terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Do sucesso

O sucesso, assim como tantas outras coisas, é relativo. Muita gente há que é capaz, trabalhadora, extremamente inteligente, competente, mas acima de tudo, única. No entanto, só alguns, um punhado deles, ultrapassa a barreira que faz a separação entre ser mais um e ser mais do que qualquer outro, o que se traduz no limite, num quase endeusamento, numa mitificação e sobretudo num lugar na história e consequente imortalidade por essa via. Contudo, nem todos os sucessos são positivos, quiçá, a maior parte serão negativos, construídos à força, pela força, com logro ou batota. Mas no campo do positivo seria natural, na verdade justo, que quem mais trabalhasse, quem fosse mais inteligente, quem mais batalhasse ou tivesse melhor âmago interno, atingisse, nem que apenas para si mesmo, o sucesso, sendo que tal não acontece. Acontece sim, a quem tem todas estas características, ou até menos, mas num qualquer momento tem sorte, um rasgo de génio, um momento de epifania, milésimos de segundos, segundos, minutos, em que uma qualquer acontecimento, ideia, sonho, atitude, provocam a diferença entre continuar a ser mais um e ser mais do que os outros, interferindo para sempre nas dinâmicas e na conjectura de todos os aspectos da realidade humana. Depois, a forma como lidam com esse sucesso, se o desejavam ou não, é outro assunto. O certo é que nem sempre, aquilo pelo que se batalha e batalha-se a sério, sem descanso vem a tornar-se realidade, enquanto para outros é fácil, tão fácil e natural como respirar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A melhor frase que ouvi nos últimos dias

"A política é como a merda, seja qual for a cor, o cheiro, esse, é sempre o mesmo!"

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Fases

Existem fases em que podemos tudo. Estamos cheios de nós mesmos, o passado é esquecido e somente o que conta é o futuro, e este é aberto a todas as possibilidades, todas claro positivas e luminosas. Não existem dúvidas, não existem preocupações, há tempo, há vontade, há a ideia de capacidade para isto e aquilo, sendo que a sensação predominante foi apenas de acordar, do despertar para um mundo de opções infinitas, opções que nos fazem sorrir e só o facto de poderem ser exequíveis é mais que suficiente para que nos possamos sentir felizes.

Contudo, tudo isto seria perfeito se fosse duradouro, se a vida fosse sempre idílica, se a força que sentimos quando podemos tudo se mantivesse, estável, resoluta, vigilante e não se perdesse, não se deixasse de sentir, para que com ela pudéssemos ultrapassar todos os obstáculos negativos que sempre aparecem, que entortam o nosso caminho, ofuscam a nossa felicidade, os nossos objectivos mais luminosos e no fim, suporta-se o peso do mundo que não perde tempo a tentar esmagar-nos.
E esperança, essa, acaba por residir naquilo que esperamos que volte, que retorne a nós, a sensação de podermos tudo, se sermos tudo, para que dessa vez possamos aprisiona-la, não a deixar escapar, não a esquecer, mantê-la acesa o máximo de tempo dentro de nós.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Nós, os tugas

O Português, vulgo tuga, está mentalizado que todos andam a engana-lo, em particular os outros tugas como ele. Seja em que campo for, profissional, institucional, corporativo ou social, boa parte da ideia que o tuga tem é que essa é uma guerra perdida, queira que não queira será sempre enganado. A existência de tudo e todos resume-se a isso mesmo, tentar trapacear, seja nas pequenas ou nas grandes coisas, seja no campo legal ou ilegal, pela frente, mas de forma mais comum pelas costas, aproveitando-se da ignorância ou da distracção, tudo se resume ao mais puro e vil engano. E o que faz o tuga em relação a isso, para além de já estar mentalizado com essa ideia? Faz igual! Se ele acha que os que estão acima dele o enganam, então faz o mesmo aos que estão abaixo dele. Se os outros se aproveitam dele, ele aproveita-se daqueles que consegue, isto tudo numa espiral sem fim, do grande para o pequeno, de cima para baixo e de baixo para cima. E basicamente a vida do tuga resume-se a isso, a ser enganado e a enganar. Agora se é mesmo verdade que o enganam, isso são outros quinhentos, talvez não o enganem tanto quanto ele pensa, e quiçá até o enganaram menos do que aquilo que ele engana, no entanto é também bem provável que o enganem ainda mais do que ele julga e por muitos que ele engane não chegará nem sequer aos calcanhares dos outros. Depois, quando alguém de facto não o engana, desconfia, desconfia como sempre desconfiaria, mas desconfia de forma diferente, porque é praticamente impossível que tal aconteça, porque quebra-se a regra de ouro, mas acima de tudo a justificação para o facto de ele enganar, sendo que a conclusão será apenas uma, se não o tentam enganar é porque são parvos, porque o que vale é ser-se esperto, de preferência chico-esperto e até parece mal não o ser. Resumo disto tudo, enquanto o tuga fizer aos outros aquilo que julga que lhe fazem a ele, nunca o mal será cortado pela raiz, nunca o ciclo será quebrado e como tal mantém-se o paradigma sem nunca chegar a ter fim.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Do que se perde

Se há coisa uma coisa quase certa neste mundo é que um transporte público nunca sai adiantado. Quando muito sai a horas, ou uns minutos depois, ou até mais. Talvez por isso nós chegamos à estação, ou à paragem, momentos antes, porque se chegarmos depois, podemos ter sorte, mas o normal é termos azar e o dito já partiu. Depois há quem recorrentemente chegue em cima da hora, no limite, sujeitando-se a falhar o horário por uma questão de minutos, ou até segundos, sendo que a seguir não há volta a dar a não ser aguardar pelo próximo, isto se houver um próximo. Assim é a vida no que toca a apanhar os transportes públicos, mas se pensarmos bem, é assim em tantas outras coisas. Quantas vezes chegamos tarde de mais, ainda que julgando que estávamos a chegar em cima da hora? Quantas vezes fomos optimistas ao ponto de achar que a sorte ia fazer que houvesse um atraso nesse dia, o suficiente para que conseguíssemos atingir o nosso objectivo? Por vezes falhamos e sabemos porque falhamos, mesmo quando não temos culpa, quando há um percalço que nos impede de chegar no tempo certo, quando a margem que estabelecemos é demasiado curta. E o certo é que as coisas partem, naquela hora, na hora que sabemos que partem e depois de partirem não as podemos mais alcançar, deixando-nos ali, parados, estáticos, desanimados e frustrados. Se algo virá entretanto, é possível que sim, mas nada é tão certo como aquilo que perdemos, porque disso, do que é passado, temos nós a certeza, do futuro ninguém sabe.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando...

Quando deixamos de acreditar deixamos de sentir. Passamos de intérpretes da nossa vida a meros espectadores da mesma, isto porque nos sentimos longe, longe do mundo, de nós próprios, de tudo aquilo que nos fazia sentir bem, do que nos dava prazer e ânimo para continuar. No fundo, sem sentir parecemos sombras, sentimo-nos vazios, sem rumo, apenas umas meras máquinas que se limitam a cumprir as suas tarefas básicas, aguardando que algo surja, algo que nos possa voltar a colocar na dianteira daquilo a que se chama vida. E esperar por isso, ficar sujeito ao que de externo nos possa conduzir a uma revolução interna, que nos possa acender e fazer explodir, é doloroso, tanto mais quanto mais tempo durar esse capítulo, da mesma forma que, pela condicionante temporal, mais agravado fica o nosso estado, até ao ponto de temermos deixar de ser, ou voltar a ser.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vencidos

É difícil darmo-nos por vencidos. Recusamo-lo quando tal é evidente. Não aceitamos essa figura de ânimo leve. E porquê? Porque por norma houve uma expectativa, demasiado alta talvez, que nos fez acreditar que poderíamos conseguir, ultrapassar, vencer. Lidar com isso faz parte da vida assim como tantas outras coisas, mas acabamos sempre por perder mais tempo a chorar pelo prato derramado do que em seguir em frente. Isto porque muitas vezes fica-se na dúvida, se realmente perdemos, se realmente há uma hipótese de ainda ganhar, porque quando o objectivo é incerto e nebuloso é difícil seguir em frente, é complicado perceber em que patamar nos encontramos. Assim sendo a dificuldade maior não reside em ganhar ou perder, mas sim, em saber identificar os objectivos a que nos propomos, bem como a forma como lidamos com os mesmos. O problema no entanto, é que nem sempre escolhemos, por vezes acabamos nós por sermos escolhidos e nem sempre por aquilo que compreendemos ou estamos preparados para lidar. Talvez por isso, não seja fácil chegarmos a uma conclusão, como aquela em nos temos de conformar que, simplesmente, perdemos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ser rico

Muita gente há que gostava de ser rica. No entanto existem aqueles não só não gostavam de ser ricos, como querem ser ricos. Nada há contra quem queira ser rico, há quem trabalhe, poupe, procure ter novas ideias, inovar, estudar, etc, batalhar para conseguir de alguma for ter mais do que a maioria. Contudo, muitos mais existem que nada fazem por isso, ainda que queiram ser igualmente ricos. Como não o conseguem procuram então parecer, ao invés de o ser realmente. Mudam os gestos, os preceitos, ganham preconceitos achando que assim se vão sentir mais ricos, tornando a riqueza, que é coisa material, num estado de espírito que os deforma, corrói e os transforma no mais reles excremento social, aqueles que nada têm mas que se acham superiores aos outros. Por isso exibem toda uma série de atitudes, todas, segundo os próprios, contrárias ao que um pobre supostamente faria. E no meio destas atitudes uma coloco em destaque, aquela em que eles se tornam apoiantes, senão mesmo sabujos, dos verdadeiros ricos, dos grandes barões, aqueles que na maior parte das vezes exploram os demais, inclusive, esses que tanto gostavam de ser como eles, mas só podia ser dessa forma, porque ao contrário seria coisa de pobre.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ao engano

Ao engano, tantas vezes andamos. Umas vezes sem o saber, mas talvez, em boa parte, com consciência disso mesmo. E ao constatar tal facto suspiramos e pouco fazemos para o alterar. Porquê? Talvez porque não vislumbramos forma de mudar esse paradigma, o qual se torna mais difícil de viver, porque sabemos. Por isso existe quem diga que prefere andar ao engano sem o saber, do que sabe-lo efectivamente. O conhecimento da situação poderia resolver muita coisa, poderia evitar o agravamento do mesmo ou levar à solução e a uma resposta, mas quando não se sabe o que fazer mesmo com o conhecimento efectivo, mantém-se tudo igual, com excepção do peso que se carrega, o qual se torna efectivamente mais pesado, muito mais pesado, porque uma coisa é andarmos ao engano sem o saber, outra é andarmos ao engano sabendo-o.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Alturas há, em que tudo o que queremos, é que o tempo passe. Não o tempo todo, só uma parte do tempo, aquele momento que nos aflige, quando não sabemos o que fazer, quando ainda não encontramos a solução, a resposta, a qual, sabemos, vamos vir um dia a encontrar ou pelo menos a esquecer, tal como o problema em si, o problema que nos deixa ansiosos e como tal, desejosos para que o tempo passe e chegue ao futuro, o mais rápido possível, para o momento em que o problema deixou de o ser, ou passou a ser apenas uma mera memória. Mas, por outro lado, pensamos, que quando queremos que o tempo passe, não o estamos a aproveitar, antes, estamos a desperdiça-lo, e pior, não porque queremos, mas porque foi assim que tudo se conjugou, para que nesse momento um problema surgisse, sendo que tudo acaba por girar à volta do mesmo, acabando o mesmo por, de um modo outro, comprometer o nosso aproveitamento do tempo, aumentando o desejo para que o mesmo passe rápido, como se quiséssemos fugir para o futuro, para um lugar onde julgamos saber que o mesmo já não existe. Talvez a vida assim seja, em que o tempo apenas é bom quando nada há que o perturbe, sobretudo, quando não está contaminado por algo que nos leva a querer ultrapassa-lo, ao invés de usufruir do mesmo.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Do silêncio #3

Quando não se tem nada para dizer, nada se diz e quando nada se diz fica-se com a ideia de que algo não está bem, que é preciso dizer algo, porque o silêncio incomoda, sendo tão ruidoso como o trovão em dias de tempestade. Mesmo em tempos de bonança sopra sempre uma leve brisa, silenciosa mas audível. E a tantos incomoda o silêncio, inclusive a nós próprios, o que nos leva a olhar para dentro à procura de algo que possa estar mal, removendo-se pedras, cavando-se buracos em busca de coisa nenhuma. Tal leva-nos a encontrar o que não se devia, a desenterrar o que estava enterrado, tudo porque é difícil compreender o silêncio e achamos mesmo ser impossível viver com o mesmo, quando o devíamos olhar como algo natural, algo que faz parte da vida, mas acima de tudo, devíamos aprender a aprecia-lo, porque o mesmo é raro e precioso, mas não o sabemos apreciar. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Constatação #102

Há quem sofra por aquilo que foi um dia e não consegue voltar a ser.
Há quem sofra por aquilo que nunca foi e não sabe se algum dia vai ser.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Diferenças entre um Cristão e um Ateu

O Cristão faz, não pensa, faz porque assim o ensinaram, porque receia se não o fizer.
O Ateu pensa, depois só faz se assim o entender e se lhe parecer justo. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

É difícil seguir em frente quando a única coisa que nos move é uma vã esperança, mais uma ilusão do que realidade. A isto juntam-se pequenas pontes que mais não são pequenos focos de luz, que ora se acendem, ora se apagam, faltando um feixe contínuo, um caminho, algo que seja valido e que nos sirva de guia, de sinal, seja certo ou errado, apenas e só, algo que nos conduza para longe do terreno estático onde apenas nos afundamos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Da sorte

Diz a sabedoria popular que quem tem sorte no jogo não tem sorte no amor e vice-versa. Seguindo a lógica desta mesma frase parece que todos têm, de alguma forma, sorte em algo, o que não me parece que seja verdade. Parece-me mais que ou se tem sorte ou não se tem, seja no que for e pelo contrário, segundo aquilo que posso depreender do que já vi e vivi, temos por vezes pequenas sortes no meio de um grande azar que pode muito bem ser a nossa vida. E com pequenas sortes digo encontrar uns tostões no chão, não perder o autocarro por segundos, ter tomado a decisão certa num momento inesperado, pequenas coisas que caso não tivessem ocorrido apenas nos provocaria alguma frustração momentânea. Difícil mesmo é ter sorte na vida, na vida como um todo, no geral, no sentimento que temos no dia-a-dia, que se espelha na vontade com que nos levantamos da cama, no final, no modo como nos sentimos connosco mesmo, dependendo tal do modo como tudo à nossa volta nos corre. Existem os que estão felizes e se repararmos esses raramente se queixam, antes opinam sobre aquilo que pode estar mal. Os outros pelo contrário queixam-se diariamente, seja da mais ínfima coisa até à maior e de forma ruidosa, para todos ouvirem. Logo, ou se tem sorte ou não se tem e mesmo que pareçam existir pequenas sortes, muito longe estão as mesmas de nos tornarem seres sortudos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Não é difícil ser-se invejoso, ou ficar com uma ponta de inveja, sobretudo pela vida que os outros têm, que tantas vezes parece estar nos antípodas da nossa, ou pelo menos, assim o vemos. Contudo, ao olhar-se mais de perto e com alguma atenção, percebe-se que muito que os outros mostram é falso, ou pelo menos defeituoso. Pode haver ali razões para inveja ou para que a mesma seja em nós suscitada, de forma voluntária ou involuntária, mas observando o panorama completo percebe-se que a perfeição que julgávamos ver não mora ali. Antes têm problemas como os nossos, piores que os nossos, mais suaves que os nossos, mas têm problemas. A perfeição estará somente num ou noutro aspecto, nunca no geral. Ainda assim, por não serem os nossos problemas, por ser outra pele, outra vida, com mais uns condimentos que gostaríamos de possuir, somos tentados a invejar, até mesmo os problemas, já que, por sermos meros espectadores, parecem até mais simples de resolver que os nossos, como aliás sempre são, mas apenas na nossa cabeça e na nossa perspectiva. A nós falta-nos sempre algo, coisas concretas, coisas abstractas e soluções para tanta coisa resolver. Fácil no entanto é ficar a pensar que se fossemos este ou aquele, se tivéssemos isto ou aquilo, daí surgiria a solução, ou então, o problema não se punha sequer. Mas aquilo que esquecemos é que, mesmo que pudéssemos encarnar na vida dos outros, nos iríamos ver livres de todo e qualquer problema.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Problemas todos temos e os mesmos têm todas as cores e feitios, todas as dimensões e mais alguma, podem ser pequenos, médios ou grandes, mas são sempre um problema. No entanto, se nos pusermos a pensar, a maior parte, senão a maioria dos nossos problemas resume-se a apenas e só, aos outros. E poderiam pensar que não, que tal síntese acaba sempre com a conclusão que na base dos nossos problemas estamos nós próprios. É verdade, mas ao mesmo tempo não é. Deve-se à nossa interacção com os outros, naquilo que eles nos fazem sentir, na forma como nos relacionamos ou não com eles, sejam eles visíveis, invisíveis, reais ou imaginários, anónimos ou conhecidos. Toda a nossa disputa na terra é com os outros, no modo como lidamos com eles, como eles lidam connosco, como nos agradam ou desagradam, como as suas acções ou inacções interferem com as nossas, como as nossas interferem com as deles, misturando no meio de tudo isto sentimentos positivos e negativos. O que os outros fazem afecta-nos, o que nós fazemos afecta os outros, os nossos actos, as nossas vicissitudes chocam com as dos outros e nem sempre da forma como gostaríamos. Gostaríamos de nos livrar dos outros, faze-los desaparecer, ao mesmo tempo que sonhamos em tê-los perto de nós, o que fazer, num caso e noutro, resume-se ao modo como lidamos com eles, daquilo que somos e não somos capazes. Estamos fartos dos outros ou sedentos deles e eles serão sempre a causa última dos nossos problemas, os responsáveis por aquilo que somos, por aquilo que queremos, por aquilo que conseguimos ou não ter. Dos outros acabamos por depender, mesmo quando somos independentes, ou assim julgamos ser. E como tal dos outros depende a resolução de muitos dos nossos problemas, para mais, quando são eles os reais responsáveis por eles, até daqueles que julgamos ser única e exclusivamente problemas só da nossa parte.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Constatação #101

Aquilo que pensamos pode-nos magoar, mas aquilo que nos dizem magoa ainda mais.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Estático

Encontramo-nos parados no tempo quando tudo à nossa volta avança, altera-se, renova-se. Tudo menos nós, que nos encontramos estanques, estáticos, cravados no mesmo sítio como uma árvore, sem mexer, apenas abanando um pouco de vez em quando, julgando que isso é movimento. E só nos apercebemos da nossa imobilidade quando reparamos que há coisas que não existem mais, que avançaram, que evoluíram, espelhando em nós a nossa imobilidade, a inconspicuidade que nos prende, que não nos deixa mover. Olhando para trás muitos poderão dizer o quanto o tempo passou, sendo que o mesmo é dizer o quanto a vida deu uma volta, o quanto se fez, o quanto se alterou. Para os outros no entanto, o tempo é estático, o ontem poderia ser hoje, o anteontem idem e por aí a fora. Mas aquilo que mais dói, talvez, é ter a sensação que o amanhã será igual, assim como o depois de amanhã, pelo que o horizonte é infinito e parece ser impossível de alcançar.  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O ressentimento

É verdade que ficar ressentido com algo não é bom. Guardar rancor, não esquecer, são coisas que por norma ultrapassamos com o tempo, umas levam mais tempo, outras menos tempo, mas de alguma forma acabamos por superar tudo. Contudo, há sempre aquilo que não conseguimos esquecer, aquilo que não conseguimos perdoar, por mais tempo que passe, por maior que seja a distância, existem coisas que nos marcam para sempre, ficam cravadas na carne, afectam o nosso âmago e quando julgamos que já as esquecemos algo sucede, uma pequena faísca, suficiente para desenterrar velhos sentimentos, antigas memórias, que, pelo contrário, continuam vivos, como se o ontem fosse hoje. Tal sucede porque aquilo que somos hoje, que nos define, foi moldado nesse tempo, por esta ou aquela experiência, por alguém ou conjunto de pessoas, que ao invés de nos fazerem bem, fizeram-nos mal, mal esse que até pode não ter sido nada de extraordinário, mas foi suficiente para nos marcar ao ponto de nunca esquecermos e sobretudo nunca perdoarmos, ainda mais quando nunca houve um pedido de desculpas, uma tentativa de reparar aquilo que foi feito, ou até mesmo a consciência do mal que foi feito. E nesse caso o ressentimento persiste, durará para sempre, adormecido por vezes, desperto outras, mas constante, sendo praticamente impossível livrarmo-nos dele por completo, por muito peso que isso nos faça carregar, porque nem tudo pode ser ultrapassado e muito menos perdoado.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ninguém quer um brinquedo estragado. Um brinquedo estragado é, e será sempre, um brinquedo estragado, diferente de um brinquedo a funcionar, pleno nas suas funções. Ao invés, o estragado é sempre limitado, até se pode brincar com ele, mas nunca será igual e se aqueles há que preferem o estragado ao funcional, tal apenas acontece porque se afeiçoaram ao mesmo após muito tempo, porque o conheceram funcional e nas suas mãos se estragou, porque o encontraram estragado e mais nenhum outro tinham para brincar. De outra forma, se pudessem escolher, teriam optado sempre porque aquele que funcionava, o que melhor cor teria, o mais fantástico, o mais perfeito e polido. Qualquer um, que mesmo encontrando-se embalado, ao mínimo defeito, risco ou descoloração, na prateleira ficaria, até alguém desistir e atira-lo para o lixo. Alguns brinquedos, mesmo novos, acabados de sair da linha de produção, podem estar estragados, não pelo uso, mas pela sua natureza, bastando no entanto um pequeno jeito, um pequeno ajuste, um pequeno click, para encontrarem o seu esplendor, sendo que aí, nunca ninguém diria que alguma vez estivessem estragados ou com algum outro defeito. O problema é que ninguém se quer dar ao trabalho de os reparar, e utiliza-los só mesmo em último caso. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Das impossíbilidades

Existe sempre aquilo que sabemos que nunca vamos ter/viver. Não porque que haja nenhuma  razão especial para tal, quer dizer, haver há, porque nós somos nós e vai sempre haver aquilo que não é para a nossa “liga”, seja por falta de capacidade ou tão pura e simplesmente de sorte. Num primeiro momento preferimos não pensar nisso e continuar a acreditar, a sonhar que tudo pode ser nosso, mas depois, com o passar do tempo, com o acumular da experiência, apercebemo-nos que não vale a pena continuar à procura, ficar à espera, antes é preferível ir em frente e resignar-nos ao pouco que possamos ter e antes ver isso, ao invés de pouco, como muito. Contudo, se uns dias conseguimos assim viver, com o que temos, em tantos outros esquecemo-nos, deixamo-nos ir, sonhamos quando não devíamos, imaginamos que pode haver uma hipótese algures escondida, ao mesmo tempo que temos sempre a consciência de como etérea é a matéria dos sonhos e densa a que compõe a realidade. Daí que após a recaída voltamos a sentir o peso, talvez de forma mais atroz, mas se não fugirmos de vez em quando, mais difícil é respirar, ainda que depois as chagas sejam maiores.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Eis a questão


E porque não tentar ser normal?

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Da espera

A espera é tortuosa, como sempre foi e sempre será. Mas esperar por esperar, esperar ficando apenas à espera, não havendo nada pelo que esperar, ainda que pensemos que de tudo se está à espera, ultrapassa todos os limites que possamos ter, sejam eles de que cariz for. À espera perde-se tempo, o tempo que temos, o que não temos, o tempo que deveríamos estar a aproveitar e não conseguimos, esperando que a dada altura o mesmo ainda esteja válido para utilizar. Como tal, dizemos a nós mesmos que é uma idiotice ficar assim, à espera, mas quando não podemos fazer mais nada do que esperar, quando não vemos outra solução senão dar tempo ao tempo, aguardar melhores dias, não temos outro remédio senão esperar. E como nos custa. Já nos custa quando algo em concreto está para acontecer, mas aí, cedo ou tarde vai acontecer, pelo que o fim dessa etapa existe, agora quando nada há, desespera-se, agoniza-se, no fim, espera-se que a própria espera venha a acabar, de que modo? Não se sabe e como tal continua-se a esperar…

quarta-feira, 24 de junho de 2015

As "lendas"

Existem as pessoas normais e existem as lendárias. As normais todos nós conhecemos, são aquelas com que nos cruzamos, com quem lidamos diariamente, que vemos de um lado para o outro nas suas rotinas diárias. Já as lendárias são aquelas de que tanto ouvimos falar e não conhecemos, quer dizer, conhecemos de ouvir falar, ou de uma foto e pouco mais. Mas depois há um dia em que conhecemos as “lendas”, ou melhor, vemo-las na sua essência e são de facto “lendas”, porque assim se mostram perante os outros é vê-los no seu exibicionismo, nos seus gestos agravados, gestos que por vezes parecem simples e naturais, palavras que parecem carregadas de simpatia, mas de facto há toda uma aura, uma carga, que se nota, seja nos emissores, seja nos receptores, os quais, antes, tanto nos falaram das ditas “lendas”. Contudo, talvez por haver um observador isento, talvez porque a sensibilidade de poucos é diferente da maioria, nota-se, e bem, os gestos afectados, o à-vontade de quem está demasiado à-vontade e disso se faz anunciar, o pedantismo de quem tem sempre algo melhor para dizer, algo melhor para contar ou mostrar, tudo num campo onde a sua aceitação está, à partida, mais do que garantida, porque ninguém nota directamente, mas os reflexos esses vêem-se e ouvem-se, na tentativa de alguns quererem equivaler-se, nas conversas posteriores onde é exalado o fascínio e até, sem algum pudor, a inveja. Nesse momento as lendas podem festejar internamente, o seu objectivo foi atingido, conseguiram chegar e manter o status, o seu copo está mais uma vez cheio e assim continuará, até ao dia em que de lendas passem a meros mortais, as suas conquistas passem a problemas, de deslumbradores passem a deslumbrados e onde a inveja plantavam talvez eles a possam colher.  

terça-feira, 23 de junho de 2015

Constatação #100

Das duas uma, ou esperam sempre mais de ti do que aquilo que tu alguma vez pudeste esperar ou esperas mais de ti próprio do que todos os outros alguma vez esperaram. Resta saber quem está enganado, se os outros, se tu.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Alturas há em que muito temos para dizer. De uma gota de água fazemos um oceano, de um grão de areia fazemos um areal, de uma centelha produzimos um incêndio. A dificuldade depois é filtrar, tentar produzir algo com sentido, conjugar o turbilhão em algo concreto e definido, cortar o que está a mais, sintetizar. E parece que temos sempre algo para dizer, parece que conseguimos dizer sempre algo sobre tudo, mas o problema é que pensamos que tal vai durar para sempre, como uma fonte que nunca seca, tão certo como Sol se erguer todos os dias. Mas não. Um dia acaba, ou pelo menos refreia. De narrativas completas passamos a dizer apenas frases, de frases ficam apenas algumas palavras e em algumas ocasiões nem sabemos que palavras dizer, ou queremos dizer. Mas mais difícil ainda é haver dentro de nós combustível para dizer tanto, faltando tão somente algo para o incendiar, pelo que aquilo que sai por vezes é apenas uma verborreia cujo sentido e dimensão faltam. E perante tais verbos mal proferidos, tais adjectivos mal aplicados entre outros elementos gramaticais que tais, perde-se a vontade de tentar encontrar sentido no que se diz, pelo que, sentimo-nos mais seguros e definidos no silêncio.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dos defeitos

Todos temos defeitos. Depois há aqueles defeitos que se podem limar, subverter ou até mesmo, e mais difícil, exterminar. Mas, na maioria das vezes, os defeitos são parte de nós, podem ser submersos, camuflados, escondidos, acabando sempre por vir à tona, por se mostrarem, por se revelarem. Então lutamos contra isso, tentamos domestica-los, pinta-los de outra cor, aprender a conviver com eles, no fundo, controla-los, mas sempre conscientes que eles estão ali, à vista ou enterrados, prontos para assumirem o nosso controle, a direcção da nossa vida, nunca nos deixando esquecer que somos apenas humanos e como tal erramos, por mais que nos aprimoremos, que tentemos melhorar, seremos sempre nós e isso inclui também os nossos defeitos, os quais são acima de tudo resilientes.  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Noção do tempo

Perco a noção do tempo, não porque estou demasiado ocupado, mas sim porque acho que tenho demasiado tempo, quando não tenho. Discorro que tenho sempre tempo, demasiado tempo, que aquilo que interessa é perder tempo neste momento, sem me preocupar que o mesmo está, de facto, a escorrer-me pelas mãos como areia. Julgo ter demasiado tempo, porque penso que o mesmo é infinito, que durará para sempre e olhando à volta pareço não ter outra coisa senão o mesmo, o que me ilude, fazendo com que o desperdice, ou pura e simplesmente não o aproveite, seja por este motivo ou aquele, seja por preguiça ou por pensar que sei controlar o tempo que tenho. O facto é que ele passa, ainda por cima a correr e olhando para trás, tão pouco foi feito, para a frente, tanto que há para fazer, mas a inércia, essa, faz-me avançar demasiado lentamente, sendo difícil alcançar a posição ideal, em que estou em sintonia com o tempo que tenho, para que o mesmo possa ser da melhor forma aproveitado.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Dos mitos

Cada um de nós tem esse, ou esses lugares míticos. O lugar onde nunca se foi e possivelmente para o qual nunca se irá, sobre o qual se tecem ideias, sonhos e fantasias. O lugar de escape para onde se ia se se pudesse, mas para o qual não se vai porque não se quer realmente ainda que querendo. E não se vai porquê? Porque sabe-se que a ir poderia muito bem cumprir-se o sonho, ou ver o mesmo tornar-se um pesadelo, talvez nem tanto, somente poderia não ser tanto, ou como, estaríamos à espera. Muito da ideia que se faz sobre um lugar é apenas e só pura especulação, e sabemos isso desde o inicio, mas preferimos manter esse conceito a não ter nenhum outro, porque é preciso que haja sempre um escape, porque de sonhos desfeitos encontram-se os suportes de vidas inteiras, pelo que é preferível tantas vezes manter o mito, não pensar muito nele, para apenas sonhar-se com o mesmo.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

No meio...

No meio das multidões sofro de um problema ambivalente, ora me sinto acompanhado, ora me sinto sozinho.
Sinto-me acompanhado por todos com que me cruzo, como parte da maré humana que os mesmos compõem, indistinto, anónimo, mais um entre muitos, mais um como muitos, movendo-se à mesma frequência, com a mesma amplitude, totalmente em sintonia e sem distinção.
Sinto-me sozinho porque todos os outros parecem ser pares, parecem ser pequenos grupos dentro do grupo, atraem-se uns aos outros, juntam-se uns aos outros e eu no meio, a flutuar como algo que não se dissolve, um liquido imiscível, uma mancha de óleo na maré, que com a mesma se move, mas da qual não faz parte. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Do romance e outras coisas que tais

Isto do romance, do amor, do sentimento, da ternura, do encantamento, do afecto é bonito. Quantas linhas já não se escreveram, quantos não foram inspirados e ainda se inspiram, a leveza, a felicidade, por vezes até a obsessão, a ilusão, a motivação para guerras, lutas, conquistas, levados a criar obras de arte, arquitectónicas, megalómanas e até a ter ideias que ultrapassam tudo o que deriva da criação humana. Pois, muito bonito, muito bonito de facto, mas alto! É bonito sim senhor, quando tal não termina em desilusão, em engano, em pura perda de tempo, quando as coisas se conjugam e terminam de modo feliz ou no mínimo inspirador, quando se toca a serenata e alguém está de facto na varanda ao invés de estar de férias no Caribe. Quando há apenas alguma resistência inicial mas que percebe que querem que saltemos o muro. É bonito quando há, pelo menos, reacção do lado de lá, quando há receptividade, correspondência, conjunção, afinidade, ou no mínimo consciência de todo o código, das regras do jogo, porque senão é pura perda de tempo, pura parvoíce, é tentar para deitar fora, escrever para rasgar, gritar para a parede, chorar só para perder líquidos. E quando assim é ficamos a pensar porque raio evoluímos e não somos antes como os nosso primos macacos, onde se sabe perfeitamente quando é altura do cio, sendo que apenas se tem de enfrentar a concorrência e não a dúvida da parceira, envolta em sinais e contra-sinais do será que sim, será que não, será para hoje, será para amanhã, será para nunca, vai, não vai, quer, não quer? E dir-me-ão que nesse jogo de códigos, de dúvidas e incertezas está a graça. Pois está, quando a coisa no final de conjuga, porque quando não toda a graça desaparece e por vezes estão pura e simplesmente a gozar com a nossa cara, fazendo-nos perder tempo e paciência.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Da falsidade

Há quem goste de anunciar a sua vida aos outros. Quem goste de mostrar o que faz, o que tem, aquilo que é, com quem se dá, o que gosta e não gosta. É fácil expor muito daquilo que supostamente é a nossa vida, mais fácil ainda é expor-nos, mas acima de tudo é simples inventar ou fazer de conta, mostrando meias verdades. Quando se cria um perfil para esse efeito o mesmo é um misto de duas coisas, o que se é, mas sobretudo aquilo que se gostaria de ser. Por vezes a medida é ainda mais desequilibrada, sendo que nada daquilo que se cria tem algum ponto de verdadeiro. E porquê? Porque se os outros acreditarem, isso ajuda o seu autor a sentir que talvez isso seja mesmo verdade. Depois é o continuar. O mostrar a cada segundo, o alimentar de novidades e não novidades. A foto aqui, a foto ali, o que se comeu, o que se descobriu, o que se disse e não disse, a opinião que se tem e não se tem. E assim se vai alimentando o ego, se vai alimentando a curiosidade alheia, a qual, através de um like parece aprovar tudo e mais alguma coisa, quando no entanto esconde a inveja intrínseca, a competição nervosa, a perfídia maldosa que todos sabem que existe, mas que poucos admitem existir ou sentir. No fundo, no mundo da exposição voluntária, muito do que se expõe é a banalidade, a opacidade da realidade, o sonho ilusório que mistura a arrogância do ego, com a necessidade de querer ser aquilo que não se é, nunca se foi, mas sonha-se em ser, sem nunca ser.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

A propósito de mais um caso de bullying

A noticia é nova, mas o assunto não. Aliás, é velho, quiçá, tão velho quanto a própria humanidade. O bullying, quer queiramos quer não, existe e sempre vai existir. Razões para o mesmo serão tão diversas, mas sempre discutíveis. Antigamente pouco se falava em bullying, sabia-se que os miúdos, os jovens, os adolescentes no geral sofriam com isso, mas acabava-se sempre por atribuir a razão do mesmo à idade, à falta de maturidade, a uma brincadeira que se levou ao extremo e as coisas ficavam por ali. Tanto mais eram sempre os filhos dos outros que sofriam/faziam isso, e jamais esses mesmos filhos seriam os pequenos terroristas do recreio. Os fortes venciam, os fracos perdiam. Depois havia e há a vergonha, o estigma de ser vítima, de fazer queixa, de se queixar e quantos não sofreram com o bullying, para mais tarde se vingarem noutros e serem eles próprios os perpetradores do mesmo. Na verdade pensava-se que uma minoria sofria com o bullying, ao que parece trata-se antes de uma enorme minoria. Agora com as redes sociais, com os telemóveis com câmara captam-se os eventos, vê-se o sofrimento das vítimas que se calam, a raiva e brutalidade dos agressores, aqueles mesmos que eram uns anjinhos, que com palmo e meio de altura já conseguem ser tão ou mais violentos que um adulto. E é isso que choca, e chocará sempre, quando se olha directamente para o ódio, a violência, tão densa e compactada num projecto de pessoa. Quiçá, aquelas mesmas pessoas que mais tarde vestirão de preto, reúnem-se em tunas académicas, para continuar a fazer, com mais requinte aquilo que melhor sabem fazer, humilhar os outros. E mais longe se pode olha-los, no topo das hierarquias, sejam elas públicas ou privadas, a espezinhar e destruir todos quantos abaixo estejam, porque assim aprenderam, porque assim os deixaram ser, porque sabem que são fortes e que os outros são fracos. Mas os fracos, que podem eles fazer? Se responderem na mesma moeda podem viciar-se no vício dos outros, ou serem classificados tal como eles. E se denunciam parecem e sentem-se mais fracos do que já são. Seja de que modo for os que querem agir percebem que pouco podem fazer, porque se há um caso do qual se sabe, muitos outros ficam por saber, alguns dos quais em idades tão inferiores que muitos não conseguem acreditar. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

...

Cheios transpiramos, cuspimos, vomitamos tudo e mais alguma coisa, aquilo que queremos e não queremos, o que sabemos e o que não sabemos, criamos ao mesmo tempo que matamos, e brilhamos, brilhamos demasiado, ao ponto de quase nos incinerarmos nas chamas que expelimos.

Vazios absorvemos, engolimos, ingerimos tudo e mais alguma coisa, aquilo que queremos e não queremos, o que sabemos e não sabemos, matamos ao mesmo tempo nos magoamos, escurecemos, escurecemos demasiado, ao ponto de quase nos consumirmos na escuridão que nos envolve.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O inconsequente

Um dos meus maiores defeitos é ser inconsequente. Inconsequente na medida que barafusto no momento, digo o que quero e não quero, expludo e só depois, passado algum tempo é que volto a mim e vejo a merda que fiz, da qual, a maior parte das vezes, me arrependo. Isto porque, apesar de já ter idade e anos suficientes para saber que é melhor analisar as coisas a frio do que a quente, e deve-se pensar com a cabeça e não com o coração, continuo, volta e meia, a reagir bruscamente a certas situações, não medindo por vezes todas as suas consequências, calculando mal a trajectória e sobretudo, confiando em que não deveria confiar. Ainda assim posso dizer que em muito melhorei, mas há sempre algo que escapa, uma aresta para limar e esta é sem dúvida aquela que mais limadelas levou até hoje, mas ainda assim não de forma suficientemente profícua, para evitar que me meta em alhadas. Isto de dar voz ao coração, à raiva é típico de quem é inconsciente ou não se domina no seu todo, também há quem diga que é uma manifestação de personalidade intempestiva. Para mim é apenas manifestação de quem ainda é o suficiente parvo para não se conseguir controlar, tanto mais quando sabe à partida que sempre que reage assim as consequências hão-de vir e mesmo que não venham, fica o pesar na consciência. Por muito calmo que possa parecer, por muita sapiência que possa possuir e por muito que me contenha em certas situações, há sempre essa decisão, esse momento, essa palavra, dita ou escrita, que saia de modo mais veloz do que aquilo que anos de acumulada experiência possa contrair. E depois? Depois só nos resta inspirar fundo e aguardar as consequências que daí possam advir, tentando aprender mais uma vez aquilo que há muito sabemos, mas ainda assim sempre esquecemos.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Neutro

Por norma estamos num estado entre a tristeza e a felicidade, o qual não é uma coisa nem outra. É apenas o estado neutro, aquele que sentimos no correr diário do dia-a-dia. No entanto, confundimos este estado como se ele fosse tristeza, pelo facto de constatarmos que não estamos felizes. E quando estamos realmente tristes vemos este estado neutro como a mais pura das felicidades. Mas ele é apenas aquilo que é, neutro, nem uma coisa nem outra, longe dos extremos que balizam o nosso estado emocional, o qual o transveste do que não é aquilo que parece nada ser, e embora sendo não aceitamos o como tal. Isto porque só pensamos sentir as emoções nos extremos, fora disso elas são apenas estáveis e com isso não estamos habituados a lidar, porque acima de tudo, queremos sentir algo, quando já o sentimos de facto, simplesmente não o sabemos reconhecer, aproveitar e viver.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Do que gostaríamos de saber

Se há coisa que gostaríamos de saber, nem que seja numa única fracção da nossa vida, é o que pensam de nós. Sim, podemos dizer que não ligamos ao que outros pensam sobre nós e tal e coisa, mas a verdade é que há sempre uma situação ou outra em que nos vimos e desejamos para o saber. Não aquilo que já sabemos que pensam, aquilo que transparece, mas aquilo que realmente pensam, sem corantes, sem conservantes, sem complicações, abstracções ou formas retorcidas, aquilo que pensam, em toda a sua extensão, na sua totalidade, de uma ponta à outra e claramente. Obviamente tal é praticamente impossível, não pelo facto da maior parte de nós (senão todos) nascermos sem o dom da leitura de mentes, mas sim porque quem pensa o que quer seja de nós, não terá, nem conseguirá na maior parte dos casos, ter a noção do que realmente pensa de nós, salvo somente em casos agudos e extremos. A maior parte das pessoas pode pensar sobre nós mas dificilmente saberá o que isso significa, até onde pode ir, e tantas vezes nem sabem se gostam de nós ou nos odeiam, porque umas vezes por outras vão-nos odiar, da mesma forma que vão gostar de nós. E na maior parte das vezes o resultado será por isso neutro, nem uma coisa nem outra, seremos apenas mais uma personagem na vida de alguém, passageira ou frequente, cuja importância varia consoante a situação. Talvez por isso nos esforcemos em não nos preocuparmos com isso, porque a importância que julgamos ter em outrem, será por ventura muito menor do que aquilo que calculamos, da mesma forma que esse outrem raramente admitirá isso mesmo. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Das situações desconfortáveis

Tantas e tantas vezes vemo-nos metidos em situações desconfortáveis.
Algumas acontecem sem estarmos à espera e quanto a essas não há solução possível, a não ser fugir se possível ou ficar ali a tentar digerir a coisa o melhor possível.

Outras no entanto, ainda não aconteceram mas já nos deixam desconfortáveis e quanto a estas as dificuldades são várias. Desde logo o que fazer para as evitar, ou melhor dizendo qual a desculpa a dar para não termos de as aguentar. Depois, porque na maioria das vezes, nem sabemos bem ao certo a razão desse desconforto, mesmo antes da situação ter acontecido. Algo dentro de nós retrai-se, um instinto talvez, uma outra qualquer sensação nebulosa que nos leva a tentar evitar ao máximo a situação. Difícil é depois explicar tal pela via da razão, quando é algo que apenas se sente, tanto mais que em muitas ocasiões tal sensação é fácil de se ter, na medida em que a situação poderá apenas ser desconfortável porque é desconhecida, cheia de probabilidades, de combinações que tememos enfrentar por não conhecermos todo o cenário. E isso claro está, condiciona-nos, mais do que outra coisa qualquer. No entanto, fruto da vivência de algum tempo, há sempre situações cujo mínimo sinal de aproximação, levam sempre a dar um passo para trás sem muita hesitação. Para essas o verídico é imediato, se bem que tantas vezes estamos enganados e seria muito melhor ultrapassar o “trauma”, esperando algo melhor daquela vez. De uma forma ou de outra, ninguém gosta de se encontrar em determinadas situações, haverá sempre aquelas que nos constrangem mais do que outras, sendo que essas são aquelas que procuramos evitar, o que espelha, que por muito aventureiros e corajosos que possamos ser, muito desinibidos e fortes, há sempre algo que evitamos, de forma compreensível ou incompreensível e limar essas arestas deverá ser actividade para uma vida inteira.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Do futuro

E à frente o que há? Talvez tudo, mas mais provavelmente nada, ou pior, mais do mesmo, o que se resume a coisa nenhuma, ao estado actual, aquele de onde se olha para o futuro suspirando-se por algo de novo, por algo melhor, ou pelo menos para que nada piore. Devido a isso percebe-se que o pouco que se tem é alguma coisa, ainda que não nos complete, não nos satisfaça, restando então a decisão de ficar com assim ou desejar mais, sob pena de se perder o esse pouco na tentativa difícil de se alcançar tudo. Então adia-se a decisão para o futuro, na tentativa deste proporcionar melhores hipóteses, melhores condições e até, tendo esperança que tudo aconteça sem que o esforço parta de nós. Até lá no entanto sonha-se, suspira-se, para que o momento chegue, ao mesmo tempo que se duvida que algo caia dos céus, luta-se para não se cair em angústia, para encontrar soluções que nunca se vão concretizar, espera-se e desespera-se, deseja-se o futuro, ao mesmo tempo que se abomina o mesmo, aspirando-se para sair do seu domínio e por conseguinte das suas incertezas. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A melhor parte...

E essa é a minha melhor parte. Aquela que se esconde, que se mostra a todos para depois ir sem avisar. Aquela que ainda está por descobrir, que já se descobriu mas ainda se consegue observar de uma nova perspectiva. E essa é a minha melhor parte, a que tão depressa está aqui e agora, como já se foi e não se sabe quando vai voltar. Aquela que parece ser menos do que realmente é e mais do que alguma vez já foi. E essa é a minha melhor parte, aquela que tem vontade própria, que não obedece a regras nem latitudes, que está para lá da razão e ainda assim é razão, razão pela qual não se consegue controlar, não se consegue limitar, delinear, inconsciente do qual se tem consciência, receio que se receia por existir e por não voltar a existir, a tornar, a mostrar-se. Aquela que pode ser tudo e não ser nada, leve como uma pena, pesada como chumbo, que ri quando os outros choram, que chora quando riem os outros, que se espera ser sem ser, que vê mas não é vista, que é vista e não vê. E essa é a minha melhor parte, que é parte do todo ou o todo é parte da mesma.  

terça-feira, 14 de abril de 2015

Coisas dos tempos

Tenho a impressão que actualmente estar-se bem é outra coisa. Já não é algo que cada um sente no seu interior, mas sim, algo que se transmite para o exterior, pelo que, de outra forma, não seria possível estar-se bem se o mesmo não se puder mostrar a todos quantos o possam ver, ao invés de simplesmente ser uma coisa que se guarde para nós próprios. Talvez daí, a propagação como fogo no mato, das redes sociais e onde antes a angústia residia no facto de se conseguir sentir algo, novas sensações ou simplesmente ter boas emoções, agora parece estancar-se em conseguir ter algo de diferente, de inovador, que cause inveja, clamor, espasmo, para publicar, para divulgar, para dizer que se fez, está-se a fazer ou vai-se fazer, para no fim, como grande apoteose, mostra-lo a todos quanto o possam ver, sendo esta a fórmula para a felicidade. Quanto àquilo que se sente realmente, quanto ao gozar o momento só nosso, que pode acontecer sem nenhuma razão aparente, em nenhum lugar especial ou diferente, isso não tem interesse nenhum.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Plano

A única coisa que queremos é um plano, mas nem precisamos de conhecer o plano todo, só queremos que ele exista, para que o mesmo nos leve para onde não fomos, que nos permita fazer aquilo que nunca fizemos, que repita continuamente ou replique as boas sensações e que felicidade que já sentimos, que não nos deixe sossegar, surpreendendo-nos sempre com novidades que quebrem a monotonia.
A única coisa que precisamos é de um plano, não feito por nós, mas por nós conduzido, a nós dirigido, à nossa medida, que nos envolva e realize, que nos traga água para beber quando temos sede, que nos alargue os horizontes quando os mesmos definham aos nossos olhos, que extermine as trevas que nos perseguem, para no fim olharmos para trás e vermos obra, um caminho cheio de etapas, repleto de recordações, e não uma linha recta do tempo que se passou e não se conseguiu aproveitar.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Constatação #99

Por vezes tenho a sensação, senão mesmo a certeza, que perco mais tempo a preparar-me para a vida ao invés de a viver…

terça-feira, 7 de abril de 2015

Dos encalhados

Estar encalhado é uma doença. Mas não é uma doença pessoal, é antes uma doença social, de género e sobretudo uma doença que os outros diagnosticam mais do que nós próprios, sendo mais uma doença para eles do que para quem, ao que parece, padece dela. 
Senão vejamos. 

Quem está encalhado até pode estar bem, pronto, bem ninguém está, mas pode-se ficar melhor se não tivermos sempre alguém a lembrar-nos disso mesmo, a apontar o dedo para esse facto. Se alguém está encalhado é por está encalhado, porque tem falta de oportunidades, sorte, ou pura e simplesmente sente-se bem assim, preferindo, por razões que cada qual entende, estar encalhado naturalmente a ter de sentir qualquer pressão para deixar de estar. 

Por outro lado o que tem de acontecer irá acontecer e não adianta haver um coro de gente a apontar-nos o dedo, a lembrar-nos o quanto a nossa vida é triste, quando se calhar não é, como se isso fosse mudar alguma coisa. Pode mudar, mas apenas colocar-nos deprimidos, a pensar no que não devemos, a fazer com que procuremos defeitos que se calhar nem temos, tudo porque nos dizem, diz a sociedade ressoando no nosso interior, que somos uns renegados, uns coxos, uns solitários. 

Depois a grande diferença sucede entre géneros. 
Uma mulher encalhada é sempre olhada de modo mais negativo do que um homem encalhado. 
Primeiro porque se uma mulher está encalhada é porque não deve ser grande coisa, até os próprios homens desconfiam da sorte que têm por encontrarem uma encalhada, ao ponto de pensarem que o bolo possa trazer fava, senão mesmo brinde. A seguir porque uma mulher encalhada e que se deixe ir na conversa que a rodeia ou dela própria (porque normalmente as mulheres são mais melodramáticas que os homens), acaba sempre por ter atitudes de desespero, de aceitação a tudo, mesmo o que não quer, temendo a solidão como a pior das epidemias, esquecendo a força que tem, as capacidades que possui, as virtudes que apresenta, tudo para rapidamente exterminar esse facto, mas a dor é tal que muitas vezes o que a acontece é que exactamente o oposto. Mas o pior de tudo é que as mulheres parecem sofrer muito mais com esse estigma social do que os homens, porque sobre elas recai uma maior pressão e por muito que digam que não ligam ao que os outros dizem, há sempre um sussurro que ecoa no interior e faz tremer as paredes.


Quanto aos homens, estarem encalhados é mais bem visto, porque sempre se pode pensar que se  o estão, é porque apanham muita fruta, e como grandes apanhadores não se querem comprometer de modo a continuarem a apanhar tudo o que conseguirem. A grande diferença acontece quando os homens não apanham nada e então nasce a desconfiança que se calhar gostam é da fruta errada, ou não gostam de fruta de todo. Daí surgem também as pressões. Um homem encalhado tem de gostar de tudo o que aparece, tem de ter uma fome maior que todos os outros, não pode deixar escapar uma oportunidade de lançar o dente, não pode ser esquisito e isto claro está, nas palavras do coro, que tal como acontece nas mulheres, berra e faz barulho, até ao ponto que o eco acaba por ressoar no interior trazendo consigo consequências nefastas para o próprio. 

No fundo, o “estar encalhado” é uma estigma social, mais do que um problema pessoal. Torna-se um problema pessoal porque a pressão social é tanta que se acaba sempre por ficar contaminado e ao invés de isso ajudar a resolver a questão, ela apenas piora.  

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Na pele dos outros

Na pele dos outros tudo é fácil. É fácil fazer, fácil dizer e só por questões incompreensíveis é que os outros não usam a sua pele, coisa que nós faríamos com sucesso. Na pele dos outros seríamos os primeiros, seríamos vencedores, os heróis, os maiores, tudo aquilo que não conseguimos ser na nossa própria pele, porque a textura da mesma não o permite. A pele dos outros é por estes desperdiçada, mal amada e aos nossos olhos tem um potencial latente, o qual nós saberíamos explorar, usar, dado que o seu detentor parece não o saber. A pele dos outros parece servir-nos, mais do que a nossa própria pele, porque tantas vezes gostaríamos de sair da mesma e aproveitar a alheia, porque essa sim, é à nossa medida. No entanto, quando as coisas correm mal para aquele outro, quando a desgraça paira sobre ele, os problemas sucedem-se sem resolução, somos os primeiros a respirar de alívio por não estar na pele alheia.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Estar à espera

Diz-se que o melhor acontece quando não estamos à espera, que só assim é genuíno, puro, verdadeiro. No entanto, quando não estamos à espera e por não estarmos à espera, nem sempre reagimos da melhor forma, não tomamos a melhor decisão, encontramo-nos impreparados e para quem o improviso é sinónimo de desastre, aquilo que aparece de repente, pode-se tornar um bicho-de-sete-cabeças ou pura e simplesmente mais um acto falhado, do qual rapidamente se sente remorsos. Por outro lado se estamos à espera podemos tecer um plano, ficar na retaguarda, ter várias opções, se bem que, desse modo, é preciso referi-lo, sabe tudo a sintético e pouco a algo autêntico, o que pode de igual forma conduzir ao desastre. Em suma, talvez o melhor mesmo é estar sempre preparado para o que ocorre sem aviso, ainda que as probabilidades sejam poucas, alguma possa correr a nosso favor. Mas o problema é que sempre que esperamos raramente acontece.  

quarta-feira, 18 de março de 2015

Desnorte

Ando totalmente à nora, desnorteado, sem norte o que por acaso rima com sorte. Mas se antes também andava da mesma forma, certo é que nem sempre tal me fazia confusão, antes, ignorava, para depois tomar consciência do mesmo, ou sentir tal como um pensamento racional e não como uma sensação que se transporta continuamente. Seria fácil tomar um caminho, um qualquer que fosse, mas para tal é preciso uma decisão, um querer, algo que forçasse a isso mesmo, acima de tudo, uma certeza ou um salpico da mesma. De outra forma aqui fico, a olhar para todos os lados, a ir sem chegar a sítio nenhum, a sonhar sem realizar, a escrever sem sentido nenhum, a ler sem perceber, a seguir rotinas bem definidas mas que me fazem definhar, a viver pensando que vivo sem no entanto sentir estar a viver.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Constatação #98

Uma pessoa, qualquer pessoa, é antes de ser, não aquilo que se vê, mas aquilo que transpira.

terça-feira, 10 de março de 2015

Fugir

Se por um lado fugimos, fugimos para onde podemos ser felizes, para onde nos sentimos bem, para longe daquilo que nos magoa, do que nos frustra. Nem sempre somos capazes de fugir, nem sempre podemos fugir e muito menos conseguimos fugir de forma completa, porque há sempre o que nos persegue, uma parte de nós que fica, a conjunção de todos esses factores, fazendo com que a fuga seja sempre imperfeita, seja por vezes impossível de executar no seu todo e tantas outras bastaria tão pouco para ficar completa, para ser definitiva.
Se por outro lado nunca pensámos em fugir é porque não sentimos necessidade de o fazer, porque temos força suficiente, confiança e argúcia para conseguir enfrentar tudo, para resolver os problemas que vão aparecendo. Como tal temos os pés bem assentes na terra, o corpo e a mente vincados no pragmatismo, a ausência de emoções absurdas, a vivência possível que se nos adequa como uma capa. Contudo, ainda assim, tudo pode ruir, acabar, ficar tremido e aí aquilo que tínhamos por certo, acaba por nada valer pelo que ponderamos a fuga, para sobreviver, para tentar reverter algum processo que se iniciou e do qual se perdeu o controlo ou não se pode controlar de todo, nascendo daí o medo.

E da mesma forma podemos andar toda a vida a fugir apenas porque sim, porque não gostamos de estar num sítio, porque a procura, a tentativa erro, mais do que outra coisa, é aquilo que nos satisfaz acima do medo ou da confiança. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Constatação #97

É curioso perceber que, nas mais diversas ocasiões, somos mais felizes nos nossos pensamentos do que nas nossas realidades. A questão depois será, o que depreender disso mesmo…