segunda-feira, 31 de março de 2014

Aquilo que ouves

Ouves heavy metal, punk hardcore, grunge, trash metal, industrial, stone rock ou nu-metal e dizem que tens um problema. Isto porque quem ouve tais “barulhos” não pode ser bom, é projecto a psicopata e olham-te de lado, ainda mais nos tempos que correm, quando se pensava que tais sons estavam extintos, e pior, completamente fora de moda. Desse modo serás olhado de lado, em particular por aqueles que se dizem normais e que ouvem, como tal, a dita música normal, a música que passa na rádio, que é publicitada, na maior parte das vezes fabricada, a verdadeira música, que sabe a pastilha elástica, é totalmente sintética, não tem calorias porque não alimenta, tem apenas sabor sem substância e não esse barulho de loucos que tu ouves. Obviamente que gostos não se discutem, no entanto eu discuto a falta de gosto que alguns têm ao criticarem aquilo que desconhecem, na maior parte das vezes não por uma questão de gosto mas sim pelo facto de serem ocos por dentro e assim classificarem-te por algumas das coisas que ouves e não por quem és.

Por isso se quiserem singrar na vida social não oiçam nada disto, pelo menos em público, façam-no às escondidas, e perante certas pessoas afirmem que ouvem aquela música onde os intérpretes escandalizam as pessoas porque são bons(as) e bonitos(as), têm videoclips demasiado explícitos, porque vivem supostas novelas amorosas entre eles ou aparecem explicitamente na internet a ter sexo com os parceiros, porque isso sim, isso é que interessa, a música em si é apenas um aperitivo. 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Da maldade

Existem aqueles que são maus e aqueles que têm de ser maus. A maldade em si pode revestir muitas formas, ou nasce connosco ou é adquirida. Por vezes somos bons, mas as agruras da vida obrigam-nos a ser maus. Isto porque há sempre quem tente abusar de nós, quem nos tente enganar, quem se julgue mais esperto ou pura e simplesmente temos de ser maus para nossa própria defesa, porque de outra forma estamos a aniquilar-nos. Muitas vezes há quem não compreenda a razão de certas atitudes, o facto de as mesmas não coincidirem com aquilo que conhecem de nós. Talvez por isso ser mau é tantas vezes surpreendente, uma arma secreta que guardamos e só usamos em último caso. No entanto, depois, há sempre o receio que fica, aquela sensação de estarmos a ser quem não somos, algum remorso à mistura e o constrangimento que é libertarmos as chamas que nem sempre conhecemos na totalidade, as quais se misturam com o receio de não as conseguirmos controlar por inteiro e assim acabarmos por ser consumidos pelas mesmas. Ser mau não é fácil mas por vezes é necessário. Tememos a maldade dos outros, mas tememos mais ainda a nossa própria maldade; e odiamos sempre quem nos obrigue a revelar a mesma. Talvez por isso haja por vezes tanta atracção pelos anti-heróis, por aqueles, que contrariamente, se sentem constrangidos a revelar a bondade, porque a maldade é a base que os define e se confunda com aquilo que é a total liberdade individual. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

...

Existem formas que encontramos para desanuviar a cabeça. Alguma actividade ou acontecimento que nos coloque focados em algo que não a rotina diária e a sua panóplia de problemas irresolúveis ou por resolver. Depois desta “limpeza” seria de esperar encontrar soluções, começar de novo, olhar para as coisas de outra forma e assim ganhar forças para retomar o caminho. Mas nem sempre isso acontece. Por vezes o que escolhemos para desanuviar mais não é que um abre parênteses, intervalo durante o qual parecemos e sentimos outra pessoa, sem os problemas ou ansiedades que nos martirizam. Depois é como acordar, sair do sonho e voltar à realidade, a qual, pode não ser um total pesadelo, mas é suficientemente pesada para, em certos dias, nos dificultar a respiração. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

...

Quando se acabam as relações as pessoas mudam. Mudam porque têm naturalmente de mudar, alteram os hábitos, sentem-se perdidas, enterram umas coisas, tentam desenterrar outras que haviam ficado esquecidas ou suspensas. Da mesma forma mudam os relacionamentos que estavam à volta e os outrora amigos passam à categoria de meros conhecidos ou até inimigos. Depois procura-se reencontrar o ponto onde se estava antes, se tal for possível, ou então buscam-se outros mundos, outros roteiros, tentando reescrever-se a continuação após o hiato. Dificilmente se consegue apagar o que se viveu, porque tal, de um modo ou outro, acaba sempre por ter repercussões no que se é e no caminho que se vai seguir. E ninguém sai ileso, porque se assim sair é porque nunca se chegou a estar, e olha-se para a frente mas com olhos diferentes, porque se é alguém diferente, alguém com mais experiência, com outros problemas existenciais, alguém que pode voltar a repetir erros mas vestindo uma outra capa, um outro rosto, outro modo de pensar as coisas. Talvez por isso há um ponto, no imediato, em que a dúvida persiste, o vazio é aquilo que se encontra e atitude pode ser totalmente inesperada. Um ponto onde aquilo que se é difere do que se foi e lidar com essa nova conjunção de variáveis é talvez a parte mais difícil de se viver a seguir a uma relação.  

quarta-feira, 12 de março de 2014

Os que não valem nada

Existem sempre aqueles sobre os quais sabemos, por convivência ou pura intuição, que não valem nada. Pessoas que podem até surpreender os ingénuos, podem enganar ao início os mais precavidos, mas que mais ou tarde ou mais cedo sempre se revelam. Depois há quem, ainda assim, prefira fechar os olhos e pensar que as mesmas pessoas estão só num mau momento, que não são assim tão más, preferindo manter os olhos fechados e dar tempo ao tempo. Normalmente quem os topa e disso faz discurso ofende-os porque é a queda do mito, o cair da máscara e claro, esses nunca têm espelhos, muito menos bom senso ou sentido crítico. Olham-se e vêem-se sempre num mundo de fantasia, num local onde eles e só eles têm razão, são os injustiçados e as suas acções justificam sempre os fins. Dir-se-ia igualmente que são de facto problemas clínicos, esquizofrénicos, doentes mentais, mas isso até podia ser uma desculpa plausível se os mesmos aceitassem que nada são e ponto máximo da existência é fazer a vida negra aos outros, seja por inveja, por complexo de inferioridade ou pura estupidez. Perguntando a alguém há sempre que conheça um ou outro caso, mas o mais curioso é que há um local onde se concentra extraordinariamente este número de pessoas, e todos o sabem, embora poucos ou nenhuns tenham coragem de lhes dizer tal na cara, isto porque quem não vale nada gosta sempre de se esconder no local onde mais é mais difícil que os atinjam, ainda que muitos outros apenas rastejem por entre nós no escuro.   

terça-feira, 11 de março de 2014

...


Existe sempre aquilo que não perde o sentido, é sempre actual, vivo, sem prazo de validade e de que nos deparamos com tal achamos que é original, ainda que à primeira vista soe a algo com que já nos deparamos no passado. Estas coisas parecem soar sempre a novo, mas de facto são apenas versões daquilo que já existe, que sempre existiu, vestidas com outras roupagens, ditas de outra forma, parecendo uma novidade que não é. Nós conhece-mo-las, mas nunca nos lembramos das mesmas, porque sempre as esquecemos, por não as conseguirmos assimilar, entender, toma-las como nossas e assim basta uns pequenos toques para olharmos para tal como uma grande descoberta. No fundo somos nós que perdemos o sentido, o prazo de validade e a originalidade e talvez por isso buscamos sempre algo novo, mas aquilo com que sempre nos deparamos é com um universo que é infinito mas ao nosso nível limitado e assim pensamos e fazemos aquilo que sempre fizemos, tentando daí inventar algo de novo, mas cuja raiz é, e sempre será, a mesma.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Constatação #83

Somos mais do que aquilo que parecemos e menos do que aquilo que aparentamos. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Por dizer

As palavras que ficam por dizer são sempre muitas, demasiadas, ressoando no nosso interior, parte do arrependimento, a casca do remorso. Ficam escondidas dentro de nós, ou porque nos falta a coragem, ou porque não temos ocasião de as proferir, ou porque nos esquecemos das mesmas. No entanto lembramo-nos sempre das palavras que ficam por dizer, porque as mesmas são ditas mas fora do contexto, fora do momento, dentro do pensamento, no mais profundo silêncio. As palavras que ficam por dizer são nossas e só nossas, são aquilo que desperdiçamos, o que temos de melhor mas que não sabemos usar, a inspiração do momento que se cala para se transformar nessa dor de alma que temos de aprender a suportar, esperando, esperando sempre evitar outro desfecho igual, porque as palavras servem para se dizer, servem para sair de dentro de nós, dado que soar é a sua vida e prende-las é mata-las, ao mesmo tempo que aprisiona-las é igualmente agrilhoar-nos no mordimento eterno.