terça-feira, 7 de abril de 2015

Dos encalhados

Estar encalhado é uma doença. Mas não é uma doença pessoal, é antes uma doença social, de género e sobretudo uma doença que os outros diagnosticam mais do que nós próprios, sendo mais uma doença para eles do que para quem, ao que parece, padece dela. 
Senão vejamos. 

Quem está encalhado até pode estar bem, pronto, bem ninguém está, mas pode-se ficar melhor se não tivermos sempre alguém a lembrar-nos disso mesmo, a apontar o dedo para esse facto. Se alguém está encalhado é por está encalhado, porque tem falta de oportunidades, sorte, ou pura e simplesmente sente-se bem assim, preferindo, por razões que cada qual entende, estar encalhado naturalmente a ter de sentir qualquer pressão para deixar de estar. 

Por outro lado o que tem de acontecer irá acontecer e não adianta haver um coro de gente a apontar-nos o dedo, a lembrar-nos o quanto a nossa vida é triste, quando se calhar não é, como se isso fosse mudar alguma coisa. Pode mudar, mas apenas colocar-nos deprimidos, a pensar no que não devemos, a fazer com que procuremos defeitos que se calhar nem temos, tudo porque nos dizem, diz a sociedade ressoando no nosso interior, que somos uns renegados, uns coxos, uns solitários. 

Depois a grande diferença sucede entre géneros. 
Uma mulher encalhada é sempre olhada de modo mais negativo do que um homem encalhado. 
Primeiro porque se uma mulher está encalhada é porque não deve ser grande coisa, até os próprios homens desconfiam da sorte que têm por encontrarem uma encalhada, ao ponto de pensarem que o bolo possa trazer fava, senão mesmo brinde. A seguir porque uma mulher encalhada e que se deixe ir na conversa que a rodeia ou dela própria (porque normalmente as mulheres são mais melodramáticas que os homens), acaba sempre por ter atitudes de desespero, de aceitação a tudo, mesmo o que não quer, temendo a solidão como a pior das epidemias, esquecendo a força que tem, as capacidades que possui, as virtudes que apresenta, tudo para rapidamente exterminar esse facto, mas a dor é tal que muitas vezes o que a acontece é que exactamente o oposto. Mas o pior de tudo é que as mulheres parecem sofrer muito mais com esse estigma social do que os homens, porque sobre elas recai uma maior pressão e por muito que digam que não ligam ao que os outros dizem, há sempre um sussurro que ecoa no interior e faz tremer as paredes.


Quanto aos homens, estarem encalhados é mais bem visto, porque sempre se pode pensar que se  o estão, é porque apanham muita fruta, e como grandes apanhadores não se querem comprometer de modo a continuarem a apanhar tudo o que conseguirem. A grande diferença acontece quando os homens não apanham nada e então nasce a desconfiança que se calhar gostam é da fruta errada, ou não gostam de fruta de todo. Daí surgem também as pressões. Um homem encalhado tem de gostar de tudo o que aparece, tem de ter uma fome maior que todos os outros, não pode deixar escapar uma oportunidade de lançar o dente, não pode ser esquisito e isto claro está, nas palavras do coro, que tal como acontece nas mulheres, berra e faz barulho, até ao ponto que o eco acaba por ressoar no interior trazendo consigo consequências nefastas para o próprio. 

No fundo, o “estar encalhado” é uma estigma social, mais do que um problema pessoal. Torna-se um problema pessoal porque a pressão social é tanta que se acaba sempre por ficar contaminado e ao invés de isso ajudar a resolver a questão, ela apenas piora.  

2 comentários:

GATA disse...

Porque a sociedade dita que todos temos que casar e procriar, e quem não faz uma das coisas, é condenado à morte em vida!

AC disse...

Sou sozinha por opção. Não ligo nenhuma ao que possam pensar ou ao que gostariam de decidir para mim. Faço com a minha vida o que quero, procuro o que acho que me fará feliz, sigo de acordo com o que que me propus e mudo de opinião quando me apetecer. Não espero nada e o que tiver que ser assim será.

E olha.... tenho sido muito feliz.