segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Ser e parecer

Em Portugal parecer é ser. Há um medo, um receio, uma vergonha ou somente uma ponta de idiotice, senão idiotice de todo, em crer que parecer é ser. Muitas coisas são feitas, resolvidas, decididas, com base naquilo que alguns pensam que pode parecer. Assim há muito que não é feito, ou é mal resolvido por trauma, porque se pondera que pode parecer mal, que não se deve dizer, fazer, mostrar, a quem de direito aquilo que é de direito. Não que o destinatário se vá ofender, mas há partida teme-se que isso aconteça, e quem diz destinatário pode referir destinatários, porque tanto há que é feito, que não é feito ou é mal feito à conta do “pode parecer mal”. Mas parecerá mal porquê? Porque é mal formulado, porque não é bem feito, porque é algo sem pés nem cabeça? Não! Parece mal porque em algumas mentes luminosas pode parecer mal e pronto. E a razão para que tal suceda? Simples. Há muita gente que decide, para não dizer que manda, que vive na mundo primitivo da paz podre, do culambismo perpétuo, onde tudo o que é inovação ou puro senso comum é algo a evitar, para que se mantenham aparências e porque pode parecer mal, e o que parece é, nas suas cabeças. Mas na verdade aquilo que parece e é de facto é a imbecilidade que está patente naqueles que chefiam, mas isso ninguém aponta ou profere, porque poderia parecer muito mal, mas saberia tão bem a quem prefere ser ao invés de parecer. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

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Aquilo que queremos hoje não é o que queríamos ontem e possivelmente diferirá do que vamos querer amanhã. Poder-se-ia dizer que tal como aquilo que queremos também nós mudamos. No entanto esta mudança é mais caprichosa, que se é que ocorre mesmo. O que acontece talvez seja uma alteração no que somos, não na profundidade mas à superfície, o que, por si só, já nos causa enormes dores de cabeça. Tal reflecte-se muita vezes no que queremos, no modo como encaramos a vida, nos nossos objectivos, na falta deles, no modo como lidamos com tudo. E pelo meio ficam as dores de crescimento, onde o antigo se debate com o moderno à vista de um futuro que espreita sem no entanto desvendar o véu. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Da boa vontade

A boa vontade tem limites, mas há situações em que a mesma é posta em causa, em que apetece abandona-la e adoptar outra postura. Nomeadamente quando a boa vontade oferecida serve apenas para colmatar as falhas dos outros, a boa vida dos outros, o parecer bem dos outros. Nestes casos e noutros repensa-se, sendo que se começa a mostrar má vontade. Não se pense que quando se tem boa vontade se espere alguma contrapartida, não se espera, dá-se e pronto, mas quando os outros servem-se continuamente da mesma, abusam, não há volta a dar. Do dia para noite muda-se, alteram-se os vértices, mudam-se os trópicos e se ontem existia boa vontade, hoje a mesma deixou de existir e amanhã logo se verá. Posto isto creio que a boa vontade apenas dura se aqueles que dela beneficiem a souberem preservar e sobretudo respeitar, de outra forma dificilmente a voltam a ver.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Escapar

Há um ponto em que estamos cansados. Fartos. Tudo nos complica. Os outros, nós próprios, as coisas, coisa nenhuma, tudo e mais alguma coisa. E a solução, a vontade? É fugir, sair, ir, sem destino, mudar de roupagem, metamorfosear-nos noutra coisa qualquer, viver outra vida que não a nossa, ser tudo menos aquilo que somos, estar em todo lado e em sítio nenhum ao mesmo tempo. Essa é para nós, nesses momentos, a única cura possível, aquela que nos tornaria de novo felizes, fazer o reset como de um jogo se tratasse e voltar ao início, ir para outro cenário, assim, tão só.  Mas sabemos, temos consciência, que tal é impossível, mas igualmente se o sentimos é porque a nossa vida num dado momento se tornou igualmente impossível e ansiamos por respirar novamente de tão afogados que estamos na mesma e nos seus problemas, que são os nossos problemas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Constatação #91

Se te acusam de seres desonesto e de seguida provas o contrário, imediatamente chamam-te então de parvo!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Algumas coisas podemos mudar, outras não. Contudo quando queremos mudar algo queremos mudar normalmente aquilo que nos incomoda, que acaba em muitos casos por ser mais complexo, complicado e impossível de mudar. Aquilo que queremos mudar tantas vezes é a nossa própria essência, porque pensamos que a mesma não é suficiente para obtermos o que queremos, em vez de trazer vantagens trás desvantagens, em vez de nos auxiliar complica-nos a vida. Por isso, por mais voltas que possamos dar, por mais aprimoramentos que possamos tentar fazer, acabamos por ser sempre aquilo que somos, aquilo que sempre fomos e provavelmente seremos. Resta pois tentar tirar o melhor partido, usar as vantagens, se as mesmas existirem, e esquecer as desvantagens. O problema centra-se no entanto quando a nossa própria essência não permite sequer tirar partido dela própria, seja a que dimensão for, o que nos desilude e abate, fazendo-nos pensar como o podemos ultrapassar, o que faz com que voltemos à tentação de mudar aquilo que não pode ser mudado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Mostrar o jogo

Ninguém gosta de mostrar o jogo todo. As razões para isso são óbvias, mostrar o jogo significa colocar-mo-nos numa posição de desvantagem, onde toda a nossa fragilidade fica à mostra, na dependência de quem vê e que pode fazer uso disso a seu belo prazer. Por isso somos tão resistentes a mostrar o jogo, podemos mostrar muita coisa, mas há muito mais que não mostramos, por outro lado, escondemos a sete chaves de tudo e de todos o resto, ao ponto de quando é preciso mostrar um bocadinho, como gesto de boa vontade, nem sempre temos coragem para tal ou o sabemos fazer e com isso muito se perde igualmente. Talvez por isso seja difícil jogar, muito mais perceber jogadas ou entender as mesmas para se conseguir antecipar qual vai ser o nosso próximo passo, o qual, na maior parte das vezes, traduz-se em coisa nenhuma, num silêncio de gelo, na imobilização total, o que mais tarde acaba por se traduzir num arrependimento atroz.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dito e feito

Sim, é verdade, há coisas que já devíamos ter feito, ou fazer, dito ou dizer, mas não o fizemos e dificilmente teremos outra oportunidade para o poder fazer. Sim, é verdade, que quando se tem para dizer deve-se dize-lo, mas nem sempre se sabe como, com que palavras, em que contexto, quando, onde e as razões para o fazer não são sólidas, são antes um emaranhado de tudo e de nada, apenas um instinto do qual a razão desconfia e desse conflito nasce o silêncio ou então pior, diz-se algo apenas para se perder toda e qualquer hipótese de se voltar a abrir a boca. Sim, é verdade, que se devia fazer, antes mesmo de pensar, fazer e pronto, porque no meio-termo fica-se a pensar e o pensamento congela, altera, retira a verdade, impede o improviso, e, ou não se faz nada ou faz-se tudo ao contrário, de modo forçado, calculado mas baseado na matemática errada, naquela que é fria e incómoda, realista e insonsa, falhando o objectivo, não por erro, mas sim por estar fora de contexto. Sim, é verdade, tanto que se podia ter dito e feito, feito e dito, mas tanto mais que nunca foi feito e dito, dito e feito, e tanto mais que foi dito mas não com as palavras certas, e tanto que foi feito mas sem o gesto correcto. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Constatação #90

O brilho de uns é directamente proporcional à escuridão de outros!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Da raiva

A pior raiva não é a que sentimos pelos outros. A pior raiva é aquela que sentimos por nós próprios, espelho dos nossos actos, dos nossos defeitos, da nossa incompetência para conseguirmos, para ultrapassarmos, para vencermos, para nos defendermos e superarmo-nos. Essa é a pior raiva e lutar contra a mesma é difícil, é complicado, podemos nos auto-flagelar, partir os dedos enquanto esmurramos as paredes, fazer correr sangue, suor e lágrimas, porque a isso ela nos leva, ou então pior, podemos ficar num canto escuro durante um bom tempo, a lamentarmos a nossa falta de sorte, sentindo nos ombros o peso do mundo que no fim é nosso próprio peso multiplicado por mil. A pior raiva é essa, que leva a que lutemos contra nós, contra a vontade de desistirmos de nós, contra o abandono da nossa alegria, da nossa confiança, de tudo aquilo que são as nossas bases, as quais sentimos como algo podre, que ruiu ou vai ruir e contra qual não podemos fazer nada, quando queremos fazer, quando queremos à viva força encontrar um caminho, uma solução, um escape, fazer reset, mas por mais voltas que damos voltamos sempre ao mesmo ponto de partida, sendo que a única coisa que nos resta é esperar que o tempo passe para lavar esse sentimento, tempo esse que não queremos ter de esperar e por tal impotência sentimos raiva.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Constatação #89

A humanidade não me pára de surpreender, mais pela negativa do que pela positiva. Curioso no entanto é o facto de nesta altura eu ainda conseguir ficar surpreendido com algo que já não me deveria surpreender.  

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

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A dada altura já não sabemos o que pensar, o que fazer, não sabemos o que queremos, mas também nunca o soubemos ao certo. Podemos ter uma pequena esperança por algo, mas é uma esperança desconfiada, mais um escape para terras de fantasia que outra coisa. No horizonte queremos vislumbrar apenas o que é simples, a paz e a tranquilidade, mas no fundo queremos mais, ainda que sentindo que tal é impossível, que não vai vir, que é uma falácia que projectamos para manter esse equilíbrio precário que é a nossa vida.