terça-feira, 27 de outubro de 2015

Nós, os tugas

O Português, vulgo tuga, está mentalizado que todos andam a engana-lo, em particular os outros tugas como ele. Seja em que campo for, profissional, institucional, corporativo ou social, boa parte da ideia que o tuga tem é que essa é uma guerra perdida, queira que não queira será sempre enganado. A existência de tudo e todos resume-se a isso mesmo, tentar trapacear, seja nas pequenas ou nas grandes coisas, seja no campo legal ou ilegal, pela frente, mas de forma mais comum pelas costas, aproveitando-se da ignorância ou da distracção, tudo se resume ao mais puro e vil engano. E o que faz o tuga em relação a isso, para além de já estar mentalizado com essa ideia? Faz igual! Se ele acha que os que estão acima dele o enganam, então faz o mesmo aos que estão abaixo dele. Se os outros se aproveitam dele, ele aproveita-se daqueles que consegue, isto tudo numa espiral sem fim, do grande para o pequeno, de cima para baixo e de baixo para cima. E basicamente a vida do tuga resume-se a isso, a ser enganado e a enganar. Agora se é mesmo verdade que o enganam, isso são outros quinhentos, talvez não o enganem tanto quanto ele pensa, e quiçá até o enganaram menos do que aquilo que ele engana, no entanto é também bem provável que o enganem ainda mais do que ele julga e por muitos que ele engane não chegará nem sequer aos calcanhares dos outros. Depois, quando alguém de facto não o engana, desconfia, desconfia como sempre desconfiaria, mas desconfia de forma diferente, porque é praticamente impossível que tal aconteça, porque quebra-se a regra de ouro, mas acima de tudo a justificação para o facto de ele enganar, sendo que a conclusão será apenas uma, se não o tentam enganar é porque são parvos, porque o que vale é ser-se esperto, de preferência chico-esperto e até parece mal não o ser. Resumo disto tudo, enquanto o tuga fizer aos outros aquilo que julga que lhe fazem a ele, nunca o mal será cortado pela raiz, nunca o ciclo será quebrado e como tal mantém-se o paradigma sem nunca chegar a ter fim.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Do que se perde

Se há coisa uma coisa quase certa neste mundo é que um transporte público nunca sai adiantado. Quando muito sai a horas, ou uns minutos depois, ou até mais. Talvez por isso nós chegamos à estação, ou à paragem, momentos antes, porque se chegarmos depois, podemos ter sorte, mas o normal é termos azar e o dito já partiu. Depois há quem recorrentemente chegue em cima da hora, no limite, sujeitando-se a falhar o horário por uma questão de minutos, ou até segundos, sendo que a seguir não há volta a dar a não ser aguardar pelo próximo, isto se houver um próximo. Assim é a vida no que toca a apanhar os transportes públicos, mas se pensarmos bem, é assim em tantas outras coisas. Quantas vezes chegamos tarde de mais, ainda que julgando que estávamos a chegar em cima da hora? Quantas vezes fomos optimistas ao ponto de achar que a sorte ia fazer que houvesse um atraso nesse dia, o suficiente para que conseguíssemos atingir o nosso objectivo? Por vezes falhamos e sabemos porque falhamos, mesmo quando não temos culpa, quando há um percalço que nos impede de chegar no tempo certo, quando a margem que estabelecemos é demasiado curta. E o certo é que as coisas partem, naquela hora, na hora que sabemos que partem e depois de partirem não as podemos mais alcançar, deixando-nos ali, parados, estáticos, desanimados e frustrados. Se algo virá entretanto, é possível que sim, mas nada é tão certo como aquilo que perdemos, porque disso, do que é passado, temos nós a certeza, do futuro ninguém sabe.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando...

Quando deixamos de acreditar deixamos de sentir. Passamos de intérpretes da nossa vida a meros espectadores da mesma, isto porque nos sentimos longe, longe do mundo, de nós próprios, de tudo aquilo que nos fazia sentir bem, do que nos dava prazer e ânimo para continuar. No fundo, sem sentir parecemos sombras, sentimo-nos vazios, sem rumo, apenas umas meras máquinas que se limitam a cumprir as suas tarefas básicas, aguardando que algo surja, algo que nos possa voltar a colocar na dianteira daquilo a que se chama vida. E esperar por isso, ficar sujeito ao que de externo nos possa conduzir a uma revolução interna, que nos possa acender e fazer explodir, é doloroso, tanto mais quanto mais tempo durar esse capítulo, da mesma forma que, pela condicionante temporal, mais agravado fica o nosso estado, até ao ponto de temermos deixar de ser, ou voltar a ser.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vencidos

É difícil darmo-nos por vencidos. Recusamo-lo quando tal é evidente. Não aceitamos essa figura de ânimo leve. E porquê? Porque por norma houve uma expectativa, demasiado alta talvez, que nos fez acreditar que poderíamos conseguir, ultrapassar, vencer. Lidar com isso faz parte da vida assim como tantas outras coisas, mas acabamos sempre por perder mais tempo a chorar pelo prato derramado do que em seguir em frente. Isto porque muitas vezes fica-se na dúvida, se realmente perdemos, se realmente há uma hipótese de ainda ganhar, porque quando o objectivo é incerto e nebuloso é difícil seguir em frente, é complicado perceber em que patamar nos encontramos. Assim sendo a dificuldade maior não reside em ganhar ou perder, mas sim, em saber identificar os objectivos a que nos propomos, bem como a forma como lidamos com os mesmos. O problema no entanto, é que nem sempre escolhemos, por vezes acabamos nós por sermos escolhidos e nem sempre por aquilo que compreendemos ou estamos preparados para lidar. Talvez por isso, não seja fácil chegarmos a uma conclusão, como aquela em nos temos de conformar que, simplesmente, perdemos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ser rico

Muita gente há que gostava de ser rica. No entanto existem aqueles não só não gostavam de ser ricos, como querem ser ricos. Nada há contra quem queira ser rico, há quem trabalhe, poupe, procure ter novas ideias, inovar, estudar, etc, batalhar para conseguir de alguma for ter mais do que a maioria. Contudo, muitos mais existem que nada fazem por isso, ainda que queiram ser igualmente ricos. Como não o conseguem procuram então parecer, ao invés de o ser realmente. Mudam os gestos, os preceitos, ganham preconceitos achando que assim se vão sentir mais ricos, tornando a riqueza, que é coisa material, num estado de espírito que os deforma, corrói e os transforma no mais reles excremento social, aqueles que nada têm mas que se acham superiores aos outros. Por isso exibem toda uma série de atitudes, todas, segundo os próprios, contrárias ao que um pobre supostamente faria. E no meio destas atitudes uma coloco em destaque, aquela em que eles se tornam apoiantes, senão mesmo sabujos, dos verdadeiros ricos, dos grandes barões, aqueles que na maior parte das vezes exploram os demais, inclusive, esses que tanto gostavam de ser como eles, mas só podia ser dessa forma, porque ao contrário seria coisa de pobre.