quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O anjo e o diabo

O primeiro decidiu ir trabalhar pelo céu.
O segundo decidiu ir trabalhar pelo inferno.
Do primeiro espera-se que promova a solidariedade.
Do segundo espera-se que promova a ganância.
Um deixou o país de tanga.
O outro deixou o país para trás.
Espera-se que o primeiro faça o que puder e o pouco que seja, será sempre em prol de muitos, para os quais pouco é sempre mais.
Espera-se que o segundo faça aquilo que é pago para fazer e terá de ser muito, porque a poucos interessa sempre mais e mais.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Constatação #104


Quando não conseguimos obter aquilo que é possível, tendemos a sonhar com o impossível.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

...

E por um momento paras. E nesse instante percebes algo. Percebes que muito passou sem teres notado, que o mundo continuou a rodar e tu pareces ter ficado parado. Que há coisas que perdestes e não vais conseguir recuperar. Que outras há, que pensas ainda estares a tempo de concretizar. Que deixaste para trás mais do que eventualmente vais conseguir recuperar à frente. E o tempo esse continua a passar, a correr-te por entre os dedos, e ao invés de o tentares acompanhar, de correres com ele, preferes, ainda, continuar a observa-lo a escapar-se, como se a estagnação, ao invés de um estado, fosse cada vez mais a tua própria essência, e talvez por isso, apenas com dificuldade consegues parar, porque quando paras acabas por tomar consciência do que realmente és e não queres ser, sem que, no entanto, daí surja algum caminho ou solução que possibilite o inverter a situação.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Coragem

Coragem não é fazer aquilo que estamos habituados a fazer. Coragem é fazer algo que nunca faríamos de todo, sem grandes contemplações. Há quem lhe chame igualmente loucura, poderá ser, mas independentemente da semântica, a razão maior pela qual não temos “actos” de coragem deve-se ao facto de pensarmos nas consequências ou então por não avaliarmos correctamente as mesmas. Porque quando não pensamos conseguimos fazer qualquer coisa, corra ela bem ou mal, seja positiva ou negativa, acabando por se tornar benéfica ou nefasta. Muita gente aprecia a coragem, receia no entanto imita-la, talvez porque a verdadeira seja inusitada, não programada, sendo que nem sempre reagimos da mesma forma perante situações limite. Mas a coragem também é determinada pelo momento e esse faz toda a diferença, em particular a nível de reconhecimento, porque basta um único acontecimento na nossa vida para ficarmos conhecidos por tal, ao passo que podemos ser as criaturas mais corajosas do mundo, sem que ninguém o reconheça como tal, porque isso apenas é o habitual.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Adaptação

É verdade que queríamos ser melhores, mais ágeis, mais assertivos, mais inteligentes, com melhor percepção, mais tudo aquilo que não somos, que não conseguimos ser, faltando para tal a coordenação mental, física e emocional ou simplesmente um rasgo de qualquer coisa que não sabemos ao certo o que é. Como seria bom ultrapassar as nossas barreiras, aquelas que nascem connosco ou aquelas que criámos. Como seria bom adaptarmo-nos às circunstâncias, superar todas as adversidades, receios, falhas, podermos brilhar num espaço que não é nosso, em qualquer espaço, mostrando ao mundo tudo aquilo que somos, a nossa plenitude, usando para tal as ferramentas do momento, ao invés de ficarmos à espera que o ambiente se adapte a nós. E adaptação é talvez o busílis da questão. Capacidade rara, difícil, de apresentar o nosso melhor lado independentemente de tudo, ao invés de ficarmos num canto a pensar o que fazer. Há quem o consiga, há quem não o consiga de todo, por falta de tempo, de estratégia, ou simplesmente de capacidade, e com isso muito se perde, sendo que a única coisa que se ganha é um rol de questões, que nos obrigam a questionar o que somos, quais os nossos limites e se algumas vez os vamos conseguir ultrapassar, além de que fica a mágoa, sempre a mágoa, de tudo o que se perdeu pela nossa incapacidade e jamais se voltará a recuperar.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Peso

E o peso esmaga-me a alma, e a alma esmaga-me o peso e no fim de contas ambos se esmagam eternamente, sobrando o sonho, etéreo e fugaz, para fazer o peso somado esquecer. Do peso vem a responsabilidade, da alma vem a liberdade, juntos misturam-se num labirinto, onde ambos convergem, ambos convivem, sendo que nem uma coisa nem outra se acabe por manifestar por completo, criando algo ainda mais denso, que é e não é ao mesmo tempo, sendo tudo e nada de igual forma para nada ser, a não ser lastro que ainda mais pesa. E conjugados ambos me esmagam, sobrando o céu para sonhar, o qual roda ao meu redor, parecendo tão próximo e tão distante e na pequena claridade que fornece a luz, escapa-se algo que promete o que não pode prometer, que conduz para a leveza que não se tem, substitui o labirinto por uma planície, que faz fechar os olhos e dormir, dormir tão só até voltar a acordar, onde tudo, de novo, se volta a sentir.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ir para onde?

Ir para onde não se sabe, na esperança de encontrar o que se desconhece, sem esperança no entanto, de encontrar o que quer seja. Nada de diferente, porque o alternativo não se procura, encontra-se, encontra-se onde não se sabe, quando não se percebe, nem se espera. E quando se espera, quando se quer nada se encontra, mas sem ir como encontrar? O que fazer então? Ficar sentado à espera sem nada esperar? Ou esperar encontrar porque se procura, para nada se encontrar, porque nada se encontra quando se procura…

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Momentos

Alturas há em que somos a erupção, tanto para dizer, tão pouco tempo para o fazer. E queremos expressar tudo o que nos vai na alma, e vemos a alma a gritar connosco, querendo de nós fugir. Tentamos agarrar o que podemos, certos de que vamos perder metade, senão mais e do pouco que sobra, tanto fazemos. Nesse momento pensamos como seria se tudo conseguíssemos apanhar, se ao pé de nós estivesse sempre caneta e papel, se a memória não nos traísse e todos os instantes fossem registados.


No entanto, outras alturas há, em que nada parece ter nexo, em que frases soltas ou mesmo compostas, parecem não ter sentido nenhum, ou do sentido não conseguimos traçar uma linha recta para que lado seja. O desinteresse apanha-nos, corrói a vontade, torna-nos preguiçosos e onde antes podíamos ver ouro, agora vemos apenas latão, algo com brilho, mas sem valor. O tempo torna-se um bem precioso demais, apenas se gastar em ociosidade, da qual nada se faz e muito menos se cria.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

...

E às vezes pergunto-me, para quê todo este esforço?
(Inclusive, o de perguntar o porquê!)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Existem determinados assuntos sobre os quais não sei o que pensar. Não que sejam pouco importantes, com falta de relevância no âmbito geral, mas pura e simplesmente não sei que opinião deva ter sobre mesmos, se é que é possível por vezes ter uma opinião sequer. Isso acontece, talvez, porque existem assuntos sobre os quais há, à partida, uma ideia feita do que é correcto opinar sobre os mesmos, pelo que, tendo-se outra perspectiva ou não se tendo perspectiva nenhuma, tal parece tornar-nos insensíveis aos olhos dos outros, numa persona non grata, cruel ou desprovida de sentimentos. E isto, quando ainda estamos a pensar no que dizer, apenas e só porque não proferimos a frase que se espera, como se de um reflexo se tratasse.

É verdade que existem assuntos que se resumem a preto e branco, em que não há possibilidade de cinzentos, contudo, muitos há em que é difícil fazer uma destrinça tão antagónica, pelo que, com tantos outros problemas que há, mais aqueles que nos acodem pessoalmente, nem sempre podemos ter uma carteira recheada de frases feitas só porque é politicamente correcto. Até porque, para se ter uma opinião sobre qualquer assunto, é preciso ponderar sobre o mesmo, e da mesma forma que há situações susceptíveis de debate, sem que do mesmo haja consenso, existem muitos assuntos que abordamos de forma diferente ou não abordamos sequer. No fim o que está verdadeiramente em causa, é que o facto de estarmos desligados de determinados assuntos leva-nos a abordar os mesmos com a razão, ao passo que outros os abordam com a emoção, pelo que, confrontados com tal, não pensam, apenas reagem.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Diferenças entre homens e mulheres #29

Enquanto os homens só pensam em sexo, as mulheres só pensam no cenário à volta do mesmo!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

As bofetadas

Ora estava eu nas minhas andanças e eis que hoje (sim, só hoje) soube da polémica que levou à destituição do ministro da cultura, essa fraca figura, a qual, dado o porte físico, assustará somente alguma mosca mais distraída. Mas ao que parece o senhor, com aquele ar pachorrento, é dado à violência…um momento, violência não, “violênciazinha” será o termo mais correcto. Aparentemente o dito senhor sentiu-se ofendido porque alguém escreveu o que não gostou e como tal, para parecer um verdadeiro macho latino (vertente essa que muitos desconheciam), ofereceu umas bofetadas gratuitas. Contudo parece-me que o dito senhor equivocou-se, porque, macho que é macho não oferece umas “salutares bofetadas”, oferecesse antes uns “murros nos cornos” (notaram a diferença de tom? É que faz toda a diferença). Isso de oferecer bofetadas talvez fizesse sentido se ao invés de um ministro da cultura, tivéssemos tido uma ministra da cultura, aí sim, a coisa estava enquadrada. Pior ainda é que ele ofereceu as bofetadas, mas reacções não houve, a não ser a sua destituição, indignação por parte dos visados e um coro de riso pela restante população. Se ele tivesse antes feito uma ameaça em condições, ou ao invés de estar com promessas, partir para os actos, aí a malta talvez simpatizasse com o tipo, ou pelo menos ganhava-lhe algum respeito, pensariam “epá, este gajo não é para brincadeiras”!
Espero que a TVI tome nota deste episódio e na próxima edição da “Casa dos Degredos” convide João Soares, porque se ele é moço para andar à bofetada, ainda que seja algo muito pouco macho, é um candidato perfeito e haverá muita gente que não resistirá à curiosidade de querer ver a proficiência do senhor no que diz respeito a andar ao estalo.

Posto isto, se o mesmo com este post se sentir ofendido e me vier oferecer umas bofetadas, sejam salutares ou não, fica já avisado que é melhor pôr-se fino, pois pode muito bem encontrar o que procura!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Constatação #103

É mais fácil ver o passado com os olhos do presente, do que ver o futuro com os olhos do passado.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Os conselheiros

Existe sempre quem nos queira oferecer conselhos, ou pelo menos é essa a capa que usam para de facto nos estarem a criticar. E criticam na medida que nós não reagimos como deveríamos, oferecendo de imediato a solução e solução é termos de ser, sem o dizerem directamente, praticamente iguais a eles, seguir o seu exemplo, como se exemplos fossem. O facto é que tal não ajuda, ao invés, se nos sentimos mal devido às nossas limitações, pior ficamos quando alguém gosta de as sublinhar e até descobri-las onde não as encontramos, acabando basicamente por nos apontar mais defeitos do que aqueles que conseguimos vislumbrar, tudo para “venderem” logo de seguida o seu belo conselho, onde obviamente acabam, de facto, por se enaltecerem a si próprios de forma indirecta. E depois o resultado é sentirmo-nos miseráveis, inseguros, instáveis, porque nos deixam a pensar, porque nos deixam preocupados com aquilo que somos, como se até ali não tivéssemos sido nada, não tivéssemos alcançado nada e a verdade sobre nós apenas tivesse sido descoberta quando estas criaturas connosco se cruzaram e ministrando sobre nós a sua imbatível sapiência, para depois, aí sim, conseguirem fazer de nós alguém que até aí, segundos os próprios, nunca fomos. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Errar

Não existem verdades absolutas, no entanto, se há coisa que é absoluta é a vida, porque só temos esta para viver e pouco tempo para o fazer. Gostaríamos de ter mais oportunidades, de poder fazer reset muitas mais vezes, voltar ao inicio, começar, errar e voltar a jogar. Mas não. Vivemos, erramos e passamos metade do tempo a reparar/apagar os erros, os quais tantas vezes não têm forma de serem de apagados ou reparados. Sentimo-nos presos a eles porque eles de facto nos prendem, a atenção, o tempo, a vontade, as energias e viver passa somente a ser isso e nada mais. No entanto, se o conseguimos fazer, receamos cometer novos erros e no receio vive a morte, o estatismo, a falta de vontade de tudo fazer, de arriscar, porque pensamos que liberdade é não estarmos presos, mas presos estamos se nos escusamos a viver.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Veneno Feminino

É certo e sabido que homens e mulheres são diferentes. Mas à parte das diferenças óbvias, há um ponto que por mais vezes que dê por ele, sempre me consegue surpreender.

Sabe-se que os homens entre eles falam de mulheres, nem sempre da forma mais correcta, mais idílica e graciosa, utilizando termos, conceitos e preconceitos, proferindo taras, manias e desejos que no seu conjunto podem muito bem chocar o chauvinista mais extremista. Mas isto, obviamente, somente entre eles, basta entrar uma mulher em cena, e se não houver muita confiança, cala-se de imediato e assobiam para o lado, tentando esconder o sorriso maldoso.


Agora quando as mulheres falam entre elas sobre outras mulheres, verdade seja dita, não são tão gráficas e expositivas como os homens. Não envolvem perversões sexuais na conversa, no entanto, o ódio que conspurcam, os defeitos que enumeram, as posturas que criticam e o veneno que exalam chegam a níveis tais, que se as mesmas mordessem a língua, certamente morriam de uma vez só. E o mais curioso é que se entra um homem em cena, elas continuam o ataque cerrado, não desarmam, pedindo ao macho presente a opinião, esperando um chorrilho retorcido do mesmo, o qual ele é incapaz de proferir (por falta da plateia adequada para o efeito), ao mesmo tempo que fica muitas vezes chocado pela violência das palavras ou mesmo, pela opinião estereotipada, que em muitos casos, parece mais própria dos homens do que das mulheres.


Por isso, acabo por concluir, que os homens por muitos impropérios que digam sobre as mulheres fazem-no porque as desejam (mesmo que de um modo puramente suíno), quiçá, até gostem delas. Já as mulheres por seu lado, fazem-no, certamente, por pura maldade, inveja e ciúme ou isso tudo junto! Creio que não há outra forma de explicar tal comportamento.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

É fácil dizer segue em frente, vai à luta, sai do canto, abstrai-te do escuro, voa. É fácil falar tanta coisa que supostamente tem como finalidade ajudar, tirar-nos do fundo, elevar-nos, incendiar a nossa alma. Mas se fácil é falar, difícil é concretizar. Podemos dize-lo a nós próprios, podemos ouvir os outros a dize-lo, repetidas vezes até ao limite da exaustão, mas de nada serve, a não ser, aumentar a ansiedade, a tornar tudo mais agudo, urgente, difícil. Porque se a sensação existe, parece evoluir e transformar-se em dor quando soletrada, sussurrada, gritada. E se a tentamos destruir, ultrapassa-la, o som parece criar-lhe massa, fazendo crescer espinhos, fazendo-nos fugir, esconder, para onde não queremos ir, mais fundo, mais baixo, longe de onde se pode apanhar boleia para superar. O silêncio não ajuda, mas do silêncio pode surgir som e por vezes é preferível tentar encontrar luz no escuro do que escurecer tudo e apagar toda a claridade. Por isso antes de se dizer o que quer que seja, é preciso sabe-lo como se vai concretizar a seguir, de outra forma somente se criará ruído, o qual, ao invés de ser uma ajuda, acaba por criar ainda mais dificuldades.