quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ninguém quer um brinquedo estragado. Um brinquedo estragado é, e será sempre, um brinquedo estragado, diferente de um brinquedo a funcionar, pleno nas suas funções. Ao invés, o estragado é sempre limitado, até se pode brincar com ele, mas nunca será igual e se aqueles há que preferem o estragado ao funcional, tal apenas acontece porque se afeiçoaram ao mesmo após muito tempo, porque o conheceram funcional e nas suas mãos se estragou, porque o encontraram estragado e mais nenhum outro tinham para brincar. De outra forma, se pudessem escolher, teriam optado sempre porque aquele que funcionava, o que melhor cor teria, o mais fantástico, o mais perfeito e polido. Qualquer um, que mesmo encontrando-se embalado, ao mínimo defeito, risco ou descoloração, na prateleira ficaria, até alguém desistir e atira-lo para o lixo. Alguns brinquedos, mesmo novos, acabados de sair da linha de produção, podem estar estragados, não pelo uso, mas pela sua natureza, bastando no entanto um pequeno jeito, um pequeno ajuste, um pequeno click, para encontrarem o seu esplendor, sendo que aí, nunca ninguém diria que alguma vez estivessem estragados ou com algum outro defeito. O problema é que ninguém se quer dar ao trabalho de os reparar, e utiliza-los só mesmo em último caso. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Das impossíbilidades

Existe sempre aquilo que sabemos que nunca vamos ter/viver. Não porque que haja nenhuma  razão especial para tal, quer dizer, haver há, porque nós somos nós e vai sempre haver aquilo que não é para a nossa “liga”, seja por falta de capacidade ou tão pura e simplesmente de sorte. Num primeiro momento preferimos não pensar nisso e continuar a acreditar, a sonhar que tudo pode ser nosso, mas depois, com o passar do tempo, com o acumular da experiência, apercebemo-nos que não vale a pena continuar à procura, ficar à espera, antes é preferível ir em frente e resignar-nos ao pouco que possamos ter e antes ver isso, ao invés de pouco, como muito. Contudo, se uns dias conseguimos assim viver, com o que temos, em tantos outros esquecemo-nos, deixamo-nos ir, sonhamos quando não devíamos, imaginamos que pode haver uma hipótese algures escondida, ao mesmo tempo que temos sempre a consciência de como etérea é a matéria dos sonhos e densa a que compõe a realidade. Daí que após a recaída voltamos a sentir o peso, talvez de forma mais atroz, mas se não fugirmos de vez em quando, mais difícil é respirar, ainda que depois as chagas sejam maiores.