terça-feira, 19 de maio de 2015

Da falsidade

Há quem goste de anunciar a sua vida aos outros. Quem goste de mostrar o que faz, o que tem, aquilo que é, com quem se dá, o que gosta e não gosta. É fácil expor muito daquilo que supostamente é a nossa vida, mais fácil ainda é expor-nos, mas acima de tudo é simples inventar ou fazer de conta, mostrando meias verdades. Quando se cria um perfil para esse efeito o mesmo é um misto de duas coisas, o que se é, mas sobretudo aquilo que se gostaria de ser. Por vezes a medida é ainda mais desequilibrada, sendo que nada daquilo que se cria tem algum ponto de verdadeiro. E porquê? Porque se os outros acreditarem, isso ajuda o seu autor a sentir que talvez isso seja mesmo verdade. Depois é o continuar. O mostrar a cada segundo, o alimentar de novidades e não novidades. A foto aqui, a foto ali, o que se comeu, o que se descobriu, o que se disse e não disse, a opinião que se tem e não se tem. E assim se vai alimentando o ego, se vai alimentando a curiosidade alheia, a qual, através de um like parece aprovar tudo e mais alguma coisa, quando no entanto esconde a inveja intrínseca, a competição nervosa, a perfídia maldosa que todos sabem que existe, mas que poucos admitem existir ou sentir. No fundo, no mundo da exposição voluntária, muito do que se expõe é a banalidade, a opacidade da realidade, o sonho ilusório que mistura a arrogância do ego, com a necessidade de querer ser aquilo que não se é, nunca se foi, mas sonha-se em ser, sem nunca ser.


1 comentário:

GATA disse...

A explosão da exibição, cortesia das redes sociais, faz-me confusão, quiçá porque sou reservada...