quarta-feira, 30 de julho de 2014

Falta de paciência

Há dias em que não temos o mais pequeno pingo de paciência. Dias onde o impropério vive agarrada à língua, o palavrão torna-se um monstro indomável manifestando-se não só no aspecto como também em toda a sua profundidade. Depois são pequenas coisas, coisinhas, daquelas que por norma não ligamos mas que atingem agora dimensões continentais. São as pessoas, as pessoazinhas, que sempre disseram as suas parvoíces, parvoicezinhas, que nos soam aos ouvidos como badaladas de um sino. São as atitudes, atitudezinhas, que nos fazem espumar da boca. Por norma a paciência cega-nos, faz-nos tolerar, não ver ainda que vendo, esquecer, superar, não ligar, não dar a mínima. Mas a falta de paciência deixa-nos em alerta, em alerta demais, reparamos em tudo, o mundo torna-se maior, com mais pormenores, mais escuro, mais estúpido, as pessoas tornam-se uma massa disforme encarnando apenas a merda que fazem, a merda que dizem e como tal, torna-se em grandes pedaços de merda que nos repugnam. Talvez seja preciso falta de paciência de vez em quando para vermos mais além, para percebermos os nossos limites na medida que os mesmos, nesse momento, foram ultrapassados e, na maior parte das vezes, não porque desejaríamos ultrapassa-los, mas sim, porque nos obrigaram a ultrapassa-los. É nesse momento que percebemos igualmente o quanto as pessoas conseguem ser chatas, despropositadas, mal-educadas, invejosas, mesquinhas, manhosas, arrogantes, no fundo, é nesse momento que percebemos o lado negativo de muitos que por aí circulam ou sempre soubemos do mesmo mas agora sentimo-lo na pele a abrir em nós uma ferida. Mas da mesma forma sabemos que é apenas uma tempestade, um fenómeno muitas vezes súbito, um instante, que se inicia e tem um final. Resta depois ver quais foram as consequências e qual a quantidade destroços, os quais, na maior parte, somos nos próprios.  

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os novos candidatos à CPLP


Depois de se ter permitido a entrada da Guiné Equatorial na CPLP abriu-se a possibilidade tão esperada de outros líderes mundiais poderem também pertencer a esta grande família e assim conseguirem ter, entre outras coisas, uma voz mais proeminente junto das instâncias internacionais. Assim sendo, já que o factor língua portuguesa é uma mera futilidade, queria dizer formalidade, muitos outros candidatos entraram para lista de espera, para, também eles, terem direito a entrar na referida comunidade. Isto porque é sempre bonito dizer que se tem amigos, que se pertence a um grupo, tanto mais que dessa forma se criam bases por onde se pode fugir, guardar dinheiro ou tão só fazer negócios duvidosos usando intermediários legítimos que de outra forma não iam querer sujar as mãos. Depois como um amigo ajuda sempre um amigo, tendo o Presidente Angolano ajudado o BES de Angola é altura do Presidente Português ajudar o amigo canibal do Presidente Angolano com o qual ninguém quer brincar, ao qual congelam contas bancárias noutros países e por último vive a nadar em Petróleo, líquido esse conhecido por limpar a credibilidade de qualquer um. Desta forma, isto veio mostrar como esta comunidade pode ser apetecível e interessante, pelo que surgiram logo novos interessados dos quais destaco dois fortes candidatos que pelas suas características estão no topo das preferências:
- A Coreia do Norte – este Estado incompreendido, tido como pária mas que só tem gente de bem e onde, contrariamente ao que se diz, todo o povo vive muito bem, porque são todos iguais e austeros, tal como se revela nos seus líderes, gente de elevado carácter, sempre vestidos com uma roupa que lembra o burel das ordens mendicantes. – Kim Jon-un já colocou o seu ministério dos Negócios Estrangeiros a falar com a CPLP. Afinal de contas os portugueses até andaram por aqueles lados há uns quinhentos anos (não sei se chegaram tão longe mas isso não interessa nada) e dado que se conhece o potencial atómico desta república estalinista, isto pode ser uma mais valia para a Comunidade devido à sua ausência de tecnologia deste gabarito nos seus arsenais. Cavaco Silva (perito em geografia) já mandou uma missiva à Presidenta do Brasil, referindo que esteve na Coreia (do Sul) há pouco tempo e foi muito bem recebido, tendo gostado muito daquelas paragens, onde parece que há chá e arroz, tendo ficado somente na dúvida se haveria também bolo rei!
- O califado ISIS (ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante) – outro Estado incompreendido, que injustamente nem Estado é ainda porque não é reconhecido por ninguém, mas tal como a Coreia do Norte solicitou a entrada na CPLP como forma de se legitimar internacionalmente. Aqui a factor língua foi tido em conta, afinal de muitas das palavras usadas no português são de origem árabe. Para mais é sabido que em tempos que já lá vão boa parte do território português pertencia aos árabes e se não houvesse essa “invasão” de cristãos do norte hoje, certamente, toda a comunidade da CPLP falava árabe e era muçulmana. É pois altura de reformular a história e dar uma nova oportunidade a uma cultura que foi rechaçada dos seus domínios e impedida no passado de prosseguir os seus sonhos. – Abu Bakr al-Baghdadi, califa que gosta de relógios caríssimos, já se propôs trocar uns barris de petróleo por uma vivenda no Algarve (de modo a obter um visto gold e poder vir a Portugal comprar relógios na Avenida da Liberdade) e uma roça no sertão Brasileiro porque gosta de desertos e deve ser um local para começar a islamização na América, referindo ainda que de onde estes barris saíram, muitos mais podem sair.

Assim sendo a CPLP está desta forma em vias de crescimento acelerado, mas se calhar é altura de rever o que significa a sigla se calhar, com tantos e bons exemplos, é Comunidade de outra coisa qualquer!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Tragicomédia

Até podemos encontrar a paz. Mas somente por momentos, nos momentos em que nos obrigamos a esquecer, em que nos obrigam a esquecer, mas na verdade nunca esquecemos, apenas colocamos em pausa. Depois volta a correr a fita, volta tudo o que antes estava e ficamos novamente a pensar naquilo que não devemos pensar. E há tanto para pensar, tanto que nos desespera, tanto que nos oprime e machuca, um mundo inteiro feito e formado por nós e somente nós, lugar onde uma pequena parte é reservada para quem ajuda o indesejável e outra parte para quem assiste ao que não queremos mostrar. No fim temos esse palco montado, num teatro onde a máscara é só uma, mas mista, onde nos rimos daquilo que somos e daquilo que fazemos e outra onde choramos por aquilo que somos e por aquilo que fazemos. Esta é a dicotomia, este é o paradigma e a paz, essa, só encontrada fora do palco, nas mudanças de cena ou de acto, porque de resto, a peça em si, essa, é sempre a mesma.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Das expectativas #3

As expectativas mais não são do que aquilo que queremos, aquilo que desejamos e talvez por isso os resultados esperados saem tantas vezes gorados. É natural ter-se expectativas, por vezes é fácil, uma questão de ter ou não ter, de passar ou não passar, de obter ou perder. Contudo, noutros casos a expectativa faz-nos perder numa continuidade, isto é, ficamos a pensar como será e imediatamente já estamos a ver o futuro a médio e longo prazo, a imaginar a partir de uma faísca de pensamento tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse. Em suma, vivemos o sonho no pensamento por alguns momentos o que nos faz esperar mais de algo que não sabemos. Depois vem a realidade, definida, crua, fria e caímos, damos um tombo, ficamos desconsolados, apáticos, deprimidos até, simplesmente por nos deixamos ir, ludibriados que fomos somente por um mau cálculo, o qual nos deu alegria por segundos e tristeza por tempo longo e indefinido, e essa expectativa, a negativa, é por si só tão difícil de ter e observar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Da vergonha

Sempre houve quem tivesse vergonha e quem nunca a teve. Ao longo do tempo, de gerações e gerações e mesmo da própria vivência pessoal de cada um, há momentos em que perdemos a vergonha e da mesma forma existem outros em que ficamos cheios da mesma. Contudo há circunstâncias e atitudes que são passíveis de gerar mais vergonha do que outras, sem que tal tenha alguma relação com a personalidade de cada um. Isto porque há posturas sociais condenáveis, não de modo extremo, mas sim de um modo que muitos consideram deploráveis, pelo que poucos no seu perfeito juízo gostariam de se ver em tais situações. No entanto, parece-me, que nos tempos que correm a vergonha é moda ultrapassada, daí que muita gente goste de se mostrar em todo o seu esplendor (ou com falta dele) perante todos, afirmando assim uma pretensa superioridade, visto que se julgam a medida de todas as coisas criando uma visão do mundo onde os demais não entram nem têm opinião e onde eles são reis e deuses, pelo que a vergonha é coisa para gente pobre, fraca de espírito e a arrogância com que a exibem, a falta de modéstia que exprimem, a vaidade que debitam é de tal ordem lastimosa que envergonha por vezes não eles, mas aqueles que estão à volta dos mesmos e não têm como escapar, nem como alterar a situação, porque ninguém consegue convencer alguém nesse âmbito que o universo é algo muito maior onde os planetas não giram à sua volta.    

segunda-feira, 7 de julho de 2014

...

É verdade que devíamos entender o fim como princípio, como o início de algo, o fechar de porta de algo, uma continuidade feita de degraus e etapas, as quais servem somente para serem ultrapassadas e não são a síntese final que buscamos. O grande problema é que não é fácil aceitar o fim, a mudança, o bater na parede quando se imagina que se tinha chegado. Ao invés sentimo-nos muitas vezes presos num cubo para o qual saltamos, a pensar que ali encontraríamos algo, que não sabíamos bem o quê, mas algo de positivo, de definido, algo que pudesse ser um caminho, um motivo, uma razão, em suma, uma esperança. Mas não. Encontramos antes um beco sem saída, a densidade de um tudo demasiado pesado ou o vazio gritante que nos asfixia e ali ficamos, sem saber o que fazer, sem conseguirmos ultrapassar a distância para outro lado qualquer, não entendendo algo como um fim para se tentar descobrir esse novo principio, esse novo capítulo cuja passagem devia ser natural. No fundo acabamos por sentirmo-nos cansados, desalentados, sem forças para repetir, para descobrir aquilo que há muito julgávamos ter descoberto e nunca chegamos a escavar. Mas pior que isso tudo é o facto de persistirmos por vezes nesse mesmo lugar, à procura daquilo que sabemos que não vamos conseguir encontrar, iludidos pela ilusão forçada que impomos a nós próprios, por falta de forças para tentar algo de novo, por faltar o fogo por lutar e prosseguir, por ser muito difícil de vencer o desconhecido, ainda mais quando não conseguimos admitir que há muito estávamos vencidos.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Produção vs Reprodução

Diz-se que os nórdicos são produtivos e da mesma forma diz-se que os dos trópicos são reprodutivos. A meio caminho ficam os temperados dos quais se diz que nem produzem nem se reproduzem. No entanto parece-se mais, que independentemente da latitude, os que produzem não se reproduzem e os que não produzem reproduzem-se!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os outros

Usamos os outros como desculpa para o que fazemos e para o que não fazemos, mas muito raramente o admitimos ou temos consciência disso. O mais curioso é que muitas vezes os outros nem sabem que são a desculpa, nem sabem que são parte da equação que nos move ou nos deixa imóveis. Tudo porque não lhes dizemos na maior parte das vezes aquilo que nos vai na alma, isto porque tendemos a pensar que se o fizéssemos estaríamos a dar-lhes e entender a importância ou a falta dela na nossa vida, graduação que é sempre variável e nem sempre temos ideia correcta da mesma. Independentemente de querermos ou não querermos, do que fazemos ou não fazemos, certo é que os outros terão sempre um impacto, maior, moderado, pequeno, mas têm um impacto, mas, por orgulho ou pura ignorância nem sempre queremos ou sabemos o quanto os outros nos influenciam, seja nas pequenas ou grandes decisões. Contudo se isso acontece connosco, muito mais acontecerá com os outros, os quais podem pensar que nos influenciam muito, sem terem grande impacto em nós, ou quando não pensam ou imaginam o quanto nos afectam nas nossas decisões.