quinta-feira, 30 de abril de 2015

Do que gostaríamos de saber

Se há coisa que gostaríamos de saber, nem que seja numa única fracção da nossa vida, é o que pensam de nós. Sim, podemos dizer que não ligamos ao que outros pensam sobre nós e tal e coisa, mas a verdade é que há sempre uma situação ou outra em que nos vimos e desejamos para o saber. Não aquilo que já sabemos que pensam, aquilo que transparece, mas aquilo que realmente pensam, sem corantes, sem conservantes, sem complicações, abstracções ou formas retorcidas, aquilo que pensam, em toda a sua extensão, na sua totalidade, de uma ponta à outra e claramente. Obviamente tal é praticamente impossível, não pelo facto da maior parte de nós (senão todos) nascermos sem o dom da leitura de mentes, mas sim porque quem pensa o que quer seja de nós, não terá, nem conseguirá na maior parte dos casos, ter a noção do que realmente pensa de nós, salvo somente em casos agudos e extremos. A maior parte das pessoas pode pensar sobre nós mas dificilmente saberá o que isso significa, até onde pode ir, e tantas vezes nem sabem se gostam de nós ou nos odeiam, porque umas vezes por outras vão-nos odiar, da mesma forma que vão gostar de nós. E na maior parte das vezes o resultado será por isso neutro, nem uma coisa nem outra, seremos apenas mais uma personagem na vida de alguém, passageira ou frequente, cuja importância varia consoante a situação. Talvez por isso nos esforcemos em não nos preocuparmos com isso, porque a importância que julgamos ter em outrem, será por ventura muito menor do que aquilo que calculamos, da mesma forma que esse outrem raramente admitirá isso mesmo. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Das situações desconfortáveis

Tantas e tantas vezes vemo-nos metidos em situações desconfortáveis.
Algumas acontecem sem estarmos à espera e quanto a essas não há solução possível, a não ser fugir se possível ou ficar ali a tentar digerir a coisa o melhor possível.

Outras no entanto, ainda não aconteceram mas já nos deixam desconfortáveis e quanto a estas as dificuldades são várias. Desde logo o que fazer para as evitar, ou melhor dizendo qual a desculpa a dar para não termos de as aguentar. Depois, porque na maioria das vezes, nem sabemos bem ao certo a razão desse desconforto, mesmo antes da situação ter acontecido. Algo dentro de nós retrai-se, um instinto talvez, uma outra qualquer sensação nebulosa que nos leva a tentar evitar ao máximo a situação. Difícil é depois explicar tal pela via da razão, quando é algo que apenas se sente, tanto mais que em muitas ocasiões tal sensação é fácil de se ter, na medida em que a situação poderá apenas ser desconfortável porque é desconhecida, cheia de probabilidades, de combinações que tememos enfrentar por não conhecermos todo o cenário. E isso claro está, condiciona-nos, mais do que outra coisa qualquer. No entanto, fruto da vivência de algum tempo, há sempre situações cujo mínimo sinal de aproximação, levam sempre a dar um passo para trás sem muita hesitação. Para essas o verídico é imediato, se bem que tantas vezes estamos enganados e seria muito melhor ultrapassar o “trauma”, esperando algo melhor daquela vez. De uma forma ou de outra, ninguém gosta de se encontrar em determinadas situações, haverá sempre aquelas que nos constrangem mais do que outras, sendo que essas são aquelas que procuramos evitar, o que espelha, que por muito aventureiros e corajosos que possamos ser, muito desinibidos e fortes, há sempre algo que evitamos, de forma compreensível ou incompreensível e limar essas arestas deverá ser actividade para uma vida inteira.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Do futuro

E à frente o que há? Talvez tudo, mas mais provavelmente nada, ou pior, mais do mesmo, o que se resume a coisa nenhuma, ao estado actual, aquele de onde se olha para o futuro suspirando-se por algo de novo, por algo melhor, ou pelo menos para que nada piore. Devido a isso percebe-se que o pouco que se tem é alguma coisa, ainda que não nos complete, não nos satisfaça, restando então a decisão de ficar com assim ou desejar mais, sob pena de se perder o esse pouco na tentativa difícil de se alcançar tudo. Então adia-se a decisão para o futuro, na tentativa deste proporcionar melhores hipóteses, melhores condições e até, tendo esperança que tudo aconteça sem que o esforço parta de nós. Até lá no entanto sonha-se, suspira-se, para que o momento chegue, ao mesmo tempo que se duvida que algo caia dos céus, luta-se para não se cair em angústia, para encontrar soluções que nunca se vão concretizar, espera-se e desespera-se, deseja-se o futuro, ao mesmo tempo que se abomina o mesmo, aspirando-se para sair do seu domínio e por conseguinte das suas incertezas. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A melhor parte...

E essa é a minha melhor parte. Aquela que se esconde, que se mostra a todos para depois ir sem avisar. Aquela que ainda está por descobrir, que já se descobriu mas ainda se consegue observar de uma nova perspectiva. E essa é a minha melhor parte, a que tão depressa está aqui e agora, como já se foi e não se sabe quando vai voltar. Aquela que parece ser menos do que realmente é e mais do que alguma vez já foi. E essa é a minha melhor parte, aquela que tem vontade própria, que não obedece a regras nem latitudes, que está para lá da razão e ainda assim é razão, razão pela qual não se consegue controlar, não se consegue limitar, delinear, inconsciente do qual se tem consciência, receio que se receia por existir e por não voltar a existir, a tornar, a mostrar-se. Aquela que pode ser tudo e não ser nada, leve como uma pena, pesada como chumbo, que ri quando os outros choram, que chora quando riem os outros, que se espera ser sem ser, que vê mas não é vista, que é vista e não vê. E essa é a minha melhor parte, que é parte do todo ou o todo é parte da mesma.  

terça-feira, 14 de abril de 2015

Coisas dos tempos

Tenho a impressão que actualmente estar-se bem é outra coisa. Já não é algo que cada um sente no seu interior, mas sim, algo que se transmite para o exterior, pelo que, de outra forma, não seria possível estar-se bem se o mesmo não se puder mostrar a todos quantos o possam ver, ao invés de simplesmente ser uma coisa que se guarde para nós próprios. Talvez daí, a propagação como fogo no mato, das redes sociais e onde antes a angústia residia no facto de se conseguir sentir algo, novas sensações ou simplesmente ter boas emoções, agora parece estancar-se em conseguir ter algo de diferente, de inovador, que cause inveja, clamor, espasmo, para publicar, para divulgar, para dizer que se fez, está-se a fazer ou vai-se fazer, para no fim, como grande apoteose, mostra-lo a todos quanto o possam ver, sendo esta a fórmula para a felicidade. Quanto àquilo que se sente realmente, quanto ao gozar o momento só nosso, que pode acontecer sem nenhuma razão aparente, em nenhum lugar especial ou diferente, isso não tem interesse nenhum.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Plano

A única coisa que queremos é um plano, mas nem precisamos de conhecer o plano todo, só queremos que ele exista, para que o mesmo nos leve para onde não fomos, que nos permita fazer aquilo que nunca fizemos, que repita continuamente ou replique as boas sensações e que felicidade que já sentimos, que não nos deixe sossegar, surpreendendo-nos sempre com novidades que quebrem a monotonia.
A única coisa que precisamos é de um plano, não feito por nós, mas por nós conduzido, a nós dirigido, à nossa medida, que nos envolva e realize, que nos traga água para beber quando temos sede, que nos alargue os horizontes quando os mesmos definham aos nossos olhos, que extermine as trevas que nos perseguem, para no fim olharmos para trás e vermos obra, um caminho cheio de etapas, repleto de recordações, e não uma linha recta do tempo que se passou e não se conseguiu aproveitar.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Constatação #99

Por vezes tenho a sensação, senão mesmo a certeza, que perco mais tempo a preparar-me para a vida ao invés de a viver…

terça-feira, 7 de abril de 2015

Dos encalhados

Estar encalhado é uma doença. Mas não é uma doença pessoal, é antes uma doença social, de género e sobretudo uma doença que os outros diagnosticam mais do que nós próprios, sendo mais uma doença para eles do que para quem, ao que parece, padece dela. 
Senão vejamos. 

Quem está encalhado até pode estar bem, pronto, bem ninguém está, mas pode-se ficar melhor se não tivermos sempre alguém a lembrar-nos disso mesmo, a apontar o dedo para esse facto. Se alguém está encalhado é por está encalhado, porque tem falta de oportunidades, sorte, ou pura e simplesmente sente-se bem assim, preferindo, por razões que cada qual entende, estar encalhado naturalmente a ter de sentir qualquer pressão para deixar de estar. 

Por outro lado o que tem de acontecer irá acontecer e não adianta haver um coro de gente a apontar-nos o dedo, a lembrar-nos o quanto a nossa vida é triste, quando se calhar não é, como se isso fosse mudar alguma coisa. Pode mudar, mas apenas colocar-nos deprimidos, a pensar no que não devemos, a fazer com que procuremos defeitos que se calhar nem temos, tudo porque nos dizem, diz a sociedade ressoando no nosso interior, que somos uns renegados, uns coxos, uns solitários. 

Depois a grande diferença sucede entre géneros. 
Uma mulher encalhada é sempre olhada de modo mais negativo do que um homem encalhado. 
Primeiro porque se uma mulher está encalhada é porque não deve ser grande coisa, até os próprios homens desconfiam da sorte que têm por encontrarem uma encalhada, ao ponto de pensarem que o bolo possa trazer fava, senão mesmo brinde. A seguir porque uma mulher encalhada e que se deixe ir na conversa que a rodeia ou dela própria (porque normalmente as mulheres são mais melodramáticas que os homens), acaba sempre por ter atitudes de desespero, de aceitação a tudo, mesmo o que não quer, temendo a solidão como a pior das epidemias, esquecendo a força que tem, as capacidades que possui, as virtudes que apresenta, tudo para rapidamente exterminar esse facto, mas a dor é tal que muitas vezes o que a acontece é que exactamente o oposto. Mas o pior de tudo é que as mulheres parecem sofrer muito mais com esse estigma social do que os homens, porque sobre elas recai uma maior pressão e por muito que digam que não ligam ao que os outros dizem, há sempre um sussurro que ecoa no interior e faz tremer as paredes.


Quanto aos homens, estarem encalhados é mais bem visto, porque sempre se pode pensar que se  o estão, é porque apanham muita fruta, e como grandes apanhadores não se querem comprometer de modo a continuarem a apanhar tudo o que conseguirem. A grande diferença acontece quando os homens não apanham nada e então nasce a desconfiança que se calhar gostam é da fruta errada, ou não gostam de fruta de todo. Daí surgem também as pressões. Um homem encalhado tem de gostar de tudo o que aparece, tem de ter uma fome maior que todos os outros, não pode deixar escapar uma oportunidade de lançar o dente, não pode ser esquisito e isto claro está, nas palavras do coro, que tal como acontece nas mulheres, berra e faz barulho, até ao ponto que o eco acaba por ressoar no interior trazendo consigo consequências nefastas para o próprio. 

No fundo, o “estar encalhado” é uma estigma social, mais do que um problema pessoal. Torna-se um problema pessoal porque a pressão social é tanta que se acaba sempre por ficar contaminado e ao invés de isso ajudar a resolver a questão, ela apenas piora.  

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Na pele dos outros

Na pele dos outros tudo é fácil. É fácil fazer, fácil dizer e só por questões incompreensíveis é que os outros não usam a sua pele, coisa que nós faríamos com sucesso. Na pele dos outros seríamos os primeiros, seríamos vencedores, os heróis, os maiores, tudo aquilo que não conseguimos ser na nossa própria pele, porque a textura da mesma não o permite. A pele dos outros é por estes desperdiçada, mal amada e aos nossos olhos tem um potencial latente, o qual nós saberíamos explorar, usar, dado que o seu detentor parece não o saber. A pele dos outros parece servir-nos, mais do que a nossa própria pele, porque tantas vezes gostaríamos de sair da mesma e aproveitar a alheia, porque essa sim, é à nossa medida. No entanto, quando as coisas correm mal para aquele outro, quando a desgraça paira sobre ele, os problemas sucedem-se sem resolução, somos os primeiros a respirar de alívio por não estar na pele alheia.