sexta-feira, 22 de maio de 2015

Do romance e outras coisas que tais

Isto do romance, do amor, do sentimento, da ternura, do encantamento, do afecto é bonito. Quantas linhas já não se escreveram, quantos não foram inspirados e ainda se inspiram, a leveza, a felicidade, por vezes até a obsessão, a ilusão, a motivação para guerras, lutas, conquistas, levados a criar obras de arte, arquitectónicas, megalómanas e até a ter ideias que ultrapassam tudo o que deriva da criação humana. Pois, muito bonito, muito bonito de facto, mas alto! É bonito sim senhor, quando tal não termina em desilusão, em engano, em pura perda de tempo, quando as coisas se conjugam e terminam de modo feliz ou no mínimo inspirador, quando se toca a serenata e alguém está de facto na varanda ao invés de estar de férias no Caribe. Quando há apenas alguma resistência inicial mas que percebe que querem que saltemos o muro. É bonito quando há, pelo menos, reacção do lado de lá, quando há receptividade, correspondência, conjunção, afinidade, ou no mínimo consciência de todo o código, das regras do jogo, porque senão é pura perda de tempo, pura parvoíce, é tentar para deitar fora, escrever para rasgar, gritar para a parede, chorar só para perder líquidos. E quando assim é ficamos a pensar porque raio evoluímos e não somos antes como os nosso primos macacos, onde se sabe perfeitamente quando é altura do cio, sendo que apenas se tem de enfrentar a concorrência e não a dúvida da parceira, envolta em sinais e contra-sinais do será que sim, será que não, será para hoje, será para amanhã, será para nunca, vai, não vai, quer, não quer? E dir-me-ão que nesse jogo de códigos, de dúvidas e incertezas está a graça. Pois está, quando a coisa no final de conjuga, porque quando não toda a graça desaparece e por vezes estão pura e simplesmente a gozar com a nossa cara, fazendo-nos perder tempo e paciência.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Da falsidade

Há quem goste de anunciar a sua vida aos outros. Quem goste de mostrar o que faz, o que tem, aquilo que é, com quem se dá, o que gosta e não gosta. É fácil expor muito daquilo que supostamente é a nossa vida, mais fácil ainda é expor-nos, mas acima de tudo é simples inventar ou fazer de conta, mostrando meias verdades. Quando se cria um perfil para esse efeito o mesmo é um misto de duas coisas, o que se é, mas sobretudo aquilo que se gostaria de ser. Por vezes a medida é ainda mais desequilibrada, sendo que nada daquilo que se cria tem algum ponto de verdadeiro. E porquê? Porque se os outros acreditarem, isso ajuda o seu autor a sentir que talvez isso seja mesmo verdade. Depois é o continuar. O mostrar a cada segundo, o alimentar de novidades e não novidades. A foto aqui, a foto ali, o que se comeu, o que se descobriu, o que se disse e não disse, a opinião que se tem e não se tem. E assim se vai alimentando o ego, se vai alimentando a curiosidade alheia, a qual, através de um like parece aprovar tudo e mais alguma coisa, quando no entanto esconde a inveja intrínseca, a competição nervosa, a perfídia maldosa que todos sabem que existe, mas que poucos admitem existir ou sentir. No fundo, no mundo da exposição voluntária, muito do que se expõe é a banalidade, a opacidade da realidade, o sonho ilusório que mistura a arrogância do ego, com a necessidade de querer ser aquilo que não se é, nunca se foi, mas sonha-se em ser, sem nunca ser.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

A propósito de mais um caso de bullying

A noticia é nova, mas o assunto não. Aliás, é velho, quiçá, tão velho quanto a própria humanidade. O bullying, quer queiramos quer não, existe e sempre vai existir. Razões para o mesmo serão tão diversas, mas sempre discutíveis. Antigamente pouco se falava em bullying, sabia-se que os miúdos, os jovens, os adolescentes no geral sofriam com isso, mas acabava-se sempre por atribuir a razão do mesmo à idade, à falta de maturidade, a uma brincadeira que se levou ao extremo e as coisas ficavam por ali. Tanto mais eram sempre os filhos dos outros que sofriam/faziam isso, e jamais esses mesmos filhos seriam os pequenos terroristas do recreio. Os fortes venciam, os fracos perdiam. Depois havia e há a vergonha, o estigma de ser vítima, de fazer queixa, de se queixar e quantos não sofreram com o bullying, para mais tarde se vingarem noutros e serem eles próprios os perpetradores do mesmo. Na verdade pensava-se que uma minoria sofria com o bullying, ao que parece trata-se antes de uma enorme minoria. Agora com as redes sociais, com os telemóveis com câmara captam-se os eventos, vê-se o sofrimento das vítimas que se calam, a raiva e brutalidade dos agressores, aqueles mesmos que eram uns anjinhos, que com palmo e meio de altura já conseguem ser tão ou mais violentos que um adulto. E é isso que choca, e chocará sempre, quando se olha directamente para o ódio, a violência, tão densa e compactada num projecto de pessoa. Quiçá, aquelas mesmas pessoas que mais tarde vestirão de preto, reúnem-se em tunas académicas, para continuar a fazer, com mais requinte aquilo que melhor sabem fazer, humilhar os outros. E mais longe se pode olha-los, no topo das hierarquias, sejam elas públicas ou privadas, a espezinhar e destruir todos quantos abaixo estejam, porque assim aprenderam, porque assim os deixaram ser, porque sabem que são fortes e que os outros são fracos. Mas os fracos, que podem eles fazer? Se responderem na mesma moeda podem viciar-se no vício dos outros, ou serem classificados tal como eles. E se denunciam parecem e sentem-se mais fracos do que já são. Seja de que modo for os que querem agir percebem que pouco podem fazer, porque se há um caso do qual se sabe, muitos outros ficam por saber, alguns dos quais em idades tão inferiores que muitos não conseguem acreditar. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

...

Cheios transpiramos, cuspimos, vomitamos tudo e mais alguma coisa, aquilo que queremos e não queremos, o que sabemos e o que não sabemos, criamos ao mesmo tempo que matamos, e brilhamos, brilhamos demasiado, ao ponto de quase nos incinerarmos nas chamas que expelimos.

Vazios absorvemos, engolimos, ingerimos tudo e mais alguma coisa, aquilo que queremos e não queremos, o que sabemos e não sabemos, matamos ao mesmo tempo nos magoamos, escurecemos, escurecemos demasiado, ao ponto de quase nos consumirmos na escuridão que nos envolve.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O inconsequente

Um dos meus maiores defeitos é ser inconsequente. Inconsequente na medida que barafusto no momento, digo o que quero e não quero, expludo e só depois, passado algum tempo é que volto a mim e vejo a merda que fiz, da qual, a maior parte das vezes, me arrependo. Isto porque, apesar de já ter idade e anos suficientes para saber que é melhor analisar as coisas a frio do que a quente, e deve-se pensar com a cabeça e não com o coração, continuo, volta e meia, a reagir bruscamente a certas situações, não medindo por vezes todas as suas consequências, calculando mal a trajectória e sobretudo, confiando em que não deveria confiar. Ainda assim posso dizer que em muito melhorei, mas há sempre algo que escapa, uma aresta para limar e esta é sem dúvida aquela que mais limadelas levou até hoje, mas ainda assim não de forma suficientemente profícua, para evitar que me meta em alhadas. Isto de dar voz ao coração, à raiva é típico de quem é inconsciente ou não se domina no seu todo, também há quem diga que é uma manifestação de personalidade intempestiva. Para mim é apenas manifestação de quem ainda é o suficiente parvo para não se conseguir controlar, tanto mais quando sabe à partida que sempre que reage assim as consequências hão-de vir e mesmo que não venham, fica o pesar na consciência. Por muito calmo que possa parecer, por muita sapiência que possa possuir e por muito que me contenha em certas situações, há sempre essa decisão, esse momento, essa palavra, dita ou escrita, que saia de modo mais veloz do que aquilo que anos de acumulada experiência possa contrair. E depois? Depois só nos resta inspirar fundo e aguardar as consequências que daí possam advir, tentando aprender mais uma vez aquilo que há muito sabemos, mas ainda assim sempre esquecemos.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Neutro

Por norma estamos num estado entre a tristeza e a felicidade, o qual não é uma coisa nem outra. É apenas o estado neutro, aquele que sentimos no correr diário do dia-a-dia. No entanto, confundimos este estado como se ele fosse tristeza, pelo facto de constatarmos que não estamos felizes. E quando estamos realmente tristes vemos este estado neutro como a mais pura das felicidades. Mas ele é apenas aquilo que é, neutro, nem uma coisa nem outra, longe dos extremos que balizam o nosso estado emocional, o qual o transveste do que não é aquilo que parece nada ser, e embora sendo não aceitamos o como tal. Isto porque só pensamos sentir as emoções nos extremos, fora disso elas são apenas estáveis e com isso não estamos habituados a lidar, porque acima de tudo, queremos sentir algo, quando já o sentimos de facto, simplesmente não o sabemos reconhecer, aproveitar e viver.