terça-feira, 28 de outubro de 2014

Querer e sentir

Não basta querer. É preciso sentir. Sentir que se quer. Por vezes queremos mas falta o substrato, a base. Outras no entanto sentimos, sabemos que sentimos mas não temos oportunidade para nos expressarmos, por um motivo qualquer, e assim se fica com a sensação que morre no nosso interior. E deste desfasamento nasce a frustração, nasce a sensação de perda, porque não se está a aproveitar tudo, mas sim apenas uma parte, ou a forçar aquilo que deve ser natural e espontâneo. E tanto que se quer por vezes, quer-se sentir, quer-se apenas, faz-se força, esforçamo-nos, tenta-se ir mais além, mas falta algo, aquela faísca que não se sabe descrever, aquela combinação cósmica, onde os astros se alinham e quando tal ocorre sentimos, depois executamos e parece inato, quase sem esforço, suave e profundo como um suspiro, sendo que tal se torna a memória que sempre queremos repetir, ainda que da sua repetição não dependa a nossa vontade, antes, a nossa predisposição. Mas quando há apenas esforço, vontade obrigada, nada se obtém, a não ser o desencanto, o desapontamento, aquilo que não queríamos sentir.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Das mudanças #2

Há muitas coisas que mudam as pessoas no entanto o poder e a riqueza parecem ter lugares cimeiros no que toca a mudar pela negativa. Mas depois ficamos a pensar se quem muda por esses motivos mudou mesmo, se já não seria antes mau carácter, sacana, filho da mãe, apenas uma crisálida da qual não brota uma borboleta mas sim uma traça, se as suas atitudes, opiniões que se julgavam inofensivas não carregariam todo um substrato que regado daria origem a algo espinhoso e retorcido. Por vezes parece-me que não são as pessoas que mudam, antes nós é que não temos capacidade de as ver como um todo, de as ler na sua essência, de saber à priori que até podem ter qualidades mas terão ainda mais defeitos. Podemo-nos defender que alguns são dissimulados, falsos e enganadores, que bastou uma mudança de estatuto, por vezes até de forma totalmente inusitada, para que os mesmos mudassem. A surpresa pode ser grande, mas a pergunta que fica mantém-se, forem eles que mudaram ou seremos nós que não vemos?  

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Constatação #93

Não encontrar provoca tristeza.

Mas não conseguir provoca angústia.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

...

Provavelmente podemos passar a vida inteira sem sabermos quais são os nossos limites, as nossas capacidades, as nossas maiores virtudes ou os piores defeitos. Isto porque paramos pouco tempo a pensar nisso, porque aquilo que hoje temos como certo amanhã será incerto e, ou, esquecido. Ainda assim vivemos a ponderar o que somos capazes de fazer, tendo como base o que já fizemos e se o conseguimos repetir, igualar e mesmo superar, assim como aquilo que nunca fizemos e se o seríamos capazes de fazer. Essa é apenas uma ideia mais do que uma coisa concreta e certamente tantas vezes matutada por nós próprios, no entanto, tal como em tudo, uma ideia pode parecer não ter substância mas é mais que suficiente para nos alterar, para nos guiar por um determinado caminho, estando presente tanto nas grandes como nas pequenas decisões. No fundo aquilo que somos e o que somos capazes será em boa parte essa ideia e mais do que um acto concreto, será tantas vezes apenas um acto com o qual se ameaça.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Diferenças entre homens e mulheres #28

As mulheres enviam sinais, mas os homens ou não os conseguem ver ou não os percebem.
Já para os homens a dificuldade é não enviar sinais, se as mulheres os percebem ou não, isso não interessa para nada!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Daquelas coisas #24

A minha vontade de trabalhar é inversamente proporcional à quantidade de chuva que possa cair.

Agora falta arranjar a desculpa para os dias de Sol…

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dizer tudo

Eu poderia dizer tudo, ao invés, na maioria das vezes, não digo nada ou digo o que não devo, o que nem sempre bate certo com aquilo que queria dizer. O improviso não é minha praia, poderá ser por vezes, mas não as suficientes para estar seguro. Na maior parte das vezes o improviso que bate certo é algo inesperado e por isso não se pode contar com tal. É antes uma singularidade do universo, algo único e raro, a que nos apegamos registando-o na memória e lembrando-o numerosas vezes, como esperança para uma inspiração que raramente se consegue duplicar. A forma para tal a volta a isso seria dizer tudo, tudo mas mesmo tudo. O correcto, o incorrecto, o que interessa e o que não interessa, criar-se uma verborreia permanente para de tanto se poder assim aumentar as probabilidades de colher o pouco que fosse. Contudo, acontece que dizer tudo tem consequências, para nós, para os outros e muito teria de ser dito até que se atingisse o objectivo de aprimorar a nossa lírica, a nossa retórica, os nossos argumentos. O problema é que dizer tudo parece ser fácil, difícil no entanto é conseguir faze-lo e antes de mais, mas para tudo, ter algo o que dizer.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

...

Desejamos que os outros nos percebam. Como queríamos ter a capacidade de saber o que pensam os outros e por vezes como gostaríamos que os outros soubessem o que pensamos sem que para tal o tenhamos de dizer. Preferimos tantas vezes o sinal mudo, o gesto escondido, à mostra integral, à exposição daquilo que gostaríamos que fosse percebido. E se os outros o transmitem pelo mesmo canal e não percebemos nós? Como fazer para traduzir, para interpretar todo esse jogo de sinais? Como decifrar um código encriptado e como fornecer aos outros pelo menos uma parte da chave do nosso? E como fazer tudo isso de modo natural, sem que hajam grandes tumultos, sem ser uma revolução ou uma tragédia bruto-cómica? Mas depois, para piorar tudo isso e baralhar mais um pouco, como fazer para não se estar sempre a pensar em tal, a teorizar e a complexificar algo que devia ser simples e sereno, porque no dia em que tal aconteça ou conseguimos o que queremos ou estaremos mortos sem nunca ter conseguido. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Inspirações

Há coisas que nos inspiram e outras que nos fazem perder a inspiração. Por vezes sentimo-nos inspirados mas não sabemos dar-lhe “corda”, usa-la, aproveita-la, tirar da mesma todo o partido e substância possível, espreme-la até mais não e então perdemo-la para ficamos apenas numa memória perdida no meio de tantas outras, ou então nem isso. Depois ponderamos o que poderíamos ter feito, conseguido, conquistado até, mas a dúvida fica, misturada com um suspiro, porque nem sempre sabemos a razão pela qual não aproveitamos tanta coisa quando o momento se dá, talvez por inépcia, desleixo, falta de atenção ou pura burrice. Entretanto há os momentos inspirados, quase divinos, em que metemos mãos-à-obra e fazemos acontecer, ou assim pensamos, mas, quando estamos no meio do processo, de sorriso nos lábios e quase a sentirmo-nos completos eis que salta à nossa frente uma desilusão qualquer, que nos bate como um murro no estômago, deixando-nos sem oxigénio, sem capacidade para fazer o que quer que seja, gela-nos, oprime-nos, torna-nos apáticos e tudo o que estávamos a fazer antes é imediatamente esquecido, posto de lado, tornando-se irrecuperável e sem razão de ser. No final de tudo parece-me que dói mais quebrarem-nos a inspiração do que sermos nós a perde-la.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Constatação #92

Se antigamente em certos aspectos havia vergonha a mais, agora há vergonha a menos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Agridoce

Podemos acordar e esperar pelo melhor, fazer força na nossa mente, no nosso interior para que tal suceda. Mas à partida sabemos que o que vamos ter é normal e o normal é apenas a rotina, aquilo que conhecemos, sem alterações ou mudanças de maior. Pode haver uma coisinha ou outra que seja diferente, mas, tal como o nome indica, são apenas “coisinhas”, nada de relevante, nada de maior. As alterações que podemos esperar, são aquelas que tememos, as negativas, aquelas coisas que nos complicam a vida, que alteram os nossos planos, e não no plano positivo, pelo contrário, coisas que preferíamos evitar a todo o custo, mas das quais tantas vezes não conseguimos fugir, tanto mais que não as pedimos e elas sempre espreitam. Quanto àquilo que esperamos de positivo, isso por vezes não esperamos mais, sonhamos apenas com tal, porque a realidade oferece apenas isso mesmo, o que é real, o que por si só não é negativo, mas também não deixa de ter um certo sabor agridoce.