somente nós, lugar onde uma pequena parte é reservada para quem ajuda o indesejável e outra parte para quem assiste ao que não queremos mostrar. No fim temos esse palco montado, num teatro onde a máscara é só uma, mas mista, onde nos rimos daquilo que somos e daquilo que fazemos e outra onde choramos por aquilo que somos e por aquilo que fazemos. Esta é a dicotomia, este é o paradigma e a paz, essa, só encontrada fora do palco, nas mudanças de cena ou de acto, porque de resto, a peça em si, essa, é sempre a mesma.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Das expectativas #3

As expectativas mais não são do que aquilo que queremos, aquilo que desejamos e talvez por isso os resultados esperados saem tantas vezes gorados. É natural ter-se expectativas, por vezes é fácil, uma questão de ter ou não ter, de passar ou não passar, de obter ou perder. Contudo, noutros casos a expectativa faz-nos perder numa continuidade, isto é, ficamos a pensar como será e imediatamente já estamos a ver o futuro a médio e longo prazo, a imaginar a partir de uma faísca de pensamento tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse. Em suma, vivemos o sonho no pensamento por alguns momentos o que nos faz esperar mais de algo que não sabemos. Depois vem a realidade, definida, crua, fria e caímos, damos um tombo, ficamos desconsolados, apáticos, deprimidos até, simplesmente por nos deixamos ir, ludibriados que fomos somente por um mau cálculo, o qual nos deu alegria por segundos e tristeza por tempo longo e indefinido, e essa expectativa, a negativa, é por si só tão difícil de ter e observar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Da vergonha

Sempre houve quem tivesse vergonha e quem nunca a teve. Ao longo do tempo, de gerações e gerações e mesmo da própria vivência pessoal de cada um, há momentos em que perdemos a vergonha e da mesma forma existem outros em que ficamos cheios da mesma. Contudo há circunstâncias e atitudes que são passíveis de gerar mais vergonha do que outras, sem que tal tenha alguma relação com a personalidade de cada um. Isto porque há posturas sociais condenáveis, não de modo extremo, mas sim de um modo que muitos consideram deploráveis, pelo que poucos no seu perfeito juízo gostariam de se ver em tais situações. No entanto, parece-me, que nos tempos que correm a vergonha é moda ultrapassada, daí que muita gente goste de se mostrar em todo o seu esplendor (ou com falta dele) perante todos, afirmando assim uma pretensa superioridade, visto que se julgam a medida de todas as coisas criando uma visão do mundo onde os demais não entram nem têm opinião e onde eles são reis e deuses, pelo que a vergonha é coisa para gente pobre, fraca de espírito e a arrogância com que a exibem, a falta de modéstia que exprimem, a vaidade que debitam é de tal ordem lastimosa que envergonha por vezes não eles, mas aqueles que estão à volta dos mesmos e não têm como escapar, nem como alterar a situação, porque ninguém consegue convencer alguém nesse âmbito que o universo é algo muito maior onde os planetas não giram à sua volta.    

segunda-feira, 7 de julho de 2014

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É verdade que devíamos entender o fim como princípio, como o início de algo, o fechar de porta de algo, uma continuidade feita de degraus e etapas, as quais servem somente para serem ultrapassadas e não são a síntese final que buscamos. O grande problema é que não é fácil aceitar o fim, a mudança, o bater na parede quando se imagina que se tinha chegado. Ao invés sentimo-nos muitas vezes presos num cubo para o qual saltamos, a pensar que ali encontraríamos algo, que não sabíamos bem o quê, mas algo de positivo, de definido, algo que pudesse ser um caminho, um motivo, uma razão, em suma, uma esperança. Mas não. Encontramos antes um beco sem saída, a densidade de um tudo demasiado pesado ou o vazio gritante que nos asfixia e ali ficamos, sem saber o que fazer, sem conseguirmos ultrapassar a distância para outro lado qualquer, não entendendo algo como um fim para se tentar descobrir esse novo principio, esse novo capítulo cuja passagem devia ser natural. No fundo acabamos por sentirmo-nos cansados, desalentados, sem forças para repetir, para descobrir aquilo que há muito julgávamos ter descoberto e nunca chegamos a escavar. Mas pior que isso tudo é o facto de persistirmos por vezes nesse mesmo lugar, à procura daquilo que sabemos que não vamos conseguir encontrar, iludidos pela ilusão forçada que impomos a nós próprios, por falta de forças para tentar algo de novo, por faltar o fogo por lutar e prosseguir, por ser muito difícil de vencer o desconhecido, ainda mais quando não conseguimos admitir que há muito estávamos vencidos.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Produção vs Reprodução

Diz-se que os nórdicos são produtivos e da mesma forma diz-se que os dos trópicos são reprodutivos. A meio caminho ficam os temperados dos quais se diz que nem produzem nem se reproduzem. No entanto parece-se mais, que independentemente da latitude, os que produzem não se reproduzem e os que não produzem reproduzem-se!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os outros

Usamos os outros como desculpa para o que fazemos e para o que não fazemos, mas muito raramente o admitimos ou temos consciência disso. O mais curioso é que muitas vezes os outros nem sabem que são a desculpa, nem sabem que são parte da equação que nos move ou nos deixa imóveis. Tudo porque não lhes dizemos na maior parte das vezes aquilo que nos vai na alma, isto porque tendemos a pensar que se o fizéssemos estaríamos a dar-lhes e entender a importância ou a falta dela na nossa vida, graduação que é sempre variável e nem sempre temos ideia correcta da mesma. Independentemente de querermos ou não querermos, do que fazemos ou não fazemos, certo é que os outros terão sempre um impacto, maior, moderado, pequeno, mas têm um impacto, mas, por orgulho ou pura ignorância nem sempre queremos ou sabemos o quanto os outros nos influenciam, seja nas pequenas ou grandes decisões. Contudo se isso acontece connosco, muito mais acontecerá com os outros, os quais podem pensar que nos influenciam muito, sem terem grande impacto em nós, ou quando não pensam ou imaginam o quanto nos afectam nas nossas decisões.