sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A vergonha

Antes havia vergonha de se ser pobre. Havia receio de mostrar que se poupava, porque se tinha de poupar ou porque não se tinha de todo para gastar. Era preciso mostrar, fazer de conta que se tinha, que se fazia e quando era preciso escolher nunca se optava pelo mais barato porque parecia mal. Parecia mal tal como parecia mal tomar o pequeno-almoço em casa ao invés de o fazer na esplanada da pastelaria, de levar a lancheira com o almoço para o trabalho, o mísero papo-seco com manteiga enrolado num guardanapo para o lanche. Pior ainda era entrar nas redes sociais e não ter nada dizer, porque os fins-de-semana e as férias eram passadas em casa a ver TV, porque não se tinha dinheiro para viajar para o estrangeiro ou mesmo para ir até ali ao Algarve, que era coisa de pobre remediado. Dessa forma não se falava das festas a que se ia, nem se mostravam as fotos dos locais que se visitavam, nem que fosse uma única vez na vida, mas tinha-se de o fazer porque havia vergonha em nunca tê-lo feito. Escondia-se o telemóvel porque o mesmo não era topo de gama, não dava para tirar fotografias, nem para navegar na internet, ouviam-se as críticas porque não trocava de carro quando o mesmo já tinha uns anos. E vivia-se assim, a lutar contra essa vergonha, fazendo contas todos os dias, fazendo de conta por vezes, gastando o pouco que se tinha e não tinha, tudo para brilhar efemeramente por alguns momentos e ansiando por melhores dias, para se poder mostrar que se tinha sem receios de ser tudo uma fachada.

Hoje, continua a haver vergonha de se ser pobre, mas igualmente de se fazer algo que nos denuncie como supostos ricos. Esconde-se o que se faz, o que se tem, a vida que nos vai correndo mais ou menos, porque se receia o olhar condenatório de quem nada tem, tudo perdeu ou gostaria de ter e não pode. Hoje receia-se dizer que se comprou isto e aquilo, que se vai viajar para aqui e para ali, que se tem esta ou aquela actividade porque isso é constranger os outros. Contam-se os trocos para comprar o que quer que seja, pede-se à caixa para parar no valor x e no primeiro evento em que se quer participar pergunta-se imediatamente quando custa. Parece igualmente mal perder tempo a tomar o pequeno-almoço na pastelaria, é anti-social não trazer a lancheira para almoçar no trabalho como todos os outros. E nas redes sociais já não se postam fotos de lugares exóticos pelos quais se viajou, pelo contrário, fala-se em emigrar, sonha-se com sítios distantes onde se pode arranjar um melhor trabalho e quiçá ter uma melhor vida. Ter um carro topo de gama deixou de ser um sinal de status, passou a ser um sinal de ódios, sem contar que se custa a suportar tais cilindradas e um carro por si só. Hoje receia-se parecer rico, quando não se é, é-se apenas remediado ou somente melhor orientado. Hoje há vergonha em ter algo ou mostrar que se tem algo, quando aquilo que se faz é fazer o que sempre se fez e deixou de parecer mal parecer-se pobre, passando a parecer mal passar-se por rico.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cadernetas de cromos

Há quem dificilmente nos engane, porque se lhes topamos um único e certo defeito, atitude ou postura, sabemos à partida todo o resto que lhe está associado. Estas pessoas funcionam como cadernetas, onde ao longo das suas páginas há um lugar específico para um determinado cromo e mesmo que não estejam completas sabe-se à partida qual a posição de cada gravura. Por isso basta um ou dois cromos para sabermos à partida a que cadernetas pertencem, sendo por isso fácil de definir todo o conjunto com apenas uma fracção. Difícil no entanto é perceber quem sabe esconder ou fazer uso de certos elementos, isto porque por vezes há colecções que são descontinuadas e cromos com erros de impressão. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Voltas


Ando às voltas. Dou voltas e mais voltas e mais voltas. Continuo às voltas. E dou voltas com voltas dadas. Tantas voltas dou até ficar tonto e tonto fico de tantas voltas volvidas. Voltas que tanto dou e na volta volto sempre ao ponto de partida sem nunca voltar a lugar nenhum. Dou voltas e mais voltas sem nunca sair desse movimento perpétuo. Continuo às voltas. E das voltas não saio, ou porque não sei sair ou porque não sei como sair ou porque já me habituei e sem voltas não me consigo encontrar. Tantas voltas dou que, quiçá um dia, não voltarei mais de tão torcido que fico. Paro. Estanco. Mas se assim for destorcerei por certo a seguir, voltando então a  dar voltas até ao ponto em que comecei as mesmas. Ando às voltas, sempre e não sei quando vou parar, ou se algum dia irei parar.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Do gostar

Gostar só não chega. É preciso muito mais. É preciso embrenharmo-nos, criar um conteúdo, um substrato muito maior, viver para, porque de outra forma não parece que gostamos, parecerá ao invés que apenas simpatizamos, como um gosto superficial e não um gosto profundo. Pode-se gostar e tal pode ser sincero, puro, pleno, mas é preciso saber o que fazer com isso, é preciso lutar porque se gosta, aventuramo-nos, fazer loucuras, ir ao extremo para o mostrar, para nos envolvermos de facto. Podemos sentir que gostamos, mas mesmo assim teremos sempre dúvidas, porque gostar também é ter medo, o medo de deitar tudo a perder, o medo do arrependimento, o medo de seguir o caminho errado, de ter o gesto que leve a demonstrar o oposto, porque se é movido simplesmente pelo sentimento, o qual nem sempre é percebido, entendido e sobretudo, apreciado. Gostar nem sempre é fácil, é como uma doença que queremos curar sem o querer fazer, porque nos faz sofrer ao mesmo tempo que nos faz sonhar. Mas gostar só não chega, é preciso convencer, mostra-lo aos outros, a nós próprios e nem sempre se encontram as palavras, as situações, a postura certa, o esforço, a energia, a motivação necessária, porque há sempre quem goste e quem não goste, há sempre quem desconfie em vez de acreditar e nem sempre nós próprios acreditamos no grau que deveríamos. Gostar devia ser tudo, devia ser a síntese, a conclusão. Mas não. Gostar é apenas o começo e tudo o que vem a seguir é a projecção desse sentimento, isto, se o soubermos usar, controlar e tirar partido do mesmo, o que nem sempre acontece. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

...

Por momentos deixamos de sonhar. Deixamos de acreditar ou então sonhamos como escape por não acreditar. Mas ainda assim deixamos de sonhar, de sonhar com aquilo que pode ser real. Procuramos ao invés sonhar com o impossível, o totalmente possível. E porquê? Porque os sonhos tangíveis ou já os atingimos, ou então não os conseguimos atingir de todo. Por outro lado os sonhos mudam, tal como as vontades e a alguns acabam por perder a sua validade, o seu desígnio, toda a motivação que estava adjacente aos mesmos. Nesse momento mudamos a roupagem aos sonhos, os sonhos passam para um campo totalmente metafísico, longe de toda e qualquer realidade, para ocupar esse espaço deixado pelos outros, por aqueles que podiam ser úteis, porque deixar de sonhar não podemos, não conseguimos, então mais vale sonhar com alguma coisa, louca, imensa, para lá de, ao invés de deixar de sonhar de todo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Das palavras #5

As palavras têm poderes. Podem-nos alegrar, magoar, irritar, suspirar, fazer-nos sentir muitos e determinados sintomas, dão-nos alegrias e tristezas, encher-nos o coração de vida ou esvaziar o mesmo. As palavras são perigosas, são traiçoeiras, temos de ter cuidado a lidar com as mesmas, porque as más interpretações são fáceis, da mesma forma que encontrar as palavras certas não é fácil e nem sempre conseguimos, pelo menos na sua perfeição. As palavras são capazes de mudar o mundo, de mudar a sociedade, de nos mudar a nós próprios, por fora, por dentro, de nos fazerem sentir seguros e inseguros. Contudo e ainda assim, existem coisas que valem mais que mil palavras, gestos, olhares, toda uma panóplia de situações onde as palavras são omissas, ou pelos menos aparentam ser, mas estão lá, presentes, nesse silêncio, porque no silêncio também existem palavras mas nós nem sempre temos a capacidade para as conseguir ouvir ou isola-las do mesmo. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Meio-termo

Por norma não é fácil de aceitar o meio-termo, essa linha cinzenta que se situa entre dois pólos opostos, se bem que, em boa parte da nossa vida, é nesse campo que permanecemos. Encontrarmo-nos nesse limbo é ter a consciência que não se está mal, mas ao mesmo tempo também não se está bem, contudo, tendemos a tecer considerações positivas quando pensamos que poderíamos estar na área negativa mas ao mesmo tempo desejaríamos atingir a área positiva e não o fazer não deixa ter um travo negativo. No fundo aquilo que temos é um misto, uma mistura de algo, nem quente nem fria, nem negra ou luminosa e há quem diga que isso se chama equilíbrio ainda que saiba sempre a algo desequilibrado. Viver nessa condição acaba em muitos casos por ser sinónimo da vida resignada, daquilo que é possível e está presente no nosso suspiro profundo. Viver no meio-termo é viver, mas com a sensação que se vive numa prisão ao invés de se viver em liberdade. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Diferenças entre homens e mulheres #25

As mulheres receiam ser usadas.

Os homens receiam fazer figura de parvos. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

...

Somos aquilo que somos, o que não somos e o que podemos ser, seja pelo lado negativo, seja pelo positivo, e aí, nessa interrogação, reside o futuro e todo o mistério. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os demasiado optimistas

Os demasiado optimistas irritam. Irritam porque para eles há sempre um caminho (que não são eles a ter de percorrer). Irritam porque para eles há sempre uma solução (mas não são eles que a têm de realizar). Irritam porque para eles nada é tão negro como pintamos (mas não são eles que estão na nossa pele). Os demasiado optimistas conseguem transformar o mau em bom, conseguem ver o fácil no difícil, têm uma frase ou provérbio sempre pronto para justificar que nem tudo é como dizemos. Não os censuro sempre, na verdade tentam de boa fé alegrar-nos, contudo alguns tornam-se demasiado aborrecidos, sabem que nem tudo é simples e custa-lhes aceitar que há coisas mesmo complicadas e, até, impossíveis de resolver, mas mantém essa postura um tanto ingénua e crédula de que alguma solução haverá. Na verdade, a maior parte dos demasiado optimistas vivem num mundo só deles, do qual não conseguem sair para perceber que nem tudo é como eles pensam, como eles vêem e não se consegue perceber se o fazem por pura ignorância ou simplesmente por pura negação da realidade.  

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

De cabeça fria

É de cabeça fria que se devem fazer e dizer as coisas. Estar de cabeça fria é estar com os nervos sob controlo cerrado, é colocar a razão acima do instinto delineando um plano que de outra forma seria improvisado. Escolhem-se os actos, seleccionam-se as palavras, tudo com um intuito, nada deixado ao acaso, porque o objectivo, seja ele qual for, é para ser conquistado e não há lugar a falhas, ao ponto de tal se tornar um tanto frio, calculado, algo falso até. Contudo, nem sempre se consegue atingir o estado de cabeça fria e muitas coisas para serem conseguidas necessita-se do seu oposto, seguir o instinto, deitar cá para fora o fogo que nos incendeia e queima a alma, reagir, seja de que modo for, contra aquilo que imediatamente surge. Poder-se-á dizer que muito se perde quando não se mantém a cabeça fria o que não deixa de ser verdadeiro, no entanto, reagir de modo oposto traduz-se em algo genuíno, em algo vivo e verdadeiro, quiçá inspirado que não pode ser repetido ou imitado, tudo porque não foi ensaiada, pensado, definido, é apenas a resposta voraz, brutal por vezes, mas que nada tem de fria ou calculista. Por fim parece-se que a razão dá-nos mais vitórias do que o instinto, mas as poucas obtidas por este último são de longe mais saborosas.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Constatação #82

Há coisas que só são perfeitas no nosso pensamento.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Do início e do fim

Existem coisas que não se sabe como começam da mesma forma que não se sabe quando acabam. Talvez por isso haja dificuldade em compreender certos aspectos da vida, nomeadamente quando durante o percurso paramos por momentos e damos connosco a pensar onde estamos, para onde vamos e como viemos ali parar. Esta tomada de consciência pode ser benéfica, mas acarreta problemas e sacrifícios, mais ainda quando envolve um universo maior do que o nosso, outros elementos em determinados graus, os quais raramente têm sobre o assunto em causa o mesmo entendimento que o nosso, aquele onde se percebe que algo começou ou acabou.